Na última edição do festival É Tudo Verdade, o seu diretor, Amir Labaki, perguntava se nós, pessoas próximas, tínhamos conhecimento de algum trabalho que estivesse sendo produzido sobre a obra de Vladimir Carvalho. O grande documentarista havia falecido surpreendentemente havia alguns meses. Apesar dos seus 89 anos, o realizador do clássico O País de São Saruê (e de tantos outros) não tinha nenhuma enfermidade, estava sólido como um mármore de Carrara, participava de inúmeros eventos culturais e, além disso, havia deixado um longa inacabado já em sua fase final de finalização. Labaki tinha, e tem, um enorme respeito e admiração por Vladimir. Queria algo novo, diferente dos lugares-comuns e epítetos conhecidos (o mais nobre deles enunciado por Glauber Rocha: “o Rosselini do sertão”) escrito por um jovem, que lançasse uma luz nova sobre a obra do cineasta.
Não, não sabíamos de nada além de frágeis rumores sobre uma jovem que estaria produzindo uma tese acadêmica não se sabia bem se em Minas Gerais ou outro lugar. Esses rumores se tornaram um fato quando chegou a notícia que a jovem goiana Aline Fernandes Carrijo havia acabado de defender, no Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade de São Paulo, a tese Diante da Catástrofe: a Modernização Brasileira nos filmes de Vladimir Carvalho, transformada em livro, em 2026, pela Editora Cubile. O título intrigava, assim como o recorte escolhido pela autora. Aline propunha (ou propõe) uma reinterpretação “do lugar ocupado por Vladimir Carvalho na historiografia do cinema brasileiro”. Traduzindo em miúdos, a autora considera que a obra do cineasta vai muito além do “regionalismo”, ela (a obra) exterioriza uma complexa perspectiva sobre a modernização do país, a partir do impacto que a construção de Brasília produziu na região Centro-Oeste.

O “Rosselini do sertão”, acima mencionado, (em Aline) extravasa o sentido comumente atribuído a este clássico epíteto atribuído ao grande realizador baiano. O sertão agora abarca muito mais do que o Nordeste, inclui Goiás e o Distrito Federal, muito retratados na cinematografia de Vladimir Carvalho. Essa simultaneidade temática esta magnificamente retratada no curta A Pedra da Riqueza (não citado por Aline) quando um trabalhador de um garimpo de xelita na Paraíba, migra para Brasília e se torna funcionário do Departamento de Comunicação da Universidade de Brasília, departamento onde Vladimir ministrava seus cursos de cinema. Em A Pedra da Riqueza, vemos esse funcionário observando imagens do garimpo na tela de uma moviola em uma das salas da Comunicação. Um zoom muito lento, muito lento mesmo, sai do perfil do rosto do funcionário – nosso personagem/protagonista – e focaliza as imagens do garimpo na tela. Um corte nos transporta para a Paraíba. Estamos na mina de xelita!, local onde vai se desenvolver o enredo de A Pedra da Riqueza.
Aline não menciona A Pedra da Riqueza em seu livro. Utilizo aqui a referência apenas para metaforizar essa simultaneidade temática da obra de Vladimir. No contexto a que me refiro, simultaneidade deve ser compreendida como resultado da flutuação constante do interesse de Vladimir pelas regiões Nordeste e Centro-Oeste, esta última, o Centro-Oeste, brilhantemente capturada criticamente em Diante da Catástrofe. À Aline, claro, interessa o Centro-Oeste, sua região, região que Vladimir chamava poeticamente de “sertão molhado”, definição que tem um quê de sublime paradoxo. Em seu livro, Aline concentra atenção sobre sete filmes de Vladimir: Vila Boa de Goyaz, Quilombo, Mutirão, Brasília Segundo Feldman, Perseghini, Conterrâneos Velhos de Guerra e Paisagem Natural. Como é que ninguém havia pensado nisso antes!? Vladimir havia passado mais da metade de sua vida produtiva em Brasília.

No prefácio de Diante da Catástrofe, Cláudia Mesquita – pesquisadora de cinema documentário e professora da Universidade Federal de Minas Gerais – diz que o recorte do período brasiliense e goiano da obra de Vladimir elaborado por Aline produz “um potente inventário crítico da modernização brasileira, vista a partir do Distrito Federal e de seu entorno, através da perspectiva das pessoas comuns que sofreram os violentos impactos de um processo histórico que teve na construção de Brasília sua singular epítome”. Com grande minúcia, Aline esmiuça cada um dos filmes analisados, cena a cena, sendo que essas cenas esclarecem e dão sentido ao conjunto dos filmes e esses ao conjunto das obras analisadas. Os sete filmes reunidos por Aline produzem uma profunda interpretação da experiência sócio-histórica do país e da região central do Brasil em particular. Para Aline, o Centro-Oeste já tinha uma economia, uma história e uma cultura muito antes do surgimento de Brasília.
De fato, a região não era um oco civilizatório, com supostos modos de vida “em processo de desaparecimento, especialmente em função da pressão modernizadora exercida por Brasília, como costuma sustentar a narrativa histórica brasileira hegemônica. Assim, os filmes de Vladimir – como argumenta Aline – “fazem um duplo movimento. Por um lado, apresentam os aspectos violentos e traumáticos da modernização no interior do país, associando o dito progresso à ideia de ‘catástrofe’ (aspas minhas). Por outro, utilizam-se dos testemunhos dos registros de memória como forma de redenção ou reparação dos oprimidos, aproximando-se assim da concepção benjaminiana de história”. E que concepção seria essa? Aline está se referindo ao conceito, ou ideia conceitual, de “história à contrapelo”. O filósofo alemão sustentava que à história oficial se devia contrapor uma história contada pelos excluídos da narrativa oficial, pelos deixados de lado, pelos desvalidos e oprimidos.

E não é essa a essência do cinema de Vladimir Carvalho? É a própria Aline quem sustenta que “o cientista social precisa saber lidar com a contradição da história ocultada na aparência de falta de história”. É o que ela faz em Diante da Catástrofe ao dividir sua pesquisa/livro em quatro partes. Na primeira delas, analisa Vila Boa de Goyaz (1974), cujas tradições centenárias “não tinham lugar na história hegemônica, a não ser pela subalternidade”. Na segunda parte, Aline se debruça sobre Quilombo (1975) comunidade negra da Fazenda Mesquita, produtores de marmelo, em que muitos jovens, inebriados pela luz de Brasília, migram para trabalhar na construção civil. A este capítulo, pela similitude, podíamos incorporar o seguinte, o número três, sobre o curta Mutirão (1976). Nele é contada a história do vilarejo de Olhos d’Água, cuja atividade principal, a tecelagem, vai sendo deixada de lado “por conta das facilidades trazidas pela ‘modernidade’”.
As mesmas questões (ou a mesma questão) se estendem nos capítulos quatro e cinco, onde são analisados os filmes Brasília Segundo Feldman (1979, Conterrâneos Velhos de Guerra (1990), Perseghini (1984) – por mim codirigido – e, por fim, Paisagem Natural (1991). Diferentemente dos capítulos 1 a 3, a abordagem aqui é muito mais política. São narrativas vistas do ponto de vista dos operários, em contraposição ao discurso hegemônico e mitificado da “marcha para o oeste”, afirmada pelos “homens do poder”. Através de Vladimir, Aline ratifica sua tese fundamental. Segundo a autora, essa tese é ainda mais sumarizada na personagem de Perseghini. Seus depoimentos dão densidade e consubstanciam o título do livro (Diante da Catástrofe). É, como diz, “a “história a contrapelo”.
Lembramos os versos de Caetano Veloso “a força do progresso que constrói e destrói coisas belas”. Nos termos de Vladimir/Aline, o progresso é sob muitos aspectos deletério. Ele marginaliza grupos e classes sociais, os desvalidos da sorte. Há nos filmes do cineasta – aqueles de conotação mais cultural – uma certa nostalgia do arcaico, das coisas belas deixadas para trás. Toda essa complexidade está esmiuçada em Diante da Catástrofe. O fato é que não vai mais ser possível interpretar a obra de Vladimir sem levar em consideração o livro de Aline. Nele, a crítica – contida em Vladimir e, da mesma firma, em Aline – é a arte da “inservidão voluntária, da indocilidade refletida”, conforme nos afirma Michel Foucault.
Diante da Catástrofe: o Modernização Brasileira nos filmes de Vladimir Carvalho, de Aline Fernandes Carrijo; Sorocaba, SP; Cubile Editorial, 2026