Sentados na sala de um apartamento, dois jovens conversam. Uma câmera situada a certa distância registra o momento privado. Ele foi soldado do exército de Israel; ela é sua namorada. A certa altura, ele envereda por uma história que protagonizou ao lado de outros soldados. O relato tem um tom leve, quase como o de alguém que se lembra de uma travessura de juventude. Mas não foi o caso. Ele participou de uma operação clandestina de vingança do exército israelense contra palestinos, e que resultou em duas mortes. A namorada se assusta e diz que ele nunca havia lhe contado aquilo. Ele procura amenizar a situação. Ela se levanta e sai do quadro. Deduzimos que não haverá reconciliação. Ela descobriu que o namorado é um assassino. Ainda pior do que isso: ele parece não ter remorso.
A cena descrita acima — resgatada da memória e sujeita, portanto, a alguma imprecisão — corresponde a um dos momentos perturbadores de “Z32” (2008). O título refere-se a uma pasta do arquivo criado por uma organização humanitária a partir de depoimentos de soldados israelenses cujas identidades são ocultas. O documentarista israelense Avi Mograbi conseguiu localizar o jovem do relato cadastrado como Z32, que deu o depoimento sobre uma operação de vingança. Propôs a ele que participasse de um filme sobre o tema, com a identidade preservada. O jovem topou mas, no meio do projeto, disse sentir que o cineasta não estava a contar direito a sua história. Quis ter maior controle sobre o material. Mograbi disse-lhe então para gravar sozinho seus depoimentos. Num deles, descrito acima, a namorada estava presente. A confissão dos assassinatos é atordoante — para ela e para o público.

Documentarista que por vezes recorre a ações performáticas para erguer suas narrativas, Mograbi deixa transparente o processo de realização de “Z32”. Aparece no filme em diversos momentos, como aquele em que nos explica como pensou em ocultar no filme a identidade do jovem. Coloca uma meia de nylon na cabeça, faz os recortes para os olhos, conclui que não é uma boa solução e segue em busca de alternativas. Por fim, opta por tratamento digital para substituir o rosto do ex-soldado. Em outra passagem, a família de Mograbi entra em cena, e sua mulher lhe cobra: por que fazer um filme com esse personagem? Por que se dedicar a esse tema? Ou seja, por que mergulhar no horror? Um número musical inspirado na obra de Bertolt Brecht, em que Mograbi interpreta um tema dedicado ao ex-soldado, entrelaça a vida de quem faz o documentário com aquela de seu personagem. No fundo, ambos são passageiros do mesmo vagão. “Z32” é um documentário sobre um diretor israelense que procura se aproximar de um jovem israelense que participou de uma noite de horror perpetrada pelo exército israelense.
A filmografia de Mograbi tem sido construída com base no compromisso de “cidadania responsável”, digamos. A nacionalidade não o impede de denunciar e questionar ações do governo. “Z32” funciona como um complemento a “Nekam Achat Mishtey Eynay” (2005), cujo título internacional em inglês é “Avenge but One of My Two Eyes” — em tradução literal, “Vingue apenas um dos meus dois olhos”. Nesse documentário, o diretor já havia explorado o funcionamento e os resultados da máquina de desumanização operada pelo exército israelense. O grande objetivo é a desumanização dos “inimigos”, os palestinos, mas para chegar a isso a engrenagem ideológica desumaniza também os próprios soldados israelenses e por extensão, na leitura de Mograbi, toda a sociedade. “Lavagem cerebral” é uma expressão forte, mas nem de todo despropositada. Procura-se varrer da mente dos soldados qualquer espécie de reflexão que os impeça de agir conforme as ordens militares. Em relação aos civis, procura-se varrer qualquer possibilidade de cogitar que as ações do governo não sejam legítimas, cimentando a percepção de que ocorrem sempre em nome do combate a ameaças à própria existência do país.
Apesar da distância no tempo, esses dois filmes guardam estreita relação com “NAZA”, que estreou em Portugal na semana passada (acumulou 3.899 espectadores nos primeiros quatro dias de exibição, de longe a melhor marca do ano no país para um documentário) e já está em cartaz no Brasil. Dirigido por Yuval Abraham e Rachel Szor, vencedores — em companhia de Basel Adra e Hamdan Ballal — do Oscar de documentário de longa-metragem por “Sem Chão” (No Other Land, 2024), “NAZA” recebeu em sua estreia mundial, em setembro, cinco prêmios (incluindo o Especial do Júri) no Festival de Veneza. Logo depois, levou o prêmio de melhor filme europeu no Festival de San Sebastián. O título é um acrônimo, em hebraico, de “danos colaterais”, e refere-se ao código usado pelo exército israelense para o número de mortes de civis em ações militares em Gaza. Um tanto cifrado, mas o subtítulo internacional em inglês encarrega-se de explicar do que se trata em termos bem objetivos: “A Window Into Systems of Mass Killing” (Uma janela para sistemas de extermínio em massa).

O filme desdobra, em formato audiovisual, reportagem que Yuval Abraham publicou em 2023 na revista online “+972”, editada por jornalistas palestinos e israelenses. O material ganhou repercussão internacional ao ser republicado pelo diário inglês “The Guardian” e pelo diário norte-americano “The New York Times”. Entre as fontes ouvidas na ocasião por Abraham, estavam 24 ex-integrantes do Exército israelense que detalharam o uso de tecnologia de ponta nos ataques de Israel a Gaza que se seguiram ao massacre executado pelo Hamas há exatos três anos, em 7 de outubro de 2023, matando 1.200 pessoas e fazendo 251 reféns. “NAZA” não se resume a uma transcrição desses relatos. Ao colocar os entrevistados (que falam sob anonimato) em varandas e marquises de Tel Aviv, das quais se contemplam as janelas e sacadas de apartamentos amplos e modernos, em cujas salas de estar os moradores assistem a noticiários de TV, o filme cria um contraste incômodo entre o que se ouve (a engrenagem de um genocídio) e o que se vê (a opulência material e a indiferença do cotidiano). Tel Aviv fica a apenas 70 quilómetros de Gaza.
Para ressaltar as semelhanças estéticas e históricas, “NAZA” insere na narrativa outro documentário que remete ao horror sem trazer imagens dele, o clássico “Shoah” (1985), de Claude Lanzmann, feito de depoimentos de sobreviventes e de executores do Holocausto. Para bom espectador, meia associação já bastaria. “Eu sei que é difícil acreditar nisso. Mas o oprimido tornou-se de fato o opressor”, disse Mograbi em entrevista ao crítico Vasco Câmara para o caderno cultural Ípsilon, do diário português “Público”. O diretor israelense vive em Lisboa porque acredita que não há mais espaço em Israel para dissidentes como ele. “É claro que o que se passa em Gaza é um genocídio. Houve vários genocídios ao longo da história que não tiveram a dimensão da Shoah. O que se passa em Gaza é um genocídio mesmo que não seja uma repetição do Holocausto. Só uma direita populista pode usar esse argumento de que não é possível uma comparação com o Holocausto. Gaza é um genocídio.” O número de mortosem Gaza desde outubro de 2023 ultrapassa 75 mil, dos quais 1.450 desde o cessar-fogo de um ano atrás.
Mograbi estava no Festival de Veneza — do qual participou com o curta-metragem “Wild Asparagus” e com a instalação “Between a River and a Sea”, trabalhos também voltados para suas relações com a história de Israel e o sionismo — quando “NAZA” fez ali sua estreia mundial. Considerou o filme “fortíssimo” e disse temer o que espera por Abraham e Szor em Israel. Eleições legislativas serão realizadas no país em 27 de outubro. As pesquisas apontam para uma ligeira vantagem do Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, sobre o Yashar, partido do antigo chefe do Estado-Maior das Forças de Israel, Gadi Eisenkot. A direita conta, segundo pesquisas, com cerca de 60% das preferências dos israelenses; a esquerda, com cerca de 13%.

“Penso que NAZA toca num ponto muito sensível em termos de imagem de Israel, e é a imagem de um país tecnologicamente iluminado, um país progressista, mas que afinal põe o progresso tecnológico a serviço da barbárie. O que faz com que desta vez o genocídio não esteja nas mãos da infantaria, mas nas mãos daqueles que se sentam em gabinetes com ar condicionado, uma elite”, disse Mograbi ao “Público”. “Não é uma democracia, Israel, isso é uma etiqueta. Nunca o foi, desde o primeiro dia. Pelo menos para os palestinos: 20% da população de Israel é constituída por palestinos. Sempre foi um país racista. Os palestinos sempre foram considerados cidadãos de segunda pelo sistema educacional, pelo mercado de habitação, até pela academia.”
Um dos ex-soldados de elite israelenses entrevistados em “NAZA” diz que estudou o Holocausto, que visitou campos de concentração na Polônia e que continua sem entender como o Holocausto tornou-se possível. “Ainda considero os nazistas maus, mas, dito isso, o que sou eu?”, pergunta. Cada espectador responde da forma que lhe parecer mais adequada. “Os entrevistados questionam a engrenagem que se instalou pacientemente sem repararmos nela e que os capturou sem repararem, transformados em colaboradores incautos, insuspeitos do que um deles admite ser ´um genocídio´— peças de um Big Brother globalizado que, repentinamente, se pode voltar contra nós próprios”, escreve o crítico Jorge Mourinha na mesma edição do caderno Ípsilon do “Público”. “O que dá a ´NAZA´ um ambiente de distopia de ficção científica, tanto mais atemorizante quanto fala do nosso presente: as janelas (dos apartamentos) são telas, as telas já existem, nós já somos pontos GPS. A guerra trava-se a distância.”
Na mais recente edição da revista dominical do jornal “Expresso”, cuja capa foi dedicada ao primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil, o crítico Jorge Leitão Ramos chama “NAZA” de “sensacional”. “Mas que filme é esse que causa tanta turbulência, ao ponto de suscitar reações iradas do próprio Benjamin Netanyahu, ameaçando revogar a cidadania de Yuval Abraham e Rachel Szor, e manifestações de ativistas de extrema-direita à porta da casa dos pais de Rachel, gritando pela execução dos traidores? Aparentemente, uma coisa muito simples. Na noite de Tel Aviv, num terraço exterior, Abraham entrevista 24 homens que, no silêncio da análise de informações ou das escutas telefónicas, no disparo de drones ou com as botas no chão, tiveram intervenção direta na reação israelense ao massacre perpetrado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023. (…) Não é um grupo de denunciantes arrependidos, é gente que, estando por dentro do processo, se pôs a pensar sobre ele e a considerar que é justo que os outros saibam o que se está a passar.”
Leitão Ramos fala da “perplexidade” que “nos leva a pensar como é que gente normal — e os depoentes de ´NAZA´ são pessoas vulgares que praticaram atos horríveis — é capaz de crimes contra a Humanidade. Talvez porque, no imaginário coletivo de Israel, um judeu e um palestino não tenham o mesmo valor (na contabilidade do acordo de outubro de 2025, por exemplo, 1.900 prisioneiros palestinos foram trocados por 20 judeus vivos e 25 mortos…); talvez porque se considere um povo inteiro culpado pelo ataque do Hamas. No fundo, a mesma ideia que autorizou o bombardeamento de Dresden, o napalm no Vietnã ou na (nossa) Guerra Colonial. Primeiro castigá-los com severidade, depois, se possível, acabar com eles todos”.
Perplexidade é uma boa palavra para descrever a reação da namorada do ex-soldado que, em “Z32”, descobre que dorme ao lado de um assassino para quem a morte do “inimigo” corresponde apenas um jogo de vingança. Lembra também um jogo, desta vez um videogame de última geração na era da IA, o sistema de extermínio em massa descrito em “NAZA”.