quinta-feira, 22 de outubro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
COBERTURA - FESTIVAL DO RIO

Retratos do Brasil – Festival do Rio 2026

Na Première Brasil do Festival do Rio, histórias de vida trazem às telas personagens e momentos que ajudam a compreender o Brasil.
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Aldir Blanc, Carlos Heitor Cony, Maria Alcina, Belchior, Fernanda Montenegro, Chica Xavier, Squel, Cavi Borges, Dom Angélico. São personagens de histórias muito diferentes que chegam à Première Brasil do Festival do Rio 2026 em documentários que atravessam a música, a literatura, o cinema, o teatro, o carnaval, a moda e a vida pública brasileira.

Alguns filmes partem de arquivos e memórias familiares. Outros acompanham os personagens no presente. Em comum, a visão do Brasil através de pessoas concretas, de suas experiências e das marcas que deixaram na cultura e na sociedade.

Aldir Blanc ocupa um lugar especial nesse conjunto. No ano em que completaria 80 anos, dois filmes o homenageiam.

Em Aldir Blanc – Resposta ao Tempo, Marcus Fernando e Hugo Sukman se aproximam do compositor, poeta e cronista a partir de sua vida cotidiana e de uma obra que transformou situações, personagens e expressões do Rio em matéria de literatura e música. A parceria com João Bosco produziu algumas das canções fundamentais da música brasileira, entre elas O Bêbado e a Equilibrista. O filme oferece uma leitura afetiva em que a vida de Aldir é contada através de suas músicas, um retrato cantado daquele que fez do Rio a  Macondo particular, concreta e lúdica, real e fantástica.

Fui Olhar Você Dormir, de Anna Azevedo, por sua vez, escolhe uma porta de entrada mais íntima. São 35 anos da vida de um casal narrados por cerca de 2 mil bilhetes e imagens de família. Aldir escrevia para Mary Sá Freire pequenos textos que esplhava pelo apartamento do casal, na Muda. Seis anos depois de sua morte, os bilhetes continuam aparecendo entre objetos da casa. 

A aproximação com o espaço doméstico estabelece outra ponte, agora com Cony, Retrato Íntimo, de Marcos Ribeiro. Através de imagens preservadas pela família, o filme se aproxima de Carlos Heitor Cony, jornalista do Correio da Manhã, autor da coluna O Ato e o Fato, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, que este ano completaria cem anos. Beatriz Lajta, sua companheira durante quatro décadas, ocupa papel central nesse retrato, enquanto Pedro Bial empresta a voz a trechos de sua obra. Em Aldir e Cony, a vida privada ajuda a iluminar personagens cuja atuação pública marcou diferentes momentos da cultura brasileira.

Com Mr. Wonderful, Susanna Lira – que recentemente estreou nos cinemas Gonzaguinha: Da Maior Liberdade – recupera Luiz de Freitas, o Mr. Wonderful, que fez da sua “Clínica da Moda”, em Ipanema, uma referência entre as décadas de 1970 e 1990. O documentário apresenta a moda como expressão das transformações nos costumes, nos códigos de aparência e nas formas de comportamento. À margem do jet set, mas no centro de um ambiente em transformação, o estilista tornou-se também personagem de uma época em que Ipanema funcionava como laboratório de novas maneiras de viver e se apresentar.

Maria Alcina pertence a outro território de liberdade. Da experiência no circo aos grandes palcos, da censura à projeção internacional, construiu uma carreira marcada por uma presença cênica difícil de enquadrar. Alegria Brasil, estrelando Maria Alcina, de Elizabete Martins Campos, parte dessa personalidade para recuperar a artista cuja imagem pública nunca esteve separada da própria ideia de invenção. Algo dessa força performática também atravessa Ney por trás das máscaras, de Esmir Filho, que acompanha a preparação do desfile da Imperatriz Leopoldinense dedicado a Ney Matogrosso.

A música ocupa ainda outros espaços da seleção. Flora & Airto: O Som Revolucionário, de Jom Tob Azulay, revisita o trabalho do casal cuja atuação foi fundamental para a circulação internacional da música brasileira e para o desenvolvimento da jazz-fusion a partir dos anos 1970. Vivo 76, de Lírio Ferreira, retorna ao disco Vivo!, lançado por Alceu Valença em 1976, e aos primeiros momentos de sua chegada ao Rio. Pernambuco e Rio se encontram na formação de um artista que teve na cidade um ponto de passagem e projeção.

Também em 1976 foi lançado Alucinação, disco que está no centro do filme de Renato Terra, Marcos Caetano e Leo Caetano sobre Belchior, um dos títulos da competição de documentários.  Um filme cuja força reside numa pesquisa rigorosa de imagens de arquivo, cuja costura contribuem para resgatar tanto a veve do artista quanto o espírito do período em que viveu.

Elza Soares de, Eryk Rocha revisita a cantora a partir de uma existência em que vida e obra parecem inseparáveis. Pobreza, racismo, violência, amor, sucesso, reinvenção e reconhecimento atravessam uma história que ajuda a compreender transformações profundas da música brasileira e do próprio Rio de Janeiro.

Passando por um inventário do teatro, do cinema e da televisão, Fernanda, de Pedro Waddington, acompanha Fernanda Montenegro em uma carreira que atravessa praticamente toda a história moderna dessas linguagens no Brasil. Cansei de Ser Galã, de Bento Marzo e Eduardo Ades, dedicado a Cláudio Marzo, estabelece outra ponte com a história da interpretação brasileira, revelando o lado libertário e inconformado do astro que não se enquadrava na moldura do mocinho. Já Amor e Fé: Chica Xavier, de Clementino Junior, incorpora ao conjunto a experiência de uma atriz preta cuja atuação esteve profundamente ligada à cultura e à religiosidade afro-brasileiras. Um registro afetivo carregado de relevância artística e histórica

O carnaval, já abordado no filme sobre Ney Matogrosso, ganha outra perspectiva em Squel – Confissões de uma Porta-Bandeira, de Celina Torrealba e Zeca Brito.  O histórico da porta-bandeira mostra que por trás dos poucos minutos do desfile existe um universo de disciplina, técnica, tradição e transmissão de conhecimento. Squel aparece, assim, como guardiã de uma forma de expressão artística construída entre gerações.

No campo das artes visuais e do cinema, Mario Carneiro – Gravura Feita de Luz, de Beth Formaggini, recupera a atuação de um profissional que transitou pela fotografia, pelo cinema e pelas artes visuais. O Cinema Possível, de Luiz Carlos Lacerda, desloca a discussão para o presente e acompanha Cavi Borges, da locadora e videoteca em Botafogo à produção independente, passando por iniciativas de exibição e formação de público. Cavi aparece como realizador, mas também como alguém que procura criar as condições para que o cinema exista e circule.

No Passo da Cobra, de Estêvão Ciavatta Pantoja, é de todos o mais pessoal. O filme parte do acidente que deixou o diretor tetraplégico para acompanhar sua recuperação e a reconstrução de sua vida. O corpo, a autonomia e o recomeço tornam-se matéria cinematográfica. Aqui, não é o arquivo que recupera o personagem: é o presente que se transforma diante da câmera.

O conjunto de retratos amplia-se também para outras dimensões da realidade brasileira. Em Vitória da Paz, de Ricardo Calil, Fábio Gusmão e Dudu Levy, resgata-se a coragem e a audácia da senhora que comprou uma câmera, em 2003, para registrar da janela de seu apartamento em Copacabana a ação do crime organizado e da corrupção policial. As imagens chegaram às mãos do repórter Fábio Gusmão e contribuíram para uma investigação que levou à prisão de dezenas de criminosos, entre eles policiais. O episódio já havia chegado ao cinema de ficção em Vitória, de Andrucha Waddington, com Fernanda Montenegro. Agora, é a personagem real que aparece em ação, com seus comentários e atitudes inconsequente que contribuíram para prender criminosos e para quase levar à loucura os jornalistas que queriam preservara integridade física da preciosa fonte. 

Uma Missa para Dom Angélico, de Emilia Silveira, completa o mosaico trazendo outro momento da história brasileira. Nascido em uma família pobre, Dom Angélico Sândalo Bernardino aproximou-se dos movimentos sociais a partir do final dos anos 1950 e tornou-se uma das vozes ligadas à defesa dos trabalhadores, do direito à moradia e dos direitos humanos. Durante a ditadura militar, foi perseguido, detido e ameaçado. O filme recupera a figura do religioso que conduzia missas por direitos humanos e mantinha as comunidades informadas também através do jornal Grita Povo.

É na diversidade de trajetórias, vozes e memórias que o conjunto apresentado por parte da Première Brasil 2026 encontra sua força. São filmes que refletem como a cultura e a vida pública brasileira se constroem — e continuam a se transformar.  E o Festival do Rio entrega ao público uma visão abrangente de um cinema documental que se fortalece cada vez mais alimentando-se da própria história.

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