Brasília está fervendo por motivos diversos: a secura do ar, o show de horrores no STF e o 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. É só este último que vou abordar brevemente aqui. O festival ainda vai até sábado (19/9), de modo que o balanço a seguir é parcial e provisório.
Dos filmes em competição assistidos até agora (um deles eu vi fora do festival), os que mais me impressionaram foram quatro longas-metragens e dois curtas. Vamos a eles.

Pequenas Tragédias, de Daniel Nolasco, é um misto de memórias e fabulação sobre a relação do diretor com sua cidade de origem, Catalão, no interior de Goiás. Nolasco, que narra o longa em off e é representado na tela pelo excelente ator Guilherme Théo, saiu de Catalão para o Rio em 2011 e, ao voltar à cidade uma década depois, constatou que todos os seus amigos queer haviam se exilado ou morrido.
O filme é sobre esse processo de repulsão ou extermínio dos cidadãos e cidadãs que não se encaixavam no modelo macho-religioso-repressor que passou a dominar a região junto com os tratores do agronegócio e a estridência das duplas sertanejas. Mas esse resumo esconde o que o filme tem de melhor: seu humor ao mesmo tempo ácido e amoroso, sua construção inventiva, suas imagens homoeróticas que fazem pensar num Almodóvar que não tivesse restrições de censura (política ou de mercado).
O documentário Tudo É Tempo, de Marcos Guttmann, se desenvolve em torno de um projeto engenhoso que foi se redesenhando ao longo do processo: entrevistar, a cada eleição presidencial, os mesmos quatro personagens (um motorista de caminhão, uma médica, um assessor político e um poeta-filósofo alternativo) que votavam na mesma seção eleitoral, o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro.
Entre 2002 (a primeira eleição de Lula) e 2022 (seu retorno à presidência) muita coisa mudou no país, claro, mas o diretor centra seu foco nos personagens e em suas transformações, ambiguidades e contradições por vezes desconcertantes. É um filme envolvente que desestabiliza ideias feitas e foge do catártico fla-flu habitual em nossa cinematografia política.
Privadas de Suas Vidas, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, pode ser definido, com alguma licença, como uma comédia de terror escatológico (ou comédia escatológica de terror). A partir de um acontecimento trágico – a morte de um menino ao despencar dentro de uma privada – entramos num território fantástico, em que todas as privadas do prédio sugam seus moradores.
Sem hesitar em abraçar o gore e o mau gosto, o humor irresistível do filme encara impiedosamente – mas sem perder a ternura – uma porção de pragas de nossa época, em especial o culto aos influencers e a reação heteronormativa conservadora à emergência de gêneros não-binários. Com ritmo e mise-en-scène precisos e uma porção de ótimos atores (com destaque para a protagonista Martha Nowill), Privadas de Suas Vidas tem plenas condições de vencer a possível resistência inicial do espectador.

E chegamos por fim a Se Eu Fosse Vivo…Vivia, mais uma pérola encantadora do mineiro André Novais Oliveira. Centrada num casal de idosos, a narrativa começa no tom prosaico/doméstico/naturalista que o diretor domina tão bem, e aos poucos nos conduz a um território fantástico, que bordeja o sobrenatural e desemboca na ficção científica. É, em suma, uma obra indefinível que testemunha a plena maturidade de um de nossos cineastas mais pessoais. Um verdadeiro autor.
Contribui para o resultado final a escalação dos protagonistas: Norberto Novais Oliveira, pai do diretor e figura frequente em seus trabalhos anteriores, e a escritora Conceição Evaristo, em sua primeira atuação como atriz. A interação entre os dois confere ao filme um frescor e uma estranheza que dificilmente poderiam ser alcançados com atores profissionais.
Os curtas que merecem destaque, a meu ver, são a animação Fundura, de Catapreta, e a sombria ficção futurista (pero no mucho) Cana, de Daniel Rone e Guilherme Xavier Ribeiro. O primeiro é um trabalho artesanal de beleza e inventividade deslumbrantes, narrando na fronteira entre o real e o mítico a “ressurreição” de um homem negro resgatado da morte por sortilégios de uma crença afro-brasileira não nomeada.

Também Cana trafega entre o real e o fantástico ao acompanhar a jornada de carro de dois jovens negros periféricos do Oeste paulista que se defrontam com uma barreira (policial? política? metafísica?) numa estrada que corta a paisagem opressiva da monocultura de cana de açúcar. Em apenas 15 minutos, e simulando o tempo real, o filme joga com gêneros consagrados, como o suspense, o terror e a ficção científica para construir uma parábola poderosa e perturbadora.
Enfim, temos cinema, e bom cinema, no 59º Festival de Brasília, que, nunca é demais lembrar, quase foi cancelado por conta das mazelas político-financeiras deste país indeciso entre o terror, a chanchada e a esperança chamado Brasil.