quinta-feira, 22 de outubro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
COBERTURA - FESTIVAL DO RIO

O Gesto entre Nós

Corpos únicos e específicos
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O Gesto entre Nós – A História da Cia. Dos à Deux é, como o título indica, um documentário que traça uma panorâmica da companhia fundada, em 1998, por André Curti e Artur Luanda Ribeiro. Artistas criadores, eles conceberam todos os espetáculos, que, filiados à vertente do teatro gestual, vêm evidenciando um conceito de texto não mais restrito à folha de papel. A grande maioria das montagens da Dos à Deux não tem texto falado. Em vez disso, André e Artur priorizam outras possibilidades de dramaturgia, contidas na música, nos figurinos, na iluminação e na cenografia (em especial, nos objetos de cena, como as cadeiras, elementos centrais do primeiro trabalho da dupla, Dos à Deux, extraído de Esperando Godot, peça de Samuel Beckett).

A apresentação da jornada da companhia se dá por meio de depoimentos de André e Artur, sem o acréscimo de entrevistas com artistas diversos, escolha que distancia o filme de uma estrutura convencional de documentário. O diretor Roberto Bomtempo, de certo modo, amplia essa opção ao trazer as falas de André e Artur em off e sem identificação (qual dos dois diz cada frase?). É como se ambos formassem uma única identidade, perspectiva sintetizada na belíssima coreografia em que as silhuetas deles se fundem num mesmo corpo. 

Os percursos de André e Artur são descritos a partir de equivalências: os dois foram crianças tristes e solitárias, vivenciaram acontecimentos pessoais de forma febril (“somos muito intensos emocionalmente”), se viram movidos por inquietações artísticas próximas, viajaram pelo mundo inspirados pela experiência de Peter Brook na África com os atores do Centro Internacional de Pesquisa Teatral. Em poucas passagens, sobressai alguma dissonância entre eles. Mas esses instantes existem. Exemplos: informam que decidiram morar em Paris com objetivos distintos; e um discorda da maneira como o outro explica o campo temático de um trabalho, Fragmentos do Desejo.

Bomtempo revela como André e Artur estabeleceram vínculo no período em que foram viver na França – amizade que deu lugar a uma história de amor – e relata a trajetória da companhia através da exposição de cada espetáculo, em ordem cronológica, do primeiro ao penúltimo (provavelmente não houve como incluir o recente ConfuZo: Está Escurecendo Dentro de Mim). Alguns ganham mais destaque, outros menos (caso de Ausência, no qual André e Artur dirigiram o ator Luis Melo e permaneceram fora de cena). 

Além de apresentar cada espetáculo por meio de cenas bastante expressivas, Bomtempo traz imagens dos bastidores através de cadernos com anotações e desenhos, processos de criação – como o convívio e o trabalho com pacientes de hospital psiquiátrico quando mergulharam no universo da loucura em Aux Pieds de la Lettre – e momentos interditados ao olhar do espectador no teatro, como as trocas de cenários e figurinos na coxia. O diretor também mostra (instante em que, inclusive, aparece brevemente) a sede da Dos à Deux, no Rio de Janeiro, realçando que a conquista desse espaço determinou o retorno de André e Artur ao Brasil. 

Bomtempo frisa ainda importantes transições dentro da companhia: a entrada de artistas de fora nos espetáculos; a abordagem de questões incômodas e polêmicas (como o incesto), principalmente em Fragmentos do Desejo; o crescente investimento em trabalhos sensoriais, na intersecção com manifestações como a dança e as artes plásticas, sem a intenção de fornecer à plateia um enredo didático, conforme se pode notar em Enquanto Você Voava, Eu Criava Raízes. Essas “novidades” não feriram a coerência artística da Dos à Deux, que manteve o desenvolvimento de uma linguagem própria e a preservação de longos períodos de ensaio.

Com carreira firmada como ator, Bomtempo vem, como cineasta, se dedicando a projetos com base no teatro. Transportou para a tela Mão na Luva (em parceria com José Joffily) e Depois Daquele Baile – peças, respectivamente, de Oduvaldo Vianna Filho e Rogério Falabella – e dirigiu, para a televisão, a série Companhias do Teatro Brasileiro, composta por episódios voltados para artistas e coletivos fundamentais da cena nacional nos séculos XIX e XX.

O Gesto entre Nós resulta de um encontro entre artistas – André Curti, Artur Luanda Ribeiro e Roberto Bomtempo. O fato de os criadores da Dos à Deux serem mais retratados através dos pontos de conexão do que de afastamento não anula as especificidades de cada um. Essa percepção é reforçada pelo desmembramento dos corpos dos bonecos, confeccionados à imagem e semelhança de André e Artur, em Gritos. Eles deixam de ser totalidades e se tornam fragmentos – incompletos, mas múltiplos. 

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