“Contos Paralelos” comprova como o ápice de uma fase nova profundamente decepcionante na carreira de Asghar Farhadi, um realizador que outrora dominava como poucos a dissecação das tensões cotidianas e os labirintos éticos da classe média. Há anos o diretor vem demonstrando uma atração perigosa e despersonalizada pelo cinema europeu — uma transição errática que já havia dado claros sinais de desgaste em Todos Já Sabem, filmado na Espanha —, mas é nesta incursão em solo francês que ele naufraga por completo em suas próprias pretensões. Ao trocar o realismo social cru, a urgência moral e a pulsação orgânica das ruas de Teerã por um exercício de estilo parisiense acadêmico, gélido e excessivamente cerebral, Farhadi parece ter perdido o próprio norte estético. O resultado é uma obra flagrantemente artificial que confunde complexidade existencial com pura presunção geométrica, esvaziando a contundência dramática em prol de uma encenação estéril que mimetiza de forma pálida os mestres do cinema europeu.

O cerne desse desastre reside em um roteiro metaficcional que se revela uma verdadeira compilação de ingenuidade dramatúrgica e prepotência intelectual. Ao tentar traçar linhas de diálogo “livremente baseadas” no monumental Decálogo e em Não Amarás e Não Matarás, de Krzysztof Kieślowski, – citando em diversos momentos o cinema do polonês em planos, na escolha do compositor da trilha sonora do filme, na textura e urdidura da trama – Farhadi engessa a narrativa em uma estrutura de “filme dentro do filme” em que a premissa da escritora reclusa que espiona a vida dos vizinhos perde toda a sua potência realista e psicológica. Onde Kieślowski usava o voyeurismo e o acaso como portais para investigar as dores invisíveis da alma humana, a culpa e a transcendência espiritual, o roteiro de Farhadi reduz esses mesmos elementos a meros joguinhos de cena e conveniências baratas de enredo, em que as conexões entre os personagens parecem forçadas por um titereiro sem convicção. A escrita abandona a habilidade magistral de construir conflitos invisíveis e sufocantes, que víamos em A Separação e O Apartamento, e passa a subestimar a inteligência do público ao solucionar seus mistérios por meio de artifícios inverossímeis, fazendo com que as motivações dos personagens beirem o ridículo e o folhetinesco.

O filme tem uma fragilidade de escrita que provoca um sintoma colateral doloroso: o desperdício imperdoável de um elenco estelar do cinema francês contemporâneo, como Isabelle Huppert, Vincent Cassel, Virginie Efira e Pierre Niney, além de uma aparição quase protocolar da lendária Catherine Deneuve. É quase um crime cinematográfico dispor de talentos de tamanha envergadura e reduzi-los a meros fantasmas conceituais, aprisionados por diálogos afetados, literários demais e desprovidos de qualquer verdade cênica. Vincent Cassel e Pierre Niney vagam pela projeção visivelmente perdidos, engolidos pela rigidez de uma estrutura que não lhes permite construir personagens tridimensionais, enquanto Virginie Efira é relegada a situações artificiais que sabotam qualquer possibilidade de empatia orgânica. Nem mesmo a imensa presença intelectual de Isabelle Huppert, que tenta desesperadamente sustentar a narrativa com sua habitual crueza e precisão analítica, consegue resgatar o filme da apatia reinante, fazendo com que suas interações com Deneuve soem apenas como um vislumbre melancólico de um cinema imensamente maior que este.
Essa nova fase europeia de Farhadi é profundamente frustrante porque expõe o esgotamento de um método quando ele é destituído de sua raiz cultural e de seu olhar sociopolítico original. Nos seus grandes trabalhos iranianos, como por exemplo À Procura de Elly, o mistério e a quebra da intimidade de um lar serviam para escancarar as fraturas de uma sociedade sob constante vigia moral, onde cada mentira imposta pelo meio gerava um efeito dominó devastador e genuinamente trágico. Em Contos Paralelos, no entanto, ao se isolar em uma Paris burguesa e esteticamente asséptica, o diretor abdica do humanismo cortante que o consagrou para se render a um fetiche hitchcockiano de suspense barato e a um formalismo vazio que mimetiza mal a melancolia existencialista da Trilogia das Cores de Kielowski. Quando o cinema erra ao tentar emular a genialidade alheia sem a devida sensibilidade espiritual e sem a urgência que dá alma à imagem, a queda pode ser grande, restando apenas um rascunho de cinema.
