quinta-feira, 22 de outubro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
COBERTURA - FESTIVAL DO RIO

Feito Pipa, de Allan Deberton

Um dos destaques do Festival do Rio é o irresistível drama familiar escolhido para representar o Brasil no Oscar.
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O Festival do Rio, que começa nesta quinta-feira, tem entre seus destaques o filme cearense Feito Pipa, de Allan Deberton, escolhido para representar o Brasil no Oscar depois de conquistar uma série de prêmios em Berlim, Cartagena, Guadalajara e Gramado, entre outros festivais. https://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/feito-pipa 

É o que se pode chamar de um filme encantador. Seu argumento é a relação de um menino pré-adolescente, Gugu (Yuri Gomes) com a avó idosa (Teca Pereira) e, de modo mais distante e espinhoso, com o pai (Lázaro Ramos). O local é uma cidade pequena do interior do Ceará (a maior parte das locações são em Quixadá).

A partir desse núcleo dramático central, o diretor e os roteiristas André Araujo e Camila Agustini desdobraram uma narrativa atenta às múltiplas possibilidades de atrito e afeto entre os personagens – e entre estes e o seu entorno. No centro de tudo está Gugu, menino craque de bola e bom de empinar pipa, mas que gosta também de dançar, de se enfeitar, de brilhar.

É esse seu pendor para as atitudes e gostos tidos como femininos, revelado desde a primeira cena, que torna problemática sua relação com o pai. Este esperava dele uma postura mais “viril”. Mas que o espectador não espere um mero libelo contra o machismo ou a homofobia. Em Feito Pipa tudo é mais sutil e complexo.

Para começar, Gugu não deixa de ser viril – e até marrento – no embate com os colegas valentões da escola e do futebol, e mesmo com o próprio pai. Este, por sua vez, não tem com o filho uma relação unidimensional de autoridade e repressão, mas um doloroso enfrentamento de suas próprias limitações emocionais e morais.

A tensão dramática essencial entre o filho, o pai e a avó não se dispersa nem fica em segundo plano quando se expõem as interações dos três com o mundo em volta: o namorado da avó (Carlos Francisco), as amigas de Gugu, a nova esposa do pai (Georgina Castro), a meia-irmã mais nova de Gugu (Beatriz Carwile). Ao contrário, essas relações “externas” matizam e realimentam o jogo entre os três vértices do triângulo central – que aliás aparecem pouquíssimas vezes juntos no mesmo plano, ou na mesma cena.

A maneira como Allan Deberton orquestra esse jogo entre os personagens é sensível e precisa, preservando a humanidade contraditória e frágil de cada um, sem maniqueísmos fáceis. A atenção especial ao afeto entre neto e avó realça justamente a vulnerabilidade e a carência de todos os seres, em especial os que estão no início e no final da vida, as crianças e os velhos.

O humor e a energia que emanam da figura de Gugu têm sua contrapartida no fantasma da solidão, sobretudo quando a avó passa a dar sinais de demência. A falta da mãe (morta quando ele ainda era bebê, de uma maneira brutal que só será revelada na última parte do filme), a dificuldade de comunicação com o pai, a hostilidade dos colegas, tudo isso faz com que a vida emocional do menino oscile entre o prazer dionisíaco e a melancolia.

Um elemento perpassa todo o filme: a água. Uma barragem submergiu o antigo vilarejo, deixando à mostra apenas a torre da igreja, e saberemos ao longo da narrativa que a morte da mãe está indiretamente ligada a esse evento traumático para a comunidade. Não por acaso, é para a beira da represa que vão sucessivamente Gugu, a avó e o pai em seus momentos solitários de crise, contemplando as águas. Significativamente, também, o pai é dono e motorista de um caminhão-pipa. Água que mata, água que dá vida.

O tema da água no agreste nordestino, em especial das represas que submergem cidades, está presente numa porção de filmes recentes da região: A Cidade do Futuro (Cláudio Marques, 2016), Acqua Movie (Lírio Ferreira, 2019), Mais Pesado É o Céu (Petrus Cariry, 2023), entre outros. 

Em Feito Pipa, como nos outros casos citados, a represa é pano de fundo e a ênfase é nas relações humanas à beira d’água. Toda a engenhosidade do roteiro, todo o cuidado da fotografia e da direção de arte, toda a precisão e sutileza da mise-en-scène seriam inúteis se não fosse a qualidade do elenco. Yuri Gomes, Lázaro Ramos e Teca Pereira foram merecidamente premiados em diversos festivais.

Mas é sobre as costas frágeis do menino Yuri que repousa (como a capa dourada que Gugu esconde do pai) a força motriz do filme. Sua atuação é não menos que assombrosa, modulando gestos, olhares e tons de voz com uma segurança de veterano. E além de tudo sabe jogar futebol e dança muito bem. Ou muito me engano ou estamos presenciando o nascimento de um grande ator.

Feito Pipa entra em cartaz nos cinemas de todo o país em 5 de novembro. Antes disso será exibido também na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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