No panorama do cinema contemporâneo, poucos diretores capturaram a aceleração e a neurose da virada do milênio tão empenhado como Danny Boyle. De Trainspotting (1996) a Slumdog Millionaire (2008), o cinema de Boyle nunca foi de contemplação passiva; é uma experiência de fricção, um ensaio visual sobre corpos e mentes operando em rotação máxima contra as estruturas que tentam contê-los. Goste ou não, é sempre uma experiência. Em seu longa-metragem Ink, o cineasta britânico encontra o veículo perfeito para sua estética do excesso: a anatomia do nascimento do jornalismo de tabloide e a ascensão implacável de Rupert Murdoch. Adaptado da aclamada peça teatral de James Graham, Ink transcende a mera cinebiografia corporativa. O filme se estabelece como uma obra onde trabalha a moral da pós-verdade, um ensaio intelectual disfarçado de thriller pop que investiga o exato momento em que a informação capitulou diante do entretenimento vulgar, transformando-se em uma espécie de “história de origem do clickbait” moderno que expõe as engrenagens de uma mídia que descobriu que escândalos vendem mais do que fatos.

Para compreender Ink, é preciso antes situá-lo na história e na evolução estética de Boyle. O diretor sempre foi um formalista da urgência, transitando do realismo de suas primeiras obras para um hiper-realismo cínico focado no colapso da verdade. Seus célebres ângulos holandeses, a saturação cromática e os cortes secos de montagem aqui não operam apenas como virtuosismo estético, mas como uma configuração do capitalismo tardio. Na redação do tabloide britânico The Sun, em 1969, a câmera de Boyle não caminha; ela tenta agridir. Os closes agressivos nas rotativas e o design de som que transforma o bater das máquinas de escrever em uma percussão industrial claustrofóbica emulam o próprio ritmo da desinformação massificada. Boyle compreende que o império de Murdoch não foi construído com base na lógica ideológica, mas na velocidade e no estímulo sensorial primitivo. O filme tenta acompoanhar isso e adota a própria linguagem do tabloide — rápida, escandalosa, um tanto irresistível — para criticar a sua gênese. Há uma ironia pós-moderna nessa escolha: o espectador é seduzido pelo mesmo dinamismo vulgar que o filme se propõe a denunciar, embora a narrativa sofra ocasionalmente com um descompasso no ritmo, demorando a engatar e trazendo uma mudança brusca de tom na segunda metade que faz o ímpeto estagnar no terço final.
No núcleo dramático da obra, testemunhamos um embate interpretativo que evoca as melhores tragédias shakespearianas transpostas para o pragmatismo corporativo. Guy Pearce entrega um Rupert Murdoch que evita o maniqueísmo fácil, construindo um personagem forte: um homem jovem, ambicioso e movido pelo ressentimento colonial contra a elite britânica condescendente do establishment, que canaliza esse complexo de inferioridade em uma vontade de poder absoluta. Pearce consegue a proeza de transformar uma figura historicamente polarizadora em uma espécie de anti-herói fascinante e profundamente perturbador, o populista primordial que percebeu que a “vontade do povo” era um mercado a ser explorado. Ao seu lado, Jack O’Connell, como o editor Larry Lamb, serve como o Fausto dessa narrativa, trazendo uma energia visceral, perversa e uma fisicalidade crua de quem decide queimar o templo da ética jornalística em nome da audiência. Contudo, a profundidade analítica do filme encontra uma barreira de gênero lamentável; a presença de Claire Foy, uma atriz de recursos dramáticos formidáveis, é reduzida a um arquétipo subtextual mal resolvido por conta de um roteiro que a deixou subdesenvolvida, tornando sua participação um apêndice moralista em um filme que se pretendia amoralmente lúcido.

Nenhuma análise contemporânea de Ink voltada ao circuito artístico pode ignorar o debate que o filme provocou em sua passagem pelos festivais de Veneza e Toronto, e agora no Festival do Rio: a inserção de 30 segundos de imagens geradas por Inteligência Artificial generativa para animar fotografias de arquivo e projetar ratos metafóricos nas sombras da redação. Longe de ser um mero capricho técnico ou um substituto econômico, essa escolha de Boyle deve ser lida como um gesto conceitual radical. Ao utilizar uma tecnologia que sintetiza a realidade através dos números e dados, para ilustrar a história do homem que pavimentou o caminho para a simulação da verdade, Boyle cria um curto-circuito perfeito. A “tinta” (ink) do título, que outrora manchava os dedos dos leitores com escândalos manipulados, evoluiu historicamente para os pixels matemáticos da IA que hoje distorcem a nossa percepção pública, fechando um ciclo histórico de degradação da repetição.
A despeito de um texto de James Graham que ocasionalmente abdica da sutileza e cede ao didatismo teatral — onde os personagens debatem a moralidade de suas ações de forma excessivamente direta —, Ink se consolida como uma obra maior na filmografia tardia de Danny Boyle. Se em Trainspotting o diretor filmou a autodestruição química do indivíduo, em Ink ele registra a autodestruição da sociedade ocidental. É um drama corporativo bem desenvolvido e desconfortável porque não nos oferece a distância histórica como refúgio: ao sairmos da projeção e olharmos para as telas de nossos smartphones, percebemos que ainda estamos habitando o monstro que Murdoch e Lamb criaram em 1969, sob a regência caótica e cínica de Boyle.
