quinta-feira, 22 de outubro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
COBERTURA - FESTIVAL DO RIO

Mário Patrocínio e Mariana Cardoso, a entrevista

Diretor e atriz do longa-metragem português Maria Vitória falam sobre o filme pré-selecionado para representar Portugal no Oscar 2027 e indicado para o Prêmio Goya e um dos destaques do Festival do Rio 2026.
WhatsApp

O cinema português contemporâneo pulsa como uma força poética, provando que as fronteiras geográficas se desfazem diante de narrativas universais e humanas. Na edição do Festival do Rio 2026, essa potência ganha as telas brasileiras com a exibição de Maria Vitória, o aclamado longa-metragem pré-selecionado para representar Portugal no Oscar 2027 e indicado aos Prêmios Goya. Para desvendar os bastidores dessa obra marcante, a Revista Lume conversa nesta semana com duas mentes brilhantes por trás do projeto: o realizador Mário Patrocínio e a talentosa atriz Mariana Cardoso, que estão presentes no Festival do Rio 2026.

Mário Patrlocínio, que assina o roteiro e faz aqui uma bela estreia na direção de longas-metragens de ficção, traz uma assinatura cinematográfica densa e enraizada. Buscando referências no “Portugal profundo”, ele constrói uma atmosfera crua e realista, fortemente influenciada pelas memórias das mulheres de sua vida — especialmente sua mãe, homônima da obra. Ao seu lado, a jovem Mariana Cardoso entrega uma atuação magnética e premiada no papel titular. A química construída entre a sensibilidade da direção de Patrocínio e a entrega física e emocional de Mariana é o grande motor que dá vida e alma a este drama.

Rodado nas paisagens isoladas e imponentes da Serra da Estrela, o filme acompanha a trajetória de Maria Vitória (Mariana Cardoso), uma jovem determinada a se profissionalizar no futebol que treina incansavelmente com seu pai (Miguel Borges) e joga na equipe juvenil masculina local. No entanto, o frágil equilíbrio dessa rotina rural desaba com o regresso inesperado de seu irmão mais velho, Bruno (Miguel Nunes), reabrindo feridas profundas de um incêndio trágico que vitimou a mãe deles. Às vésperas da partida mais crucial da sua carreira, Maria passa a confrontar a autoridade paterna e inicia uma jornada poética de independência, luto e autodescoberta.

Na entrevista a seguir, Mário Patrocínio e Mariana Cardoso detalham os desafios físicos e psicológicos das filmagens, a recepção calorosa do público internacional e a urgência de debater a emancipação feminina e as dores do passado através de um cinema que emociona pela honestidade.

Frederico Machado: Mário, em “Maria Vitória”, o isolamento da Serra da Estrela e a presença imponente da natureza parecem aprisionar as personagens no tempo. A nível filosófico, como vê a relação entre a paisagem Bsica e a paisagem mental do luto? O espaço geográfico pode funcionar como uma extensão material de um trauma que teima em não passar?

Mário Patrocínio: Para escrever Maria Vitória, precisei primeiro de viver a Serra da Estrela. Vivi-a em diferentes momentos da minha vida e em diferentes momentos da própria Serra. No verão, as águas da serra correm mais tranquilas, proporcionando a confraternização entre banhos e as vilas enchem-se de emigrantes, vindos de todas as partes do mundo, que regressam às suas famílias. Há uma energia de alegria. Depois chega o inverno e muitos desses mesmos lugares ficam quase vazios, porque todos partem para as suas vidas algures pelo mundo e resta a dureza do tempo e o isolamento. Esse contraste entre presença e ausência começou a ser muito importante para mim ao longo dos anos. Conversei com pessoas que tinham vivido de perto a tragédia dos incêndios. Pessoas que perderam casas, negócios, memórias…e em alguns casos, aqueles que mais amavam. E comecei a perceber que a paisagem guardava essas histórias como se para sobreviver naquele momento fosse preciso esquecer. O fogo tinha passado, a natureza começava a regenerar-se, mas aquilo que tinha acontecido continuava de alguma forma presente. Eu perdi a minha mãe durante a escrita e foi a partir dessa experiência que comecei a desenvolver mais profundamente este argumento. Isso aproximou-me inevitavelmente do luto e deu-me outra força para entender e refletir sobre a perda, sobre a ausência.

Quando perdemos alguém que amamos, essa pessoa deixa de estar fisicamente conosco, mas não desaparece verdadeiramente. Permanece nos lugares, nos gestos, nos cheiros, permanece naqueles que lhe eram mais próximos, permanece nas memórias, naquilo que somos. Existe um vento invisível que continua presente e circula entre nós. E interessava-me muito explorar cinematograficamente essa fronteira entre aquilo que vemos e aquilo que sentimos. É aí que entra o realismo mágico no filme. Não como uma fuga da realidade ou como introdução de algo fantástico, mas antes como um mecanismo para nos aproximarmos de uma realidade interior que nem sempre conseguimos explicar racionalmente. A memória, o sonho, a ausência, o invisível podem coexistir com aquilo que é absolutamente concreto. Quando perdemos alguém, o passado e o presente deixam muitas vezes de obedecer a fronteiras claras e aí, uma memória pode tornar-se tão presente como aquilo que está diante dos nossos olhos. A própria natureza ajudou-me muito a compreender isso. O fogo é capaz de destruir ematar, mas cria também o terreno para que alguma coisa volte a nascer. Não queria que isso funcionasse como uma metáfora simplista de superação, porque não acredito que o luto seja algo que simplesmente se ultrapassa. A dor transforma-se e nós transformamo-nos com ela. O passado não muda, mas a nossa relação com esse passado pode mudar. E talvez seja essa transformação que, a determinada altura, nos permite voltar a imaginar um futuro. Na Serra isso está constantemente diante de nós. As quatro estações transformam completamente a paisagem. As árvores mudam de cor, passam dos múltiplos verdes aos amarelos e aos vermelhos, perdem as folhas e voltam a ganhá-las. A água atravessa os bosques de forma feroz no inverno podendo até trazer a morte e no verão é meiga, limpa a alma de quem busca a frescura de um recomeço. Há também uma experiência que sempre me tocou quando subia a montanha. À medida que vamos ganhando altitude, a própria natureza se vai despindo. As árvores tornam-se cada vez menores até desaparecerem. A água deixa de nos acompanhar e fica parada. Fica a pedra, o vento e, a determinada altura, sem lugar onde o vento possa bater, vem o silêncio quase absoluto. É como se a paisagem nos fosse retirando progressivamente tudo aquilo que nos distrai. E talvez seja precisamente aí que a relação entre a paisagem física e a paisagem interior se torna mais evidente para mim. Escutamos o nada e nesse momento começamos a escutar-nos a nós próprios. Em Maria Vitória, a natureza observa as personagens, confronta-as com aquilo que perderam e, ao mesmo tempo, lembra-lhes que tudo está em permanente transformação. Talvez o luto seja também isso: aprender que seguir em frente não significa abandonar aqueles que perdemos, mas encontrar uma nova forma de os levar connosco.

Frederico Machado: Mariana, a sua personagem habita um paradoxo existencial: o futebol exige dela uma presença absoluta no corpo e no momento presente, mas a sua mente está constantemente cindida pelo peso do passado e a ausência da mãe. Como é que trabalhou a nível interior esta dualidade entre o “agora” físico do desporto e o “ontem” fantasmagórico da perda?

Mariana Cardoso: Antes de mais, que pergunta maravilhosa. Exatamente por lutar por aproveitar o momento presente em cada rodagem, apenas neste futuro de recolha dos frutos do nosso trabalho é que acabo por refletir e consolidar tudo o que aprendi. De certa forma sinto que o desporto para a Maria foi ao mesmo tempo a sua salvação e perdição. Vivendo de forma tão ausente e aérea, é possível que o futebol fosse única coisa que a fazia sentir-se viva. O único momento em que conseguia calar a mente e existir no seu corpo. Por outro lado, este escape tornou-se o vício que deixou consumir os seus dias. Quando se encontra algo que para temporariamente a dor, não se quer outra coisa. Corre-se é depois o risco de abrandar e abafar o processo de cura. Acredito que no fim do filme a Maria tenha redescoberto a sua relação com o futebol, e curado o fantasma do passado ao agarrá-lo de frente, sem deixar entrar na baliza.

Frederico Machado: O cinema português contemporâneo tem sido frequentemente elogiado no circuito internacional pela sua capacidade de extrair o universal a parIr do profundamente local e autoral. Como é que vê o papel do realizador em Portugal hoje? Considera que fazer cinema no nosso país é, por si só, um ato de resistência poética e política contra a mercantilização global da imagem?

Mario Patrocinio: Não acredito que fazer cinema em Portugal seja, por si só, um ato de resistência poética ou política. Seria romantizar demasiado aquilo que fazemos. Para mim, a resistência começa nas escolhas. Sou um realizador português. Nasci em Lisboa, mas aquilo que sou foi construído em muitos outros lugares. Passei parte da infância no Japão, vivi no Brasil, em Angola, em Paris, Los Angeles e passei temporadas longas em muitos outros pontos do planeta. A minha identidade foi-se construindo nesse encontro permanente com lugares, pessoas e culturas diferentes. Portugal é a minha origem, mas nunca senti essa identidade como uma coisa fechada. A minha forma de olhar construiu-se expondo-me ao mundo, deixando-me contaminar por ele. Os filmes que mais me marcaram raramente são aqueles que procuraram apagar aquilo que tinham de particular para poderem viajar. São filmes profundamente enraizados numa língua, numa cultura, por vezes numa memória extremamente pessoal. E é precisamente através dessa especificidade que, do outro lado do mundo, alguém pode reconhecer alguma coisa que também lhe pertence.Acho que o cinema português tem historicamente uma relação muito forte com essa singularidade e com a liberdade autoral. Mas também não quero romantizar as condições em que fazemos cinema. A falta de meios não é uma virtude. Obriga-nos a encontrar soluções criativas, mas também impede filmes de existirem ou de terem a dimensão que as histórias merecem. Da mesma forma, não vejo o cinema de autor e o mercado como territórios necessariamente opostos. Quero continuar a fazer filmes profundamente pessoais e quero que sejam vistos pelo maior número possível de pessoas. Quero que viajem, que encontrem público, que entrem em salas e culturas muito diferentes daquelas onde nasceram. O problema começa quando, para chegar a essas pessoas, sentimos que temos de retirar ao filme precisamente aquilo que o torna singular. O que me preocupa é a uniformização, a padronização da forma de pensar. Uma das nossas maiores liberdades é podermos pensar pela nossa própria cabeça, confrontar ideias opostas, aceitar a dúvida e procurar também aquilo que existe entre os extremos. Com a introdução dos algoritmos em praticamente tudo o que é digital e com as suas lógicas a transbordarem progressivamente para o mundo físico, assistimos cada vez mais à criação de espaços onde encontramos sobretudo aquilo que confirma o que já pensamos. E quando deixamos de nos confrontar com a diferença, perdemos também a capacidade de dialogar com ela. Não temos de estar todos de acordo.Temos de continuar a ser capazes de nos reconhecer uns aos outros na diferença. Talvez seja essa uma das perguntas mais urgentes do nosso tempo: o que significa, afinal, continuarmos humanos?

A arte, para mim, não tem de ser funcional. Não tem de confirmar aquilo que já sabemos nem oferecer respostas. Deve poder fazer-nos perguntas para as quais ainda não temos resposta… ainda. É aí que encontro hoje uma das responsabilidades do realizador: preservar um espaço de risco. Escolher um silêncio quando seria mais fácil colocar uma explicação. Permanecer num rosto alguns segundos mais do que seria previsível. Aceitar a contradição, a diferença, a complexidade de uma personagem. Permitir o inesperado. Eu não quero controlar aquilo que o espectador sente. Quero criar as condições para que possa sentir alguma coisa que é seu. Deixo espaços vazios dentro de um filme para que cada pessoa os possa preencher com as suas próprias memórias, perdas, desejos e sonhos. A partir desse momento, o filme deixa de ser meu. Por isso, para mim, o papel do realizador é resistir à ideia de que sabemos antecipadamente tudo aquilo que o público quer. Se existe para mim uma resistência poética no cinema, está no acto de preservar o direito à singularidade, ao risco e à dúvida. Fazer algo profundamente nosso e depois ter a coragem de o lançar ao mundo sem saber exatamente onde vai chegar ou aquilo que vai provocar. E continuar a acreditar que uma história profundamente pessoal pode atravessar mil fronteiras sem precisar de perder aquilo que a tornou única.

Frederico Machado: Como uma jovem atriz que se estreia num papel principal tão denso, que identidade artística procura construir num mercado audiovisual que, muitas vezes, exige rapidez e superficialidade? De que forma o cinema autoral — que valoriza o silêncio e o tempo do olhar — moldou a sua visão sobre o que significa “ser atriz”?

Mariana Cardoso: Tento olhar para cada processo meu com a mesma lente. Quero que todas as minhas personagens, independentemente do formato em que serão apresentadas, sejam um ser completo. Com infância, cor favorita, olhar, silêncio e subconsciente formados. Tento fazer o que posso com o que tenho. Contudo, não posso negar que quanto mais tempo e atenção tiver este processo, melhor será o resultado. Quando mais espaço houver para deixar as vidas destas pessoas respirarem, mais a história tocará o expectador. Deixará de causar apenas uma sensação temporária, mas sim implantar uma memória eterna.  Sinto-me completamente grata, por ter tido a oportunidade de explorar a fundo estes temas e agradeço profundamente cada vez que o trabalho que fizemos em equipa toca alguém que viu o filme e se identificou de alguma forma.

NEWSLETTER EDITORIAL

Uma seleção criteriosa dos melhores ensaios, críticas e criações entregue semanalmente no seu e-mail.

NOTA EDITORIAL & ISENÇÃO DE CRIAÇÃO: Os textos, opiniões, ensaios e criações publicados nesta página são de responsabilidade exclusiva de seus respectivos autores, não refletindo necessariamente a opinião da Revista Lume. Saiba mais em nossa página de Isenção de Responsabilidade.
100%