quinta-feira, 22 de outubro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
CRÍTICA

Alta Sociedade

A movimentação de personagens estagnados
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Na dramaturgia de Mauro Rasi, Alta Sociedade não pertence nem à vertente do besteirol, nem à corrente autobiográfica. No primeiro caso, o autor fez parte da pré-história do movimento com Ladies na Madrugada e se manteve nele tanto através de textos escritos com Vicente Pereira (As Mil e Uma Encarnações de Pompeu Loredo, À Direita do Presidente) quanto de forma individual (A Receita do Sucesso, A Família Titanic – A Família que Afunda Rindo, A Mente Capta, Tupã, a Vingança), dando vazão a um humor irreverente, crítico e repleto de referências. No segundo, Rasi, após se afastar do besteirol, passou a investir em peças de fôlego maior (A Cerimônia do Adeus, A Estrela do Lar, Viagem a Forli e Pérola), nas quais mesclou lembranças particulares com um mundo de projeções imaginárias. 

Mas Alta Sociedade – encenada, no início dos anos 2000, com dois parceiros artísticos de longa data, Fernanda Montenegro e Ítalo Rossi (depois substituído por André Valli) – dialoga mais com outra peça de Rasi: O Baile de Máscaras. Nesse texto saboroso, montado pelo Teatro dos 4 no começo da década de 1990, Rasi partiu de uma experiência real como participante das maratonas de filmes e óperas realizadas pelo ator e diretor Sergio Britto, em seu apartamento, durante os dias de carnaval. 

Julia Lemmertz. Foto: Nana Moraes

Em ambas as peças, Rasi se vale do recurso do contraste. Coloca o leitor/espectador diante de personagens aristocráticos, que, fechados em apartamentos, conversam sobre alta cultura, enquanto festividades populares (o carnaval em O Baile de Máscaras, o réveillon em Alta Sociedade) explodem do lado de fora. Ruídos do meio externo (os barulhos de uma obra, o som da multidão que se aglomera nas ruas) invadem os apartamentos para o desgosto dos que se encontram dentro deles. Mesmo que as peças não exatamente se assemelhem – as figuras ficcionais correspondem a pessoas reais em O Baile de Máscaras, que sugere articulação com a situação dos personagens que não conseguem sair de uma casa em O Anjo Exterminador (1962), filme de Luis Buñuel –, os pontos de contato são consideráveis. 

Alta Sociedade traz à memória mais uma peça, essa de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, Todo Mundo Sabe que Todo Mundo Sabe, divertida sátira ao universo dos ricos falidos. Mas, para além das conjugações com textos distintos, a peça de Rasi tem elementos específicos. O dramaturgo desenhou personagens – o casal Sylvia e Leopoldo – que podem ser, em algum grau, apreciados pelo refinado patrimônio cultural que adquiriram e evidentemente condenados pelos atos desonestos que cometem.

Rasi também promove uma espécie de jogo de oposição: movidos pela urgência, Sylvia e Leopoldo se agitam constantemente – acusados de corrupção, decidem fugir antes de serem presos –, mas o texto sinaliza certa estagnação. Não há propriamente o desenrolar de uma história; apenas um casal que destila observações ferinas em relação ao Brasil. O contraponto, ainda que curioso, é insuficiente para sustentar uma peça que fica, em boa parte, reduzida a uma sequência de tiradas sarcásticas de personagens mascarados e esnobes. A atualização nas menções ao contexto político (a cargo de Amanda Jordão) favorece a conexão com o público de hoje, mas é um procedimento externo que não resolve a fragilidade da peça.  

As limitações de um texto como Alta Sociedade restringem as possibilidades de voo artístico tanto da direção quanto dos atores, mesmo diante de escalações acertadas como a de Emílio de Mello para conduzir essa montagem, em cartaz no Teatro Vannucci. Afinal, Emílio, como ator, foi bastante presente na obra de Rasi, uma vez que interpretou o alter ego do dramaturgo em A Estrela do Lar, Viagem a Forli (dividindo o papel com Paulo Betti) e Pérola. Na direção, porém, Emílio tem pouco a fazer além de imprimir uma dinâmica para personagens que se movimentam, mas não saem do lugar. No elenco, Julia Lemmertz se aproxima mais de um registro de humor que realça a frivolidade e a inconsequência, características dos personagens, e Orã Figueiredo permanece distante da atmosfera de alta comédia ambicionada por Rasi.

Orã Figueiredo. Foto: Nana Moraes

Já as demais criações demonstram inventividade. O cenário de Chris Aizner segue a indicação de ambientação num apartamento de luxo do edifício Chopin e se destaca pelo painel de fundo, com cores e imagens tropicais que estimulam uma viagem temporal pela brasilidade. Os figurinos de Karen Brusttolin vestem os personagens de acordo com o status social e a circunstância da peça. A concepção dos figurinos se estende a outras roupas, que informam sobre os perfis de Sylvia e Leopoldo, e, às vistas da plateia, independentemente de estarem sendo usadas pelos personagens, integram a cenografia. A iluminação (designer de luz) de Tomás Ribas e Elisa Tandeta marca determinados instantes do texto, em especial aqueles em que o telefone toca, e a trilha sonora de Ivo Senra colabora para o andamento, o ritmo, da cena.

Alta Sociedade está longe de ser uma das peças mais inspiradas de Mauro Rasi. Mas o retorno aos palcos da dramaturgia desse autor importante, que morreu precocemente, é um feito, por si só, louvável. E, apesar das restrições ao resultado, o espetáculo vem conquistando o público. 

ALTA SOCIEDADE – Texto de Mauro Rasi. Direção de Emílio de Mello. Com Julia Lemmertz e Orã Figueiredo. Teatro Vannucci (R. Marquês de São Vicente, 52/3º andar). Sex. e sáb., às 21h30, dom., às 19h. Ingressos: Plateia – R$ 150,00 e R$ 75,00 (meia-entrada); balcão – R$ 120,00 e R$ 60,00 (meia-entrada). Temporada: de 31/7/2026 a 25/10/2026.

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