A programação do Festival do Rio não é formada “apenas” por produções recentes e aclamadas. O evento sempre contou com um segmento voltado a filmes clássicos e antigos. Nessa 28ª edição, há retrospectivas destinadas aos cineastas Rosa von Praunheim, Michael Haneke e Wim Wenders. Vale também mencionar a restauração de A Visita da Velha Senhora (1971), transposição da peça do dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt, sob a direção do brasileiro Alberto Cavalcanti.
O elo de Cavalcanti, que trabalhou bastante tempo fora do Brasil, com o teatro não se restringe a essa experiência. Assinou, no período do cinema mudo, a direção de arte (cenografia e figurinos) de filmes. Abordou o universo do teatro em O Capitão Tornado (1929), extraído do romance de Théophile Gautier, sobre uma companhia de atores que, juntamente ao Barão de Sygognac, percorre o interior da França, rumo a Paris. Dirigiu o curta-metragem O Ciúme de Barbouillé (1929), baseado na peça de Molière. Conduziu a versão cinematográfica de O Senhor Puntilla e seu Criado Matti (1955) a partir de adaptação realizada em parceria com o autor da peça, Bertolt Brecht.
Nos palcos, esteve por trás de montagens de textos como Fuente Ovejuna, de Lope de Vega, e A Noite, de Jeannine Worms. Deixou um projeto inacabado: O Doutor Judeu, cinebiografia de Antonio José da Silva – posteriormente retomada por Jom Tob Azulay (através do filme O Judeu, finalizado em 1995) –, que, nascido no Rio de Janeiro, em 1705, foi deportado com a família, na infância, para Portugal, onde deu vazão à sua dramaturgia (peças musicadas, denominadas como óperas, e encenadas com marionetes) até ser queimado pela Inquisição.
Apesar de ter concebido A Visita da Velha Senhora para a televisão francesa, Cavalcanti não disfarça a origem teatral. O filme começa com movimentos repetidos de subida de cortina e termina com a descida da cortina. Na tela, os atores aparecem no palco. Os espaços nos quais a história de Dürrenmatt se desenrola são sugeridos por meio de fragmentos de ambientes assumidamente cenográficos. E há um detalhismo nos figurinos, perceptível nas cenas coletivas.
Nada disso esfria a apreciação do filme, mérito que deve ser atribuído à encenação propriamente dita, à qualidade das atuações (em especial, da protagonista, a atriz Mary Marquet) e à força da peça de Dürrenmatt, centrada em Clara Zahanassian, milionária que retorna à cidade de Güllen para se vingar do homem, Alfred Schill, que a abandonou grávida décadas antes, na juventude. Com marcas físicas das tragédias pelas quais passou – tem uma perna mecânica e uma mão de marfim –, Clara, porém, não se mostra fragilizada. Ao contrário, manipula todos graças ao dinheiro de que dispõe, fruto de seus vários casamentos, ainda mais diante de um quadro de falência geral como o vivenciado pelos moradores de Güllen. Clara se propõe a salvá-los financeiramente. No entanto, impõe uma condição: a de que Alfred seja assassinado. Os habitantes hesitam, mas, à medida que a peça avança, se posicionam de forma cada vez mais evidente.
A Visita da Velha Senhora já recebeu adaptações para o cinema – como a dirigida por Bernhard Wicki, em 1964, com Ingrid Bergman e Anthony Quinn – e foi montada no Brasil – em espetáculos com elencos liderados por Cacilda Becker (com direção de Walmor Chagas) e Tônia Carrero (com direção de Moacyr Góes). A oportunidade, oferecida pelo Festival do Rio, de conferir essa versão rara pode estimular um maior contato com a filmografia de Alberto Cavalcanti, dono de uma trajetória particularmente longeva e plural, tendo em vista a quantidade de países em que se desenvolveu como profissional (além do Brasil, Áustria, França, Inglaterra, Israel, Itália, Romênia, Suíça), a variedade de veículos nos quais se exercitou (cinema, teatro, televisão), a versatilidade nas funções que abraçou (diretor, produtor, cenógrafo) e a diversidade de sua obra (cinema experimental, documentário social, produções de mercado com padrão internacional – a exemplo dos filmes do estúdio Vera Cruz). Há muito o que falar sobre Alberto Cavalcanti, que, não por acaso, foi documentado por Jairo Neto e Graubi Garcia em Cavalcanti (2026).
