quinta-feira, 22 de outubro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
CRÍTICA

Senhora dos Afogados

Fidelidade e voo criativo
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No final da apresentação de Senhora dos Afogados, a imagem de José Celso Martinez Corrêa surge na tela. É um tributo a esse encenador que conduziu os rumos do Teatro Oficina até morrer, em 2023. A montagem da peça de Nelson Rodrigues – em cartaz no galpão Ação e Cidadania dentro da programação da Semana de Arte do Rio – nasceu como a materialização de um projeto que Zé Celso não teve tempo de concretizar. A ausência da figura centralizadora desse diretor marcante na história do teatro brasileiro gerou expectativas em relação ao destino do Oficina, mas, nesses primeiros anos, chama atenção a tenacidade de artistas que levam adiante a jornada dessa companhia, a qual estão vinculados, alguns há décadas, outros mais recentemente. O espetáculo é dirigido por Monique Gardenberg – que assinou, junto com Zé Celso, uma versão audiovisual de Esperando Godot – e conta no elenco com atores e atrizes – Marcelo Drummond, Leona Cavalli, Sylvia Prado, Giulia Gam, Ligia Cortez – ligados ou pertencentes ao Oficina desde os anos 1990, quando o coletivo reabriu suas portas rebatizado de Uzyna Uzona.

Regina Braga. Foto: Sérgio Fernandes.

Essa versão de Senhora dos Afogados revisita características da companhia: a apropriação de uma mistura de referências, do erudito ao popular, elemento sinalizado na trilha sonora de Gardenberg; o destaque às cores tropicalistas – antes estampadas na cenografia de Hélio Eichbauer na emblemática montagem de O Rei da Vela, em 1967 – na tela inserida no segundo ato (que corresponde ao terceiro ato da peça); a inclusão dos espectadores na cena, ainda que de forma breve e nada “ameaçadora”, e do aparato multimídia por meio de projeções constantes e da presença de um videomaker no palco. Além disso, como habitualmente ocorre nas temporadas do Oficina em cidades diversas, a configuração específica do palco-passarela, projeto espacial idealizado por Lina Bo Bardi e Edson Elito ao longo da década de 1980, é reproduzida – na medida do possível.

Em sua encenação para Senhora dos Afogados, Monique Gardenberg parece investir num contraste entre o primeiro ato e parte do segundo. No primeiro, segue uma concepção mais “tradicional”, no que diz respeito à valorização da peça propriamente dita. A plateia acompanha os acontecimentos nas vidas dos integrantes da família Drummond, em especial a oposição entre mãe, Eduarda, e filha, Moema. Há um acúmulo de pulsão de morte na determinação de Moema em matar as mulheres da família para se tornar a única filha de Misael, pai por quem nutre fixação – elo intrincado que suscita articulação entre essa peça mítica de Nelson Rodrigues e a tragédia grega, principalmente Electra. Já no começo do segundo ato, a diretora explode com a estrutura cartesiana. Em vez de ambientar a ação no café do cais, espalha os personagens por uma praia, enfatiza a mescla de canções e gêneros musicais, atrai o público até o palco. Essa intencional distinção entre os atos evoca, longinquamente, Cacilda!, o primeiro espetáculo de Zé Celso em homenagem à Cacilda Becker, que transitava entre a apresentação biográfica (mas a montagem jamais se limitava a enumerar fatos) e a atmosfera delirante decorrente do estado de coma de Cacilda antes de morrer. 

Giulia Gam. Foto: Antonio Simas Barbosa

De qualquer modo, a proximidade com a narrativa da peça de Nelson Rodrigues resulta mais promissora do que o voo criativo, momento em que o contraponto entre a ambientação claustrofóbica da casa da família Drummond e a imensidão do mar se dissolve. As cenas se voltam para uma sedução postiça do público, convidado a entrar no palco e interagir, em clima de festa carnavalizada, com o elenco. Felizmente, a dispersão é minimizada depois. 

A conjugaçãom entre a fidelidade às circunstâncias da peça e a elaboração artística se manifesta nas criações que compõem a montagem. É o que se pode notar nas criações que compõem a montagem. Na cenografia (arquitetura cênica), Marília Piraju concebe o quarto de Eduarda e Misael, no qual sobressai um grande espelho atrás da cama, e uma praia, com areia e pedras à frente de uma tela preenchida pela projeção do mar. No segundo ato, a areia invade o palco. A imagem mais impactante nesse segmento é a de Eduarda e Moema em lados contrários do espelho/transparência. Os figurinos de Cássio Brasil são bastante expressivos nos trajes em cor preta, diferenciados conforme a identidade de cada personagem. A iluminação (desenho de luz) de Pedro Felizes e Sarah Salgado oscila de acordo com a temperatura dramática da peça e da encenação, que não necessariamente coincidem.

Apesar de unido pela intensidade nas interpretações, o extenso elenco de Senhora dos Afogados, em que pese alguma irregularidade, demonstra cuidado em não se sobrepor aos personagens. Leona Cavalli, com uma melodia de voz que insinua certo glamour, realça o embate de Eduarda, entre a representação social e a verdade pessoal, e dá vazão a entonações ao texto que surpreendem. Lara Tremouroux é uma Moema que imprime na voz uma derramada carga emocional e explica sua lógica de funcionamento psíquico por meio do gestual. Marcelo Drummond faz Misael desconstruindo, em parte, a densidade do texto pela via do humor. Regina Braga, como a avó Marianinha, envereda por uma linha de atuação mais estilizada e sustenta máscara facial sem cair no artifício. Cristina Mutarelli, Giulia Gam, Ligia Cortez e Michele Matalon formam o coro de vizinhas com destaque para as duas primeiras – Mutarelli pela comicidade expansiva, Gam pela sobriedade em suas intervenções nos minutos finais do espetáculo. Kael Studart sublinha a infantilidade de Paulo, mas sem definir o personagem a partir de um único traço de personalidade. Roderick Himeros, como o noivo, aposta no vigor físico e procura revestir a palavra dessa energia. Sylvia Prado, como a mãe do noivo, prioriza o corpo como expressão. Alexandre Paz ganha a cena como um Sabiá de discurso contundente.

Marcelo Drummond e Leona Cavalli. Foto: Divulgação

Senhora dos Afogados é um espetáculo que concilia a louvável preocupação com a dramaturgia textual – a peça compreendida e bem-dita, as motivações das personagens devidamente esclarecidas – com proposições inventivas – também oportunas, mesmo que nem sempre amadurecidas. A permanência do videomaker durante toda a apresentação transmitindo imagens registradas no aqui/agora da cena sugere a captação dos personagens sob ângulos variados e uma acentuação do tom melodramático, mas não chega a se constituir como proposta de linguagem. As imagens dos atores na tela desviam o olhar do espectador e concorrem com a apreciação da cena. O aparato multimídia é utilizado para pouco mais que permitir ao público o acesso a instantes do espetáculo que não consegue ver integralmente por causa da disposição do galpão da Ação e Cidadania – as colunas atrapalham a visão total da horizontalidade do palco. Em todo caso, a continuidade de trabalho do Oficina após a morte de Zé Celso é um feito a ser comemorado e essa montagem de Monique Gardenberg tem qualidades que mobilizam o espectador.

SENHORA DOS AFOGADOS – Texto de Nelson Rodrigues. Direção de Monique Gardenberg. Com Leona Cavalli, Lara Tremouroux, Marcelo Drummond, Regina Braga, Giulia Gam, Cristina Mutarelli, Ligia Cortez, Michele Matalon. Ação e Cidadania (R. da Gamboa, 246). Dias 25/9, 26/9, 1/10, 2/10 e 3/10, às 19h, dia 27/9, às 17h. Ingressos: R$ 120,00 e R$ 60,00 (meia-entrada).

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