Boa Noite, Mãe é uma peça que se impõe como veículo interpretativo para duas atrizes e como enredo desenvolvido para reverberar emocionalmente no público. A dramaturga norte-americana Marsha Norman coloca o leitor/espectador diante do embate entre mãe, Thelma, e filha, Jessie, a partir do momento em que a segunda comunica à primeira que cometerá suicídio naquela noite. A situação é única e a dinâmica entre as personagens quase não altera: a mãe faz de tudo para reverter a decisão da filha, que, porém, permanece inflexível às argumentações.

Nesse texto já encenado no Brasil e adaptado para o cinema – em Noite de Desamor (1986), de Tom Moore, que, antes, dirigiu a montagem na Broadway –, Norman incorre em alguma inverossimilhança. Jessie, tão desiludida, precisaria ser mais ingênua para acreditar que haveria como desfrutar de uma noite minimamente amistosa ao lado da mãe depois de informá-la sobre o que pretende fazer dali a poucas horas. E Thelma poderia se valer de estratégias para tentar impedir o que está prestes a acontecer.
Mas a peça suscita associações instigantes. Apesar do potencial melodramático da história, cabe estabelecer articulações com a tragédia (bem mais a grega que a shakespeariana), tanto na estruturação do texto quanto numa personagem como Jessie. No que diz respeito à construção da dramaturgia, o elo com a tragédia se dá por meio de uma história apresentada de maneira concisa e objetiva. Norman evita a dispersão em relação à circunstância e aos personagens (outros são mencionados, até com frequência, mas o foco continua no conflito entre mãe e filha).
No que se refere à personagem, Jessie se mostra mais próxima da austeridade das protagonistas de tragédia do que do derramamento das heroínas que extravasam constantemente aquilo que sentem. Como as personagens de tragédia, Jessie se revela irredutível, incapaz de enxergar formas diversas de lidar com a realidade. E sua determinação na prática de atos extremados não decorre de um instante de descontrole e catarse. Ao contrário, é uma ação não só pensada como arquitetada e Jessie justifica a sua resolução: segundo ela, as coisas não deram certo ao longo da vida e não há possibilidade de mudança.
O diretor Leonardo Netto, de modo apropriado, investiu numa montagem que não ambiciona a comoção da plateia através de recursos imediatos. Um indício é a ausência de trilha sonora, elemento que tenderia facilmente a favorecer o envolvimento do espectador. A direção se destaca por secar qualquer excesso, valorizando o texto – em tradução de José Pedro Peter – e, em especial, os trabalhos das atrizes.
O fato de o diretor não imprimir uma visão autoral sobre a peça não implica em anulação artística. Expressivas contribuições, apenas aparentemente “invisíveis”, também despontam nas criações que integram a encenação. A cenografia de Ronald Teixeira e Flavio Graff segue a moldura realista na reconstituição da sala da casa onde as personagens moram, mas sugere espaços ocultos – como a cozinha – ou esboçados – como o sótão, entulhado de objetos, aproveitando o segundo andar do Teatro Poeira –, procedimento que estimula a imaginação do espectador. Os figurinos, de Ronald e Flavio, são fiéis ao desenho das personagens apontado na peça. A iluminação de Ana Luzia Molinari de Simoni, sem frisar as eventuais transições na interação entre mãe e filha, impacta pela sutileza das gradações.

Os méritos da montagem são consideráveis, mas o maior interesse se concentra nas interpretações das atrizes, que, mesmo sintonizadas, se deparam com desafios diferentes. Ana Beatriz Nogueira encontra em Thelma uma personagem com arco mais amplo – de início, não leva a sério a postura inabalável da filha, depois passa pela indignação e finalmente por certa conformidade quando recebe as instruções sobre como deve agir após o suicídio. A atriz confere bastante credibilidade à oscilação de estados existenciais – dos lampejos de humor à contundência dramática. Andréia Horta se sai vitoriosa na difícil missão de não tornar Jessie monocórdica graças ao frescor com que reage às intervenções da outra personagem.
Boa Noite, Mãe é uma montagem que, oportunamente, não procura conquistar o público por meio do apelo sentimental. Leonardo Netto se distancia de um caminho mais fácil. O resultado é rigoroso, qualidade que se estende da concepção estética às interpretações.
BOA NOITE, MÃE – Texto de Marsha Norman. Direção de Leonardo Netto. Com Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta. Teatro Poeira (R. São João Batista, 104). De qui. a sáb., às 20h e dom., às 19h. Ingressos: R$ 120,00 e R$ 60,00 (meia-entrada). Temporada: de 10/9 a 25/10.