sábado, 12 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
CONTOS E POESIA

Almeirão, de Aramyz

O conto da semana da Revista Lume.
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perguntei pro pivete da rua de cima qual era o sonho dele. comer pizza todo dia e ter um computador pra estudar. fiquei com aquilo martelando na cachola. minha vontade era sair correndo na mesma hora, entrar na porra de uma loja, pegar um computador, dar pro menino e falar: vai estudar, porra! vai estudar moleque, vai estudar! estuda, caralho! estuda até sair fumaça… eu queria ter sido igual esse moleque, ter essa vontade dele. 

nada me dói mais do que ver sonho morrer. gente sem sonho, gente que parou de sonhar, gente que nunca teve sonho, gente que guardou o sonho, gente que nem consegue sonhar, porque o barulho do estômago não deixa. gente com fome. aqui é assim. o que mais tem aqui é gente que perdeu o sonho, e gente com fome, gente sofrendo, gente doente, casa doente, geladeira doente, tudo doente… se uma mãe vem aqui com o filho zoado, dentro das minhas condições, eu faço o que posso. eu compro o remédio e o escambau! eu cuido da criança melhor que o pai. eu viro o pai que essa criança não tem! tenho culpa se essa mãe fica grata e quer fazer tudo por mim? quem não fica grato de ver o filho que estava morrendo ficar bom? gratidão é coisa pra vida toda… o que eu faço aqui é ação social. outro dia mesmo, uns doidos aí pegaram um carregamento de cesta básica, vieram pedir ajuda pra chegar a quem devia, eu fiz o que tinha que fazer: eu beneficiei a comunidade!

quando eu era pequeno toda vez que tinha saída de santo em algum lugar, a gente ia. se fosse de Ogum, era festa pro estômago e pro coração, feijoada, devoção.  ogunhê, meu pai!!!  eu nasci no dia de Ogum. meu pai batia na minha mãe, minha mãe batia em mim, eu batia no cachorro dele. até que ele cansou de bater na minha mãe, foi embora e nunca mais voltou; minha mãe parou de me bater. eu nunca mais bati no cachorro, uns dias depois a polícia veio falar que achou meu pai morto, eu sentei perto do cachorro, fiquei olhando pro cachorro e o cachorro olhando pra mim. 

seu dono morreu, agora você é meu! 

o cachorro abanou o rabo, deitou no meu colo e lambeu minha mão.

tem um monte de moleque aqui na quebrada que me chama de pai, mas não é só porque eu dou trampo pra eles. é consideração, é gratidão, é respeito.

se eu pudesse, juro, se eu pudesse eu ia ser o pai de todo mundo aqui: velho, novo, macumbeiro, crente, católico, homem, mulher, viado, todo mundo. 

quando vi meu pai no caixão não senti nada. nada mesmo: nem raiva nem amor; mas ele era meu pai, podia ser o pior pai do mundo, mas era meu pai.  sabia que era a última vez que eu tava vendo meu coroa, então eu peguei na mão fria dele e pedi a benção, pedi a benção e pedi perdão, fiquei pedindo perdão enquanto segurava a mão fria dele, perdão meu pai, sua benção meu pai, perdão meu pai, sua benção meu pai. até que alguém viu que eu tinha chapado, e veio me tirar de perto do caixão.  

não baixo a cabeça pra ninguém, mas todo mundo sabe que bato a cabeça pro santo

Ogum Yê, meu pai! 

podem até não gostar, só que tem compreensão. o pastor ora por mim, o padre me dá a benção, eles sabem que eu cuido do rebanho deles. aqui todo mundo é pai de todo mundo, todo mundo é filho de todo mundo, aqui todo mundo é família. salve, família!!! 

minha mãe nunca deixou de amar meu pai, mesmo que as pancadas dele tenham doído nela a vida toda; mesmo que toda vez que ela lembrava dele, acabasse chorando. ela amou meu pai até o fim da vida dela, eu nunca deixei de amar minha mãe, o cachorro do meu pai nunca me mordeu. aqui é igual: todo mundo sabe as porra que eu faço! pode até não concordar, mas todo mundo sabe os perreco que eu passei. sabe que se precisar matar, eu mato. eu cuido dos meus, eu sou o paizão da quebrada! paizão, é assim que eles me chamam. e eu gosto, todo mundo sabe que pode contar comigo, eu cuido deles. o meu nome tá num monte de muro: salve paizão, salve paizão, salve paizão. eu coloco ordem no bagulho. o que um pai faz? coloca disciplina. eu coloco o baguio nos eixo:  aqui não entra gambé pra fazer terror. aqui não se mata moleque preto e desova no mato pra urubu comer, aqui, gambé filho da puta não esculacha pai de família, aqui pai de família trabalhador tem que ser respeitado, se entrar com essas provocação vai saber o que é ser enquadrado! aqui tem ordem. a ordem sou eu que dou: é só eu mandar que a quebrada inteira se rebela e faz luta armada; nóis coloca pra fora na bala.

meu barraco parece consultório, neguinho vem pegar uma alegria e quer ficar conversando, quer desabafar, não agüento mais ouvir história triste. aqui vem de tudo, vem trabalhador, vem vagabundo, vem riquinho, vem advogado nóia, e vem um monte de mauricinha, que se oferece em troca de pino.  todo mundo quer fugir da porra da vida de merda que leva;  uns da pobreza e da miséria, outros querem só descarregar o stress…eu sei o que é isso, meu pai perdeu a vida dele no álcool e no jogo, jogava pra tentar ganhar um qualquer e ter uma vida melhor; meu pai queria me dar uma vida melhor, eu sei que queria, o coitado bebia  até cair e esquecer que não tinha uma vida decente, a bebida era a droga dele. eu também quero esquecer, esquecer a dor da minha mãe, esquecer os tombos do meu pai, esquecer as histórias que ouço, esquecer as mães desesperadas, esquecer tudo.  às vezes eu tenho vontade de arrancar minhas botuca pra não ver tudo isso.

a única coisa que não quero esquecer são os momentos quando meu pai tava de boa, meu velho gostava de plantar; qualquer pedacinho de terra ele plantava verdura, couve, chuchu, cheiro-verde, almeirão. ele gostava de almeirão! falava que era bom pro estômago. os mato que a gente comia em casa vinha das plantação dele, ele tinha mão boa.

eu não quis ir no cemitério ver meu pai ser enterrado… porra, não quis!… levei um tempo pra querer ir. 

quando criei coragem, fui conversar com ele, falar que tava bem, que já tinha virado homem, pedir perdão pelo que eu tinha me tornado, perguntar se ele já tinha encontrado com a mãe no céu. 

ele era tão cuidadoso com as coisa, mas a campa dele tava largada. puta sacanagem com o velho.

fui falar com o zelador do cemitério, que eu já conhecia dos corre, pra dar uma ajeitada. ele perguntou que flor eu queria que ele plantasse no túmulo do meu pai. nessa hora, lembrei do meu pai plantando nas latinha, nas panela velha, nos pneu, lembrei das horas que ele tava de boa, das horas que ele chegava com as verdura que tinha acabado de tirar e entregava pra minha mãe lavar e fazer salada, “olha aí, sem agrotóxico”, era como se eu tivesse vendo meu pai na minha frente, e nessa hora,  não pensei duas vezes. 

almeirão, planta almeirão, parceiro…

Aramyz. Fotos: Fábio H. Mendes

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