Ulisses sentiu o corpo dolorido, achou melhor não fazer movimentos intensos. A rigidez do asfalto causava uma inesperada sensação de prazer na coluna, finalmente se estendia por completo depois de quase seis meses curvada na motocicleta. A vontade era de esticar os braços no alto da cabeça, alongar os músculos e bocejar, mas se fizesse isso seria obrigado a levantar, prestar contas e serviços.
Mexeu os dedos dentro da bota só para garantir que tinha controle. Dobrou de leve o joelho esquerdo, depois o direito. Abriu os olhos e encarou o céu azul. As nuvens flocadas estavam distantes umas das outras, solitárias e rechonchudas. Não se deu ao trabalho de imaginar desenhos no céu, já estava tudo muito bonito assim, o céu sendo céu, nuvem sendo nuvem. Por que a gente acha que sempre precisa inventar alguma coisa naquilo que já existe? Se não machuca, não faz mal para ninguém e ainda por cima enfeita o mundo, precisa ter mais alguma coisa escondida? Não queria procurar mais nada, já tinha encontrado o suficiente, agora era só deixar tudo no lugar. No máximo dar um tapinha ou outro naqueles cantos da vida que ainda tem um reboco para preencher, uma infiltração mal resolvida. Pintar um pouco também não faria mal a ninguém, as crianças bem que gostariam de um quarto com um pouco de roxo ou amarelo. Um sofá novo para a Nilse esticar aquelas pernas lindas. Parcelar uma TV antes do Natal também parece uma boa ideia. Vai ver é isso, não é? Quanto mais a gente gosta, mais a gente quer deixar bonito. As nuvens devem fazer forma de bicho para a gente gostar mais delas e depois não reclamar da chuva.
Ouviu vozes se aproximando enquanto sentia a vibração dos carros desviando do seu corpo na avenida.
“Alguém já chamou o SAMU?”
“Vai ver se ele tá bem.”
“Para, não pode mexer nele.”
Ulisses fechou os olhos e só descolou levemente as pálpebras para garantir que as vozes não eram devaneios. Ficou mais tranquilo quando viu alguns rostos estranhos e assustados entrando no campo de visão limitado do capacete. Já sabia mais ou menos o protocolo, ele deveria tirar a moto do meio da rua, colocar na calçada, falar com o motorista filho da puta que não deu seta, ligar para a empresa, cancelar a entrega e esperar o próximo chamado, mas sentia tanto, tanto cansaço.
As flores que carregava no bagageiro da moto agora estavam deitadas ao seu lado formando uma meia lua quebrada. Parecia areia de praia depois de receber as oferendas rejeitadas pelo mar no réveillon. Quanto tempo não via a praia? Uns oito meses? Um banho de água salgada tiraria essa zica do cangote suado. Com um pouco de esforço, conseguiu inventar o som de mar entre os escapamentos.
Pelo barulho rasgado, o último carro que passou deve ter arrastado o resto do arranjo pela avenida. Era a primeira vez que aceitava um pedido de entrega de flores, evitava levar qualquer coisa que fosse muito delicada. Quando foi buscar o arranjo, Ulisses não fechou o zíper da bolsa térmica, não queria abafar as pétalas e nem amassar a ponta daquela flor mais alta que ele não sabia o nome, mas era bem bonita. Conduziu a moto com mais cautela que o de costume, respeitando todas as leis que frequentemente ignorava. Justo hoje que fez tudo direitinho acontece uma coisa dessas. Não adianta nada seguir as regras se os outros não seguem. Isso significa que ele deveria seguir todas as normas esperando que os outros também andassem na linha? Ou não precisava respeitar mais nada porque sempre tem alguém pouco se fodendo?
Bocejou sem abrir muito a boca, só descolando os dentes. Não precisava esconder o sono de ninguém, o capacete o protegia, mas achava importante ser discreto. Piscou e respirou com lentidão sossegada. Conscientemente, foi soltando os músculos, começando no pé, percorrendo mentalmente todos os membros até a cervical. Os cantos dos lábios subiram de leve quando entrou na praia vazia. Andava descalço na areia úmida. Estava sozinho, mas conseguia ver a família esperando por ele a poucos metros dali. A esposa e os filhos estavam sentados em cadeiras de alumínio, os três viravam garrafas de alguma bebida refrescante que ele não conseguia identificar. Estava completamente seco por dentro e molhado por fora, suava em cantos do corpo que nem sabia que era possível suar. O que sentia na garganta não era sede, era mais hostil, uma pressão gelada e esquisita, dor sem choro. Caminhou com calma em direção à família, mas a distância não diminuía, os três continuavam ínfimos. Acelerou os passos, brigando com o horizonte teimoso que não se aproximava. O som das ondas ficou mais intenso, um shhhh shhhhh que tentava acalmar os ânimos, mas acabava incomodando como um pedido de silêncio insistente. Quanto mais corria, mais ruídos chegavam aos seus ouvidos. O chiado da água virando onda se multiplicou, agora era mar, frigideira e pandeiro. É sexta-feira, dia de samba e provolone à milanesa. Dia de sentar no Trevo dos Amigos, na esquina da Rua Luar da Minha Terra com aquela outra avenida que ninguém lembra o nome, pedir cerveja gelada, batucar na mesa grudenta e limpar os dedos engordurados nos guardanapos que parecem folhas de plástico. Entre uma pisada e outra da corrida, escorregou em uma sacola plástica verde e gosmenta que estampava o nome de uma dessas farmácias que pipocam em tudo quanto é esquina. Tropeçou como se caísse em um bueiro aberto. Sentiu um espasmo forte no tronco e um vento frio entrando com timidez na região do queixo. Os socorristas estavam tirando o capacete e preparando os equipamentos para ajustar o corpo de Ulisses na maca.
“Olha… não. Não, precisa disso não. Juro que tô bem”
Sentou no asfalto, alongou a coluna com as mãos na altura da lombar. Seu sono não tinha mais vigília, os curiosos seguiram para as próprias sextas-feiras. Ergueu seu corpo e sua moto. Conversou com gente da polícia e com gente da saúde. O celular ainda estava preso na moto, exibindo apenas as rachaduras de sempre na tela. Reportou o acidente pelo aplicativo da empresa para evitar perder estrelas de avaliação, mas já tinha aviso de reclamação. Rogério estava furioso porque a esposa não recebeu as flores no dia do aniversário de casamento. Foda-se, Rogério, no ano que vem você mesmo leva o presente para a Flávia.
Subiu de novo na moto às cinco da tarde. Encerrou mais cedo o expediente que ele mesmo criou. Hoje fez só nove horas no aplicativo, precisava de doze para fechar o mês direitinho, mas não aguentava mais. Queria ir para casa molhar o corpo com água fria. Na verdade, queria mesmo era ir para o samba, beber cerveja gelada, balançar a cintura encaixando a virilha na coxa da Nilse. Mandou uma mensagem para a esposa pedindo para encontrar com ele lá no Trevo. O celular vibrou. Onde já se viu sambar assim quando tem filho doente? Vibrou mais duas vezes. Era bom ir para casa logo. Se esquecesse de comprar um termômetro novo e Tylenol já sabia que dormiria na rua.
Ulisses deu o cpf e aceitou a sacola. Só fez uma parada no posto para abastecer a moto e comprar Sonho de Valsa para a Nilse e as crianças. Talvez uma latinha? Não tem nada de errado com uma latinha. É sexta-feira e ele tinha feito tudo certo, certo demais. E até que o asfalto fez bem para a coluna.