sábado, 12 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
CRÍTICA

Frozen Charlotte, Jack White

O primitivismo como vanguarda.
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O século XXI inaugurou a era do excesso informacional onde as redes sociais e os muitos sites ditam e editam sempre as mesmas notícias. Um excesso de informação que mais confunde do que explica. Mais anestesia, do que geração de ideias e debates. É também uma era do polimento cirúrgico estético, onde uma limpeza da arte se desenvolve ao lado de tantas engendragens tecnológicas. A mixagem sonora limpa. A imagem digital limpa. Os textos geometricamente perfeitos. A higieniação impera na arte como condicionamento às exigências mercadológicas. Tudo parece sem vida. Um reflexo gerado por plásticos e vidros descartáveis. Diante disso, é fascinante observar a trajetória de um músico como Jack White, que surge como um paradoxo estético curioso. Desde o minimalismo cromático da sua ex-banda, The White Stripes, à urgência e simplicidade musical do rock de garagem e do blues/punk de seu sétimo álbum solo, Frozen Charlotte (2026), White opera sob uma ideia interessante: a de que a verdadeira modernidade reside no primitivo.

Capa do disco Frozen Charlotte de Jack White

Claramente a busca de Jack White evoca o movimento modernista holandês De Stijl, desde sempre, já que não por acaso, era o nome do segundo disco do The White Stripes, banda primordial e seminal que White criou nos anos 1990. O pilar do movimento De Stijl, que foi de 1917 a 1931, consistia em reduzir a expressão artística à pureza geométrica das linhas retas e das cores primárias. O que White fez, foi transpor esse movimento para as frequências sonoras. Endurecido pela idade e com a arrogância de sempre, ao rejeitar os artifícios digitais e abraçar a restrição estrutural de sua música, White não adota um mero saudosismo. O que ele propõe é uma severa disciplina estética em que o limite técnico atua como o verdadeiro catalisador de sua liberdade criativa. Com sua banda, The White Stripes, ele gerou clássicos atrás de clássicos, sendo a canção Seven Nation Army um hino do rock alternativo e que até hoje faz torcidas organizadas de futebol ao redor do mundo ecoar seu riff com os pulmões. Quando chegou a carreira solo, White permaneceu um purista, trabalhando com as bases do blues, punk e rock de garagem, gêneros sínteses do minimalismo e de estruturas arcaicas. Na verdade, sem nenhuma evolução estrutural aparente em seu som.

Se a indústria da cultura de massa exige a reinvenção perpétua como prova de relevância, Jack White responde com a teimosia de um artesão. Ele faz do rock de garagem e do blues legítimo do Delta do Mississippi uma espécie de liturgia in looping. O som de guitarras saturadas, voz gutural, e as estruturas rítmicas de faixas do novo disco, como em “Dollar Bill“, não são repetições por falta de fôlego, mas sim por excesso de convicção.

Sob uma ótica filosófica, a repetição em White aproxima-se do conceito kierkegaardiano de Retomada (Repetição). Para Søren Kierkegaard, a repetição legítima não é a cópia mecânica do passado, mas a preservação ativa da intensidade do instante original. Quando White reitera os mesmos acordes ásperos há quase três décadas, ele está resgatando o espanto inicial do blues de Son House e Charley Patton. Também o som primitivo de um Robert Johnson que vendendo a alma ao diabo, como todos sabemos da história clássica da origem do blues, se mostra também um diabo sábio: a novidade vem da repetição, e pricipalmente, como essa repetição se dá. Trata-se de uma recusa heróica à “novidade” vazia. O groove obsessivo atua como um transe hipnótico, capaz de converter a crueza sonora em um trunfo orgânico. Os riffs são uivos, e a guitarra, quase erótica, se contorce de prazer aliada a dor.

Desde o fim do The White Stripes, Jack White não se mostrava tão endiabrado.

Em Frozen Charlotte, o ruído ganha contornos metafísicos. A canção de abertura, “G.O.D. and the Broken Ribs“, transforma parábolas bíblicas em alegorias existenciais sobre a ruína e o recomeço. Há uma tensão na forma como White conduz sua arte: ele exige o desgaste da matéria. Sua voz distorcida, suas guitarras tocadas propositalmente com cordas altas e duras. O músico rejeita computadores em prol das fitas magnéticas, onde o erro exige o recomeço absoluto de toda a banda. A bateria sempre está no canal frontal, como em mono sem divisão de canais. Isso faz com que a guitarra de White percorra os dois canais de estéreo e faça um desenho sonoro arrebatador.

Essa resistência da matéria-prima nos lembra a tese de Martin Heidegger em A Origem da Obra de Arte. Heidegger postula que a arte autêntica estabelece um combate entre o “Mundo” (a significação humana) e a “Terra” (a matéria bruta, o metal, a madeira). Jack White não quer simplesmente domar a matéria sonora; ele quer que o ouvinte sinta o peso da corda e o calor físico da válvula. Um som que lembra larva, terra. Um vulcão, que faz o rock de garagem, sob essa lente, deixar de ser apenas um subgênero musical para se firmar como uma postura de resistência ontológica frente a um mundo cada vez mais etéreo, algorítmico e desmaterializado. Um mundo vulgar e descartável, que White, obsessivamente, tenta lutar contra.

Ainda com efeito, agora gráfico, a própria identidade visual de Frozen Charlotte aprofunda esse manifesto de crueza. Aliás, como todo aspecto visual na carreira de Jack White, faz provar que o músico é um conhecedor profundo de arte. Desta vez a capa estampa uma escultura customizada realizada pelo próprio White: um crânio azul sobre o corpo de cerâmica de uma boneca vitoriana. Historicamente, a boneca Frozen Charlotte, que dá título ao àlbum, evoca a fragilidade mas também a rigidez. Na leitura hermenêutica de Paul Ricoeur, o símbolo dá o que pensar; aqui, a sobreposição do crânio à porcelana flerta abertamente com a tradição das pinturas Vanitas do século XVII. O azul forte e violento que tinge o osso marca e quebra o lirismo pálido do brinquedo antigo. Trata-se de uma representação do próprio som de White: um esqueleto de blues ancestral aprisionado em uma forma rígida, quase imóvel, que se recusa a se agasalhar contra os problemas da modernidade. A arte da capa nos adverte que forma rigorosa e a morte não são o fim da linha, mas sim as condições necessárias para a eternização da obra. É a beleza encontrada na calcificação da matéria. 

Com Frozen Charlotte, Jack White realiza o seu melhor album, sem descarecterizar sua música e sua trajetória.

No entanto, o projeto estético de White não passa imune pelos críticos contemporâneos. Estão citando que ao banir barreiras artificiais ao próprio processo criativo — como não usar computadores e forçar sua fantástica banda de apoio (Dominic Davis, Patrick Keeler e Bobby Emmett) a emular dinâmicas ao vivo de estúdio sem rede de segurança —, White corre o risco de transformar a restrição técnica em fetiche burocrático. O que outrora era o frescor juvenil e urgente do The White Stripes periga se converter em um puritanismo performático. Sob essa ótica, a repetição não seria um transe transcendental kierkegaardiano, mas sim uma incapacidade crônica de dialogar com as novas texturas e linguagens do tempo presente, reduzindo o possível grande músico de Detroit a um nostálgico prisioneiro de sua própria mitologia. Pura balela. Ao ouvir canções absurdamente poderosas como “You’ll never fix me” no qual é uma resposta ruidosa aos críticos que exigem inovação, e a derradeira “Neighbors Blues“, será fácil descartar essas críticas. O álbum é um poderoso exercício de rock. Estrurado e cheio de revolta e beleza.

Por fim, essa dualidade entre o museu que White cria e a revolução que ele prega silenciosamente, ganha força e vibração quando comparamos Frozen Charlotte diretamente com o álbum anterior de Jack White, o também muito bom, No Name (2024). Se o álbum de 2024 foi um ataque com ares de guerrilha até na sua forma de distriubuição— onde secretamente foi dado de graça e sem rótulos aos clientes de algumas lojas físicas —,  restabelecendo as fundações de um som enxuto e urgente, Frozen Charlotte herda exatamente essa mesma banda e a voltagem frenética, mas acrescenta o peso quase de um punk gótico de garagem, e com os acréscimo dos órgãos de Bobby Emmett, consegue expandir ainda mais os horizontes rítmicos. Ou seja, apesar de sua constância, a música de White evoca o seu próprio momento. Enquanto No Name emulava o calor do ensaio de garagem, o novo álbum confere ao projeto uma dimensão mais conceitual e pesada. Com isso, além de trabalhar sob a base do primitivo em seu som, Jack White prova que a consistência brutal é a sua maior virtude, se transformando, hoje, curiosamente, em vanguarda. Ele prefere ser o observador obstinado de um gênero aparentemente moribundo a buscar uma reinvenção vazia, mostrando que a repetição, quando dotada de alma e peso, é o mais radical ato de insurgência poética contemporânea. Isso, pelo menos, é muito rock. 

Nota final: As bonecas Frozen Charlotte surgiram nos EUA e Inglaterra durante o século XIX. Feitas de uma única peça de porcelana ou cerâmica, sem articulações, foram batizadas em referência ao poema folk Fair Charlotte (Seamano, 1843). Narra a história de uma jovem que congelou até a morte durante um passeio de trenó por se recusar a vestir um casaco sobre seu belo vestido de baile. Elas carregam, portanto, uma histórica associação com a teimosia, o congelamento estético e a mortalidade. E reflete muito o mundo moderno, um espelho triste das redes sociais.

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