sábado, 12 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
CRÍTICA

Reality Awaits, The Strokes

Brilhando em torno de uma apatia moderna.
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Reality Awaits, o novo disco do The Strokes é o inventário de uma falência espiritual coletiva. Seis anos após a boa volta às origens de The New Abnormal, Julian Casablancas e companhia retornam não para reivindicar a coroa do rock, mas para constatar que o próprio reino se transformou em um cemintério. Há uma violência que atravessa o álbum, uma sensação quase asfixiante de luto pelo futuro que nos foi prometido e que nunca chegou. Ao escutar faixas como “Psycho Shit” e “Liar’s Remorse”, a impressão que fica é a de um choque existencial e paralisante: o contraste brutal entre a eletricidade dionisíaca, ingênua e transbordante do início dos anos 2000 — aquela Nova York mítica do álbum inaugural da banda Is This It — e a atual apatia de um mundo mediado e vigiado por telas. O disco funciona como uma autópsia daquela antiga urgência juvenil. O que antes era suor, arrogância charmosa e tesão urbano, vibração intiterrupta, aqui se transformou em uma melancolia crônica, um cansaço que assola sob o peso do próprio mito. Os Strokes, outrora os salvadores do rock alternativo e indie, agora arrastam suas guitarras com dificuldade, entregando uma obra que dói justamente por escancarar o abismo entre o que fomos e o vazio do que nos restou ser.

Capa do novo disco da banda, Reality Awaits.

É interessante como a experiência de desalento pode dialogar diretamente com o clássico romance sci-fi O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick, que por acaso li no mês passado. Assim como na narrativa ucrônica do livro, onde os personagens habitam uma realidade distorcida enquanto buscam vestígios de um mundo “verdadeiro” que se perdeu na história, o Strokes em Reality Awaits parece tatear as frequências estáticas de uma linha do tempo alternativa. É um disco que foge do contexto atual do mainstrean. A energia eletrizante de 2001 tornou-se um artefato proibido ou esquecido; a banda agora toca nos escombros de um presente que deu errado, operando como aqueles que, no livro de Philip K. Dick, olham para objetos do passado tentando extrair deles alguma verdade ou textura que o mundo atual, totalmente dessensibilizado, já não é capaz de produzir.

Essa desconexão profunda e dolorosa evoca imediatamente a formulação do filósofo coreano Byung-Chul Han sobre a “sociedade do cansaço” e o esgotamento do sujeito contemporâneo, mas ganha contornos ainda mais radicais quando cruzada com o pensamento do filósofo e crítico cultural britânico Mark Fisher. Em seu conceito de hauntologia— a ideia de que o presente está assombrado pelos espectros de futuros perdidos, Fisher descreve perfeitamente o luto que emana de faixas do disco como “Lonely in the Future”. O vocal arrastado e processado de Casablancas, afogado em um autotune que funciona menos como estética e mais como uma personificação de um indivíduo hiperestimulado e terminalmente vazio. É um disco que emana ecos do passado, e incrivelmente, ainda de um futuro que está por vir. Não há mais espaço para a rebeldia romântica porque a própria infraestrutura cultural digeriu a revolta e a transformou tudo em mercadoria personalizável. As guitarras de Nick Valensi e Albert Hammond Jr., que antigamente tinham uma alegria desenfreada e estímulos constantes, agora surgem repetitivas, presas em notas que mimetizam a paralisia mental de um feed infinito. É a música ideal para o colapso do sujeito: uma banda que exauriu suas energias vitais e agora descobre que a autoverificação constante nas redes sociais e o consumo desenfreado de simulacros — tema central da corrosiva “Going Shopping” — são apenas artifícios baratos para um fim de uma jornada. O vigor do passado transformou-se em um cansaço existencial, onde até o ato de gritar soa artificial e exaustivo. A música usa a imagem banal do consumo como uma metáfora ácida para o anestesiamento social político e existencial. Ao cantar “Solidarity can be difficult when you’ve got cool stuff to lose” (“A solidariedade pode ser difícil quando você tem coisas legais a perder”), Casablancas escancara uma verdade incômoda sobre a nossa própria geração: trocamos o ímpeto de revolta pelo conforto do consumo. Banal, como já dito e como tema tratado, já visto em diversas obras de arte ao longa da história. Entretanto como isso se dá em um ábum de uma banda de rock de sucesso no ano de 2026 é algo espantoso mas bastante triste.

Julian Casablanca na turnê que já começou!

Essa desilusão com o mundo exterior espelha-se em um profundo conflito existencial sobre o próprio peso de ser um “Strokes”. Logo na abertura, em “Psycho Shit”, Julian questiona: “Only my beloved songs will define me / Can you be more than what you say?” (“Apenas minhas músicas amadas vão me definir / Você pode ser mais do que aquilo que diz?”). Existe um sufocamento nítido pelo fantasma de Is This It e pelo que o público espera dele. Sob essa ótica, soterrar a própria voz em filtros robóticos passa a fazer sentido. O uso das máquinas é o disfarce de um vocalista que quer se distanciar da própria identidade humana e do mito da estrela de rock, transformando-se em um observador frio de uma realidade que ele já não compreende por completo. A ironia de criticar a artificialidade do mundo através de uma voz robotizada é também um trunfo conceitual do álbum.

É uma perda de substância do real. O que me faz pensar nas reflexões do filósofo italiano Mario Perniola sobre “o sex-appeal do inorgânico”. Perniola argumentava que a sensibilidade contemporânea caminha para uma condição em que o ser humano se despersonaliza, desejando transformar-se em uma coisa, enquanto as coisas ganham uma espécie de vida artificial. Reality Awaits habita exatamente esse limiar pervertido. Quando escutamos os Strokes em 2026, a carne, o real e o sentimento foram substituídos pelo magnetismo dos objetos e dos aparelhos. O disco habita uma ordem de simulacros onde a própria dor é processada como um gadget. A faísca analógica de 2001 foi soterrada pela saturação digital de bits e algoritmos que o produtor Rick Rubin – que já produziu pérolas do rock alternativo como “Blood, Sugar, Sex, Magic” do Red Hot Chilli Peppers – com uma crueza quase cruel, deixa exposta na mixagem. Ao desacelerar o andamento e flertar com o art-rock esquizofrênico, o grupo sabota o próprio legado. O Strokes avança acelerado rumo ao próprio sumiço; sua música não se consolida, ela evapora diante dos nossos olhos, rindo da nossa insistência em buscar neles uma salvação que o próprio tempo tratou de extinguir.

The Strokes

Por fim, a descida ao abismo se completa na desoladora faixa de encerramento, “Tyrants of the Mellow Moon”. É aqui que o álbum abandona qualquer possível verniz de ironia blasé, tão comum incluisve nas performances da banda, para abraçar uma angústia puramente existencialista. Diante do silêncio absurdo do universo e da constatação de que o progresso tecnológico não nos trouxe redenção, mas apenas isolamento, a música se dissolve em um delírio psicodélico sem resolução. Se carregamos em nós mesmos todas as manhãs que não aconteceram, “Tyrants of the Mellow Moon” é a canção dessas manhãs abortadas. Não há o conforto de um refrão catártico ou de um solo de guitarra redentor que alivie o ouvinte; há apenas o fade-out incômodo de um sintetizador que chora sozinho no escuro, como a melancólica cena final do filme A Conversação, de Francis Ford Coppola, em que o protagonista destrói o próprio lar em busca de uma escuta oculta, terminando isolado, tocando seu saxofone em meio aos escombros da própria paranoia. Sartre afirmava que o homem está condenado a ser livre, mas os Strokes parecem sugerir que fomos condenados a assistir, de braços cruzados e cercado de objetos em High Definition, à obsolescência dos nossos próprios desejos. O disco termina e o silêncio que se segue não é de paz, mas de ressaca. É a constatação terrível de que a energia dos tempos antigos não vai voltar, e de que a realidade que nos aguardava era, desde o início, este imenso e intransigente deserto do agora.

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