Está em cartaz nos cinemas um filme extraordinário, que transcende seu tema imediato – a destruição sistemática de Gaza pelas forças israelenses desde 2023 – para lançar luz ao mecanismo perverso que engendra, em última instância, todas as guerras: a transformação do oponente em bicho, em coisa, em objeto indesejável a ser eliminado. Estou falando de Naza, documentário da dupla de israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor que ganhou o prêmio especial do júri no último Festival de Veneza.
A estratégia expositiva de Naza é simples e engenhosa. No terraço da cobertura de um prédio no centro de Tel Aviv, um dos diretores do filme, Yuval Abraham, interroga membros e ex-membros da inteligência militar israelense sobre ataques aéreos, mísseis e explosões à distância perpetrados supostamente contra forças do Hamas em Gaza.

Naza, acrônimo de “nezek agavi” (dano colateral, em hebraico), é o termo utilizado pelos agentes israelenses para se referir a vítimas civis dos ataques. Por exemplo, “15 Naza” num ataque a um edifício, significa quinze civis mortos, em geral mulheres e crianças. Detalhe: essa contabilização é feita antes de cada ataque, ou seja, já se sabe que serão mortos tantos inocentes; não se trata de um acidente.
Todas as entrevistas são feitas à noite, com a voz e a aparência dos entrevistados modificadas digitalmente. Na verdade, são apenas vultos na penumbra, contra as luzes da metrópole ao fundo. Todos falam com frieza e tranquilidade, descrevendo em termos técnicos o funcionamento do sistema de vigilância e ataque à população de Gaza.
Com breves letreiros e material de arquivo, ficamos sabendo que desde 1967, quando a região foi invadida por Israel, os palestinos da faixa de Gaza não têm infraestrutura própria de comunicações. Tudo é controlado pela inteligência israelense, que tem acesso a conversas, a imagens e à localização de todos os seus habitantes que usam um celular. Podemos pensar no Big Brother de 1984 ou n’Os Mil Olhos do Dr. Mabuse, de Fritz Lang, só que com uma tecnologia muito mais avançada. “A gente se sente como um deus ouvindo tudo o que eles falam”, resume um dos agentes entrevistados.

Os dois realizadores são jovens oriundos do jornalismo – Yuval Abraham tem 31 anos, Rachel Szor tem 32 –, mas Naza é muito mais que um documentário jornalístico. Sua força cinematográfica está na composição de suas imagens e na argúcia da montagem.
O cenário em que se desenrola o filme, um terraço na penumbra, em meio à metrópole iluminada, permite um jogo pendular entre o que se diz e o que se vê. Há momentos em que, enquanto ouvimos o relato sobre um bombardeio que matou uma família inteira, vemos pelos retângulos iluminados de um prédio vizinho (como em Janela Indiscreta) pessoas comuns vivendo vidas comuns: fervendo um café, vendo televisão, colocando o filho para dormir. Compreendemos de chofre que vidas igualmente preciosas estão sendo ceifadas neste mesmo instante a algumas dezenas de quilômetros dali.
Em outras passagens, o foco recai sobre aquelas silhuetas falantes, em seus silêncios e hesitações. É quando vêm à tona as questões morais e, à falta de palavra melhor, espirituais. Interpelados sobre o que sentiam ao saber que estavam preparando a morte de inocentes, alguns dizem que não pensavam em nada, só na eficácia do sistema. “Se nos questionarmos, o sistema todo desmorona”, diz um. “Se não fosse eu fazendo isso, seria outra pessoa”, justifica-se outro. “Ofereceram psicólogos, mas não havia necessidade”, acrescenta um terceiro. Entre os 24 entrevistados, há uns poucos que admitem o abalo emocional, e pelo menos um que abandonou a missão por causa disso.

O diretor/entrevistador não opina, mas encurrala educadamente e com voz macia seus interlocutores. O posicionamento político do filme se dá mais claramente na montagem, sobretudo nos flashes televisivos mostrados quando a câmera se aproxima dos apartamentos iluminados, e que expõem a versão israelense oficial dos fatos. Numa entrevista de Netanyahu nos anos 1990, ele aparece definindo terrorismo: “Terrorismo é atacar sistematicamente, matar, mutilar e ameaçar civis com fins políticos”. Não é preciso que alguém diga que é exatamente o que ele faz agora.
A força de Naza vem também de sua sobriedade expositiva, sua ausência absoluta de música ou de qualquer outro recurso melodramático. Essa recusa da catarse induz menos às lágrimas do que ao nó na garganta. Só nos três últimos minutos do filme somos levados à zona de destruição e caos das ruas de Gaza. Ao sonegar, durante mais de uma hora, as imagens de sangue e desespero que povoam tantos documentários e reportagens sobre as guerras, Naza faz dessas últimas e inesperadas imagens (um pai tentando descobrir se os filhos estão vivos sob os escombros) o mais pungente retrato da barbárie contemporânea.