sábado, 12 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
CRÍTICA

Viva Marília, de Zelito Viana

O mundo como palco
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Marília Pêra (1943-2015) nunca foi propriamente uma unanimidade nacional. Ainda que todos reconheçam seu extraordinário talento como atriz, cantora e dançarina, há quem considere seu estilo de atuação demasiado estridente ou afetado, frequentemente uma oitava acima de seus parceiros de cena.

         O documentário Viva Marília, de Zelito Viana, ajuda a entender o fenômeno, ao revelar uma pessoa que – quase literalmente – nasceu no teatro e passou a ver o mundo como um desdobramento ou extensão do palco, como se ela estivesse condenada a ser atriz o tempo todo. Melhor dizendo: como se ela tivesse desde sempre a consciência de que a vida é um teatro, em que todos estamos representando papeis.

         Essa ideia é passada “naturalmente” pelo documentário, construído por assim dizer de dentro para fora, a partir de imagens e falas da própria Marília, e não por comentários e análises exteriores. Não é um filme “sobre” Marília Pêra, mas uma espécie de autorretrato que, por mais multifacetado que seja, revela sempre a mesma essência, expressa lindamente na canção Beatriz, de Chico Buarque e Edu Lobo, cantada por ela durante os créditos finais.

A precocidade de sua carreira é quase lendária. Com poucas semanas de idade ela “estreou” como bebê numa peça em que a mãe atuava. Aos 4 anos teve seu primeiro papel importante: era a filha de Medeia, assassinada junto com o irmão pela trágica protagonista.

Recebeu então, dolorosamente, sua primeira e fundamental lição sobre seu ofício. Numa determinada cena, ela recebia um safanão por ter furtado uma maçã e precisava chorar. Mas ela estava o tempo todo se contendo para não chorar por causa de uns furúnculos no braço. Na hora em que precisava, não chorou. “Por causa da dor de verdade, eu esqueci de chorar a dor de mentira”, resume a atriz num depoimento iluminador. O trauma da bronca que levou da estrela do espetáculo, a célebre atriz franco-brasileira Henriette Morineau, moldou sua atitude diante da profissão.

Essa dialética entre a emoção do ator e a da personagem retorna em outra fala essencial de Marília, extraída do filme Jogo de cena, de Eduardo Coutinho: “Uma pessoa comum, quando comovida, faz tudo para conter a lágrima. O ator, ao contrário, se esforça para produzi-la.”

Toda a carreira de Marília Pêra – seja no teatro, no cinema ou na televisão – se desenvolve a partir dessa consciência, aliada a um profissionalismo obsessivo na preparação do corpo e da voz. Do teatro de revista a filmes premiados internacionalmente, das telenovelas aos maiores clássicos do palco, ela encarou tudo com a mesma seriedade e o mesmo rigor.

Viva Marília é uma colagem de instâncias desse talento exuberante, com base num farto e heterogêneo material de arquivo: home movies registrados pelo pai, entrevistas, trechos de filmes, shows e peças filmadas. Sempre quem fala é a própria retratada. É praticamente a única voz que ouvimos, salvo eventualmente a de um parceiro de cena ou de um entrevistador (Marília Gabriela, Jô Soares, Bruna Lombardi).

O único breve depoimento (em off) que não é da própria Marília é o de Hector Babenco. Ele conta que, encerradas as filmagens de O Rei da Noite (1975), seu primeiro longa-metragem, a atriz lhe disse que ele era um diretor muito cru, o que o impedira de extrair dela um melhor desempenho.

Anos depois, o mesmo Babenco se redimiria dando a Marília o papel que a consagrou internacionalmente em Pixote (1980), com uma das atuações mais pungentes de todo o cinema brasileiro.

Marília Pêra fez relativamente pouco cinema, em comparação com seu trabalho no teatro e na televisão. Mas atuou em obras marcantes de diretores como Coutinho, Babenco, Cacá Diegues, Walter Salles e Paulo César Saraceni. Senti falta, no documentário, de um grande filme deste último, O Viajante (1998), em que a atriz interpreta uma mãe trágica que, assim como Medeia, mata seu filho por causa de um amor infeliz.

Faltou dizer que Viva Marília foi codirigido por Esperança Motta, filha da atriz com Nelson Motta, que escreveu o roteiro. A vida privada da retratada – seus maridos, seus filhos, sua irmã – é abordada de passagem, e basicamente apenas em conexão com seu trabalho profissional. Não é um filme de fofoca sobre uma celebridade. É a celebração de uma grande artista.

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