sábado, 12 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
CRÍTICA

Muito Prazer, de Jorge Furtado

Comédia popular brasileira
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Perpassa toda a filmografia de Jorge Furtado, desde seus primeiros curtas-metragens, nos anos 1980, uma busca de equilíbrio entre invenção e convenção. Há ali uma inteligência criativa, uma cultura literária e cinematográfica que não quer ficar falando sozinha (nem só para iniciados), e por isso dialoga com gêneros consagrados, brinca com ideias feitas, aposta num repertório comum.

Nessa linha fina (corda bamba?), seus filmes às vezes oscilam para um lado, às vezes para o outro. Sua obra mais recente, Muito Prazer, ajuda a iluminar essa formulação. Conta a história de um motorista de aplicativo, Rubem (Daniel de Oliveira), que recebe de herança de um tio um motel abandonado e cheio de dívidas. No motel está morando clandestina uma ex-funcionária do hotel, Grace (Luisa Arraes), que tem salários e direitos atrasados a receber. Sem muita opção, os dois resolvem reativar o motel e fazê-lo render.

Trata-se de uma comédia romântica, como sabemos desde o cartaz. É com elementos desse gênero que Jorge Furtado vai jogar seu jogo.

A ambientação num motel, aliada à necessidade do par central de encontrar soluções criativas para fazê-lo dar lucro, é um terreno propício para o diretor exercer um de seus talentos mais notáveis, o de pensar de modo lúdico-didático a própria linguagem audiovisual, isto é, a construção de uma narrativa por meio da articulação esperta de imagens fragmentadas. Essa abordagem aparece, de maneiras diversas, em filmes como Meu Tio Matou um Cara e Saneamento Básico.

Em Muito Prazer, a brincadeira envolve questões tremendamente atuais, como a indústria pornô na internet, a inteligência artificial, os canais tecnológicos abertos para expressão e difusão de todos os desejos, fetiches e perversões sexuais. A infinita fantasia humana e as formas continuamente renovadas de buscar satisfazê-la. Com a ajuda da expert tecnológica Nalva (Samantha Jonres), o par de protagonistas descobre e explora esse universo ao mesmo tempo divertido, fascinante e perigoso junto com os espectadores.

Como em outros filmes de Jorge Furtado, os personagens trafegam numa fronteira moral movediça, flertando com o crime e a ilegalidade, contanto que “não faça mal a ninguém”. É o mesmo terreno trilhado por protagonistas de tantos clássicos de Billy Wilder, gênio da sutileza e da ambiguidade que é a referência explícita maior do cineasta gaúcho.

Como Wilder, Furtado gosta de brincar com gêneros cinematográficos consagrados – no caso, a comédia romântica –, partindo de seus códigos e esquemas para experimentar outras possibilidades.

Em Muito Prazer o problema não está propriamente nos clichês da comédia romântica – o encontro casual entre duas criaturas aparentemente incompatíveis, a descoberta do amor, os percalços, o final feliz. Afinal, como disse Hitchcock com outras palavras, o que interessa é o que se faz a partir de um clichê. O problema, a meu ver, está na forma.

Pode ser impressão minha, mas o ritmo um tanto frenético da narrativa, a rapidez dos diálogos, a decupagem um tanto convencional acabam por aproximar o filme do timing de uma sitcom. Uma amiga chegou a comentar que a todo momento achava que ia entrar a claque das risadas. Talvez a intenção fosse essa, talvez haja aí uma ironia que me passou batida.

De todo modo, me parece que o filme cresce quando aposta no humor visual – como na cena impagável em que Rubem insiste em acender o letreiro luminoso do Motel Pérola e constata que a primeira sílaba de Pérola está com as lâmpadas queimadas. (Na verdade, uma piada verbal/visual.)

Na corda bamba entre invenção e convenção citada no início deste texto, Muito Prazer só resvala por completo para o segundo lado nos minutos finais, quando chega a cometer a surrada sucessão de breves flashbacks que recontam momentos cômico-românticos do par central.

No mais, é uma comédia o tempo todo agradável e inteligente, com alguns ótimos diálogos (especialidade do diretor) e um elenco excelente. Está muitos pontos acima das comédias populares – as chamadas “globochanchadas” – dos últimos anos, ainda que por momentos pareça querer se rebaixar a elas. De Jorge Furtado sempre se pode esperar mais.

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