Nas primeiras imagens de Mirrors nº 3, do alemão Christian Petzold, uma mulher jovem (Paula Beer) se aproxima de um canal, no centro de Berlim, e vê um homem passar sobre uma prancha de stand up paddle. Já se disse que a imagem remete à célebre e sombria série de quadros “A ilha dos mortos” (1880), de Arnold Böcklin. Um signo de mau agouro, sem dúvida.
Independentemente da possível referência, o que vemos é uma personagem meio desorientada (a ponto de esquecer a bolsa na margem do canal), que logo em seguida chega a seu apartamento e toma uma bronca do namorado, pois um casal de amigos os espera para passarem um fim de semana no interior. Assim que chegam a seu destino, porém, a moça, que se chama Laura, resolve voltar para Berlim, sem explicações.

Mas um desastre de automóvel impede esse retorno e Laura, que sobreviveu ao acidente, é acolhida por uma senhora da região, Betty (Barbara Auer).
Tudo isso acontece em menos de dez minutos de filme. A partir daí se estabelecerão relações complexas entre Laura, Betty e “os homens de Betty”: seu marido Richard (Matthias Brandt) e seu filho Max (Enno Trebs), que têm uma oficina mecânica perto da casa.
Não convém entrar em detalhes sobre essa convivência imprevista e desajeitada, mas apenas chamar a atenção para o método (ou estilo) de Petzold na construção de seus personagens e situações.
Ainda em sua chegada ao vilarejo com o namorado e o casal de amigos, num carro conversível, Laura tem uma intensa troca de olhares com uma mulher que está à beira da estrada. Só depois saberemos que essa mulher é Betty e que pouco depois a acolherá em sua casa como uma filha. (Esqueçam, por enquanto, esse “como uma filha”.) É como se houvesse desde sempre uma conexão misteriosa, ou uma promessa de conexão, entre as duas mulheres.

A narrativa do filme se desenvolve assim, em espiral, com signos fugazes que só serão desenvolvidos ou compreendidos várias cenas depois. Por que, por exemplo, o marido e o filho de Betty têm um comportamento tão áspero e arredio ao conhecer Laura e comer o jantar preparado por ela? Essa pergunta só será respondida, e apenas em parte, algum tempo mais tarde.
Os personagens mantêm sempre uma certa opacidade, um núcleo impenetrável, e o espectador é lançado o tempo todo numa situação de dúvida, tendo que aprender a ler nos detalhes, nos olhares e meias palavras o que se passa de fato. Os próprios personagens parecem estar ainda tentando entender a si mesmos.
Nessa montagem fragmentária, lacunar, desenha-se aos poucos um quadro em que o denominador comum é o trauma. Cada um à sua maneira, os personagens têm que juntar seus cacos, buscar alguma cura. Não por acaso, grande parte das ações têm a ver com conserto e restauração: pintar a cerca, consertar o lava-louças, cuidar da horta, afinar o piano. Os personagens de Petzold – e não só neste filme, mas também em Fênix, Em trânsito, Undine, Afire – são canteiros de obras, seres em construção e reconstrução.
Toda a ênfase está no olhar. Imagens recorrentes são as de Laura à janela, decifrando seu entorno em busca de entendimento, ou pedalando sua bicicleta e olhando para trás, como se sempre houvesse algo que não foi visto direito.

O espectador cinéfilo não demorará muito tempo para perceber que também se trata de um filme sobre o duplo, o fantasma, a substituta, à maneira de Rebecca, Laura, Vertigo, A dupla vida de Véronique… – ainda que cada um desses filmes aponte para um desdobramento diferente da ideia.
Seria tentador ver no título Mirrors nº 3 uma alusão a um jogo de espelhos. Mas ele se refere, ao menos em primeira instância, ao terceiro movimento (intitulado “Une barque sur l’océan”) da suíte Miroirs (1904 a 1906), de Maurice Ravel, executado ao piano por Laura numa das sequências finais.
O movimento ondulante da música é um momento de epifania, de cura pela arte, não apenas para a executante, mas também para os ouvintes – e esperançosamente para nós, espectadores desse belo filme.