quinta-feira, 22 de outubro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
PORTO DE VISTA

Poesia e cinema, ou a escuridão fora do campo

Exposição que celebra um “feminino plural”, ao reunir dez escritoras que estabelecem diálogos poéticos com filmes dirigidos por mulheres, trabalha no mesmo registro de outras obras de poesia sobre cinema, como um volume em homenagem a Bergman
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Na autobiografia em dois volumes “Viver a Minha Vida” (1931-1934), a escritora e anarquista russa Emma Goldman (1869-1940) conta um episódio em que um homem deu-lhe uma sonora bronca por causa de sua forma de dançar. Não era apropriada, teria dito o infeliz, a uma ativista política. Goldman respondeu-lhe furiosa que a causa anarquista não implicava a negação da vida e da alegria, e que um movimento político não deveria ser um claustro. Cerca de quatro décadas depois, um outro anarquista teve a ideia de resumir o episódio em uma frase que passou a ser usada em camisetas: “If I can´t dance, I don´t want to be part of your revolution”.

Perfeito. Se não posso dançar, então não quero fazer parte da sua revolução.

O slogan foi usado pela escritora e cineasta Regina Guimarães como epígrafe do texto de apresentação da exposição “Sobre um Filme, Sobre um Poema”, em cartaz até fevereiro no Batalha Centro de Cinema, no Porto (Portugal). É a terceira edição dessa série dedicada ao diálogo entre o cinema e a poesia. Desta vez, Guimarães assumiu a curadoria.

Dez escritoras foram convidadas por ela a escrever sobre filmes dirigidos por mulheres. Esses poemas ocupam alguns dos espaços expositivos do Batalha e foram reunidos também em uma pequena brochura gratuita, aberta pela poesia da própria Guimarães — ou seja, o 11º trabalho da exposição — em torno de dois filmes russos não-dirigidos por mulheres, mas protagonizados por elas: “A Nova Babilônia” (1929), de Grigoriy Kozintsev e Leonid Trauberg, e “Felicidade” (1935), de Aleksandr Medvedkin.

Um trecho da apresentação — em forma de poema, ou prosa poética — de Regina Guimarães, “Feminino Plural”:

(…)
estico uma corda e uma pergunta funâmbula:
que roupas veste o cinema quando explora a dança da mudança?
Desnuda-se ou disfarça-se
sempre que procura uma música de mutação
no sublime do quotidiano ou no quotidiano sublimado?
Louise Poirier (Yelena Ruzmina) e Anna (Yelena Yegorova)
protagonizam dois filmes posteriores à morte de Lenine
e atravessam a agonia do processo revolucionário
sem renunciarem ao ideal subversivo de transformação do mundo
que esteve na origem da Comuna de Paris e da Revolução Russa.
Ambas nos são apresentadas como combatentes
em prol da igualdade e da fraternidade
(a primeira enganosamente frágil e urbana, a segunda robusta residente e rural,
as duas em colisão com a postura de seus amantes),
(…)
Em França diz-se de uma voz que se exprime brilhantemente
“ela poderia cantar a lista telefônica”.
Enalteçamos o acréscimo de sombra e luz
no poema originado pelo encontro com um filme
aferindo uma afirmação do gênero
“ele poderia dançar o baile das pausas e dos parênteses”.

Na sequência, Raquel Nobre Guerra escreve sobre “Alemanha, Pálida Mãe” (1990), de Helma Sanders-Brahms, em poema que começa assim:

(O assunto do poema, tal como num bom filme,
está quase sempre fora do campo
e, na escuridão,
são precisos alguns passos
para tocar a sua face oculta e indissociável
do olhar mais atento e da multidão)

Boa maneira de aproximar poesia e cinema, que se aprofunda na contribuição de Marta Caldas, a partir da escolha de um filme realizado por uma escritora — “Les Enfants” (As crianças, 1985), de Marguerite Duras:

Desenganado prossigo
mnemónica de mim mesmo.

(…) Ora Diz
-lhe o nome a martelar:
um dois / três quatro /
bate vira —
Agora arfa acabado
…isso…!
o semelhante se apresenta
plena força dentro ao peito
Tu assobias:
— la mer         la mère —
o ventre recua a empurrão
És inteiro gargarejos
limpo castigo à deriva (…)

Veio do mais pequeno lugar
a fala condensada do universo
gingava em roda ao eixo
arqueando a boca nesse abcesso
gosto inflado às coisas miúdas
Atingi a memória das formas
vazio me chego à virtude:
o inevitável espera pronto.

Seguem, por ordem cronológica, os demais filmes da seleção, que vale também como um recorte singular da produção feminina no cinema:

— “De Cierta Manera” (De certa maneira, 1975), de Sara Gómez, poema de Rita Taborda Duarte;

— “Dina e Django” (1981), de Solveig Nordlund, poema de Catarina Santiago Costa;

— “Born in Flames” (Nascidos em chamas, 1983), de Lizzie Borden, poema de Gisela Casimiro;

— “Die Klage der Kaiserin” (A queixa da imperatriz, 1989), de Pina Bausch, poema de Sônia Baptista;

— “Glória” (1999), de Manuela Viegas, poema de Tatiana Faia;

— “Histoire d’un Secret” (História de um segredo, 2003), de Mariana Otero, poema de Teresa Coutinho;

— “A Travessia” (La Traversée, 2021), de Florence Miaihe, poema de Margarida Vale de Gato;

— “Skola di Tarafe” (Escola do mangue, 2022), de Filipa Cesar e Sônia Vaz Borges, poema de Patrícia Lino.

Noves fora as questões femininas (e feministas), o espírito da exposição no Batalha — aproximar filmes de poemas, e a linguagem do cinema à linguagem da poesia — pauta diversos volumes publicados em Portugal, entre os quais trago para esta conversa “O Desembarque das Ondas — Antologia para Ingmar Bergman” (Linha de Sombra, 2024), coordenado por Raquel Nobre Guerra.

Nada menos do que 72 convidados escrevem — em sua maioria poemas, mas também prosa — sobre filmes e o universo criativo do cineasta sueco.

Algumas colaboradoras do livro estão entre as participantes da exposição sobre o “feminino plural” no Batalha, como Catarina Santiago Costa (cujo poema, sem título, não cita diretamente nenhum filme de Bergman, mas apenas Pedro, ou Peter, nome de personagem que aparece em mais de um filme) e a curadora Regina Guimarães (“Honoris cauda do cometa — Notas sobre pais e portas”, em que faz referência, na ordem do poema, a “Morangos Silvestres”, “Mônika e o Desejo”, “Cenas de um Casamento” e “O Ovo da Serpente”).

Comecei com Regina Guimarães, prossigo com ela:

(…)
É estranho: Bergman tinha a sua ilha de Fårö
onde foi experimentador, mágico e mestre de cerimónia
e muitos de seus filmes lá se pensaram e fabricaram.
Mas, na verdade, o seu cinema,
que decididamente virou costas às grandes cidades,
 e feito de grandes planos e asfixias alucinantes
constrói ilhas inabitadas mas inevitavelmente habitadas
nas quais o poder do sonho se nos oferece
como ferramente única da arte de viver.
August Strindberg
e, mais coisa menos coisa,
Susan Sontag um século depois
escreveram a partir do cogito ergo sum cartesiano
“sonho logo existo”,
preceito que Bergman decerto subscreveria.
(…)

Para encerrar, poema de André Tecedeiro, “Uma Pera (A Partir de Persona)”:

Não é fácil descascar uma pera
olhando para um espelho.

Nem a pera tem o mesmo cheiro,
E pode bem ser uma pedra
rolando a medo entre a faca e a mão.

Dos primeiros golpes na pele sairão
penas imprecisas

Mas isso enquanto não nos escapa
a paciência,
porque depois serão lascas,

E por fim nacos
De carne
aflitos.

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