Em contos, romances e filmes, alguns personagens ganham dimensões mais robustas e tornam-se para nós esfinges que adoramos decifrar quando descobrimos que escondem um pequeno segredo por trás de um emprego comum e de uma vida pública que parece banal, como milhões de outras. Em “Paterson” (2016), de Jim Jarmusch, o pacato motorista de ónibus do título (Adam Driver — um caso involuntariamente irónico de ator com sobrenome que caracteriza a profissão do personagem) é também um poeta atento à lenta caminhada da existência e às epifanias que vivemos ou testemunhamos. Ele mora em uma cidade de New Jersey chamada… Paterson, como ele. E cultiva a obra de um antigo morador do lugar, o médico e escritor William Carlos Williams (1883-1963), que escreveu, de 1946 a 1961, uma extensa série de poemas para homenagear a cidade. A vida de um reverbera na vida do outro.
O Paterson criado por Jarmusch, Driver e pelo corroteirista Ron Padgett é parente de outra criatura cinematográfica recente, o Hirayama (Kôji Yakusho) de “Dias Perfeitos” (2023), de Wim Wenders, co-escrito por Takuma Takasaki. Hirayama trabalha na equipe de limpeza dos banheiros públicos de Tóquio. Como Paterson, sua rotina é espartana e cronometrada — tudo a seu tempo, no seu respectivo lugar. Sua casa espelha essas características: tem decoração minimalista, apenas com os objetos essenciais ao dia-a-dia, e as coisas — exceto no trancafiado andar de baixo, a sugerir que se faz necessária alguma válvula de escape para a obsessão pelo controle e que Hirayama tem uma vida guardada “debaixo do tapete” — habitam espaços rigidamente determinados para elas. Algumas dessas coisas dizem respeito à música, e não por acaso o título do filme cita a canção “Perfect Day”, consagrada por Lou Reed (1942-2013). Outras dessas coisas estão relacionadas às fotografias que Hirayama tira regularmente. É a sua maneira de buscar beleza e epifania no mundo, de registrar a passagem do tempo e a sua própria passagem pelo planeta.

A ligação às fotos aproxima o japonês Hirayama da norte-americana Vivian Maier. Saltamos, com ela, da ficção para a realidade: Maier (1926-2009) não foi personagem de romance ou filme. Existiu entre nós — e, por essas coincidências da vida, fragmentos possíveis de combinar na cronologia do acaso, talvez alguns de nós tenham mesmo passado por ela na rua ou dividido com ela algum espaço público, em Nova York (onde nasceu) e Chicago, as cidades em que mais viveu. Se alguém numa ocasião como essa nos apontasse Vivian, diríamos: ali vai, como Paterson e Hirayama, uma representante da classe trabalhadora. Se eu ou você disséssemos “olá!” e tivéssemos a indiscrição de perguntar a ela qual era a sua profissão, Vivian diria: sou criada, sou babá. Corte abrupto para 2026: de março a agosto, milhares de pessoas passaram por quatro salas do Centro Português de Fotografia (CPF), no Porto, para contemplar dezenas de fotos de Vivian, a criada e babá que tinha uma vida em segredo.
Um trecho do ensaio “Um Teto Todo Seu” (“A Room of One’s Own”, 1929), da inglesa Virginia Woolf (1882-1941), baseado em duas palestras que a escritora ministrou em escolas para mulheres da Universidade de Cambridge, foi selecionado para abrir, como espécie de epígrafe, o folder em forma de jornal tabloide, de quatro páginas, que acompanhava a exposição das fotos de Vivian no CPF:
“Pois todos os jantares estão cozinhados; os pratos e os copos, lavados; as crianças, enviadas para a escola e saídas para o mundo. De tudo isto nada permanece. Tudo desapareceu. Nenhuma biografia ou história tem uma palavra a dizer sobre isso.”
O parágrafo lembra o universo de “Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, 1080 Bruxelles” (1975), da belga Chantal Akerman (1950-2015), eleito em 2022, na enquete internacional realizada a cada 10 anos (desde 1952) pela revista “Sight & Sound”, do British Film Institute, o número 1 da lista de “melhores filmes de todos os tempos” — lugar antes ocupado por “Cidadão Kane” (1941), de Orson Welles, e depois por “Um Corpo que Cai” (1958), de Alfred Hitchcock. Por pouco mais de três horas, acompanhamos a rotina de uma mulher, Jeanne Dielman (Delphine Seyrig), que vive com o filho em um pequeno apartamento de Bruxelas — o título é o endereço. Cada uma das sequências esquadrinha suas tarefas domésticas durante três dias consecutivos. Na cozinha, por exemplo, a cortar batatas e a temperar bifes; na sala de jantar/estar, comendo as refeições com o filho e preparando o sofá-cama para que ele durma; na rua, fazendo compras. Quase todas as atividades são representadas em tempo real, em uma radiografia — que vai se tornando perturbadora — da vida como incessante repetição, até que deixa de ser.

Vivian Maier, que bem poderia ser personagem de Virginia Woolf ou de Chantal Akerman, era filha de mãe francesa e pai austríaco. Aos quatro anos, foi morar com a mãe (já separada do marido) na casa de uma fotógrafa profissional, a francesa Jeanne Betrand (1880-1957). Dois anos depois, mudaram-se para a casa da família materna em Saint-Julien-en-Champsaur, nos Alpes franceses. Vivian separou-se da mãe no início da década de 1940, quando voltou a Nova York para ajudar a cuidar do irmão (que saíra de uma instituição psiquiátrica) e passou a trabalhar em uma fábrica de bonecas e manequins. Ao retornar à França para vender uma propriedade da família, comprou suaprimeira câmera, uma Kodak Brownie. Em 1951, já estava de volta a Nova York. Começou a trabalhar como criada de famílias ricas e adquiriu, em 1952, uma máquina fotográfica Rolleiflex (para nós sempre seguida do verso “revelou-se a sua enorme ingratidão”, na voz de João Gilberto, em “Desafinado”). Até o final dos anos 1980, trabalhou para diferentes famílias e viajou com elas (para Cuba, Canadá e diversas regiões dos EUA). Durante as viagens e no tempo livre, fotografou. Sua vida tornou-se precária nos anos 1990. Com dificuldade para arrumar trabalho, diminuiu o ritmo das fotos. Para sobreviver, teve a ajuda de pessoas das quais havia sido babá.
Seus milhares de negativos foram depositados em caixas, armazenados e, em 2007, leiloados. Acidentalmente, descobriu-se a extensão e a qualidade do seu trabalho. Mas não a tempo de que fossem organizadas exposições ou publicados livros antes da morte de Vivian. O reconhecimento póstumo foi grandioso, típico de uma obra de ficção, como comprovaram as filas para ver a exposição de suas fotos, durante cinco meses, no CPF (instalado no prédio da antiga Cadeia da Relação do Porto, que funcionava como tribunal e prisão). As dezenas de fotos selecionadas (entre as estimadas 100 mil que foram descobertas) estavam distribuídas por seções que dão conta de seus principais interesses: “Cenas de rua”, “Infância”, “Formalismo”, “Retratos”, “Autorretratos” e “Fotografias a cores”, além de trechos de filmes em super-8. No conjunto, elas provocam uma sensação revigorante. Sua autora demonstrava um interesse desarmado pelo mundo e pelas pessoas, sobretudo as “comuns”, como a própria Vivian. Era capaz de flagrá-las em um momento especialmente expressivo ou de arrancar delas um olhar revelador. Ao caminhar pelas ruas de Chicago e de Nova York em busca desses instantes fugidios, foi também cronista visual dos EUA urbanos ao longo de décadas: as calçadas, as vitrines de lojas e os restaurantes, os cinemas; as roupas e os penteados; a suposta caminhada apressada para o (ou do) trabalho, e também o deambular; prédios que sobem, prédios demolidos. Os rastros de uma sociedade em transformação.

A sabedoria no uso dos enquadramentos, dos ângulos de câmera e da proximidade com os seus personagens era notável, mas funcional. Quem deveria sempre brilhar não era o talento da fotógrafa, mas a riqueza dos seres humanos diante dela. Em algumas imagens, aquelas da seção “Formalismo”, é bem verdade que se revela uma profissional também preocupada com a apreensão de linhas geométricas, de sombras e de contrastes, a brincar com as possibilidades estéticas do dispositivo. Seus autorretratos combinam as duas preocupações: o cuidado com os elementos de composição do quadro revelam-se na busca por superfícies reflexivas (vitrines e espelhos) que possibilitem a criação de imagens sugestivas, por vezes ambíguas, que nos levam a contemplar detidamente as fotos para compreender o que está em cena; e a atenção ao ser humano traduz-se na atenção ao registro dela mesma, talvez apenas para efeito lúdico, talvez intuindo, lá no fundo da sua modéstia, que um dia talvez alguém viesse a descobrir o seu trabalho e, com ele, as imagens da própria fotógrafa, completando o quebra-cabeças. Terminou por ser assim. Uma de suas fotos mais significativas é justamente um autorretrato com a Rolleiflex, na frente de uma vitrine, de vestido e chapéu que sugerem um pouco da sua personalidade como andarilha e fotógrafa de rua. O enquadramento permite, no entanto, que vejamos também prédios, carros e um homem de uniforme (mecânico ou entregador, talvez) atravessando a rua. A fotógrafa inserida no seu meio, o meio invadindo o momento autocentrado da fotógrafa.
Dia perfeito. Lou Reed:
“Just a perfect day Problems all left alone Weekenders on our own It’s such fun”
A insólita trajetória da criada e babá que era também fotógrafa foi objeto do documentário “À Procura de Vivian Maier” (2013), escrito e dirigido por John Maloof e Charlie Siskel, e indicado ao Oscar da categoria (vencido naquele ano por “Citizenfour”, de Laura Poitras, sobre Edward Snowden). Maloof foi quem comprou as caixas em que estavam depositados os negativos, mergulhou nelas e rapidamente constatou que tinha em mãos um tesouro. No filme, ele reconstitui o processo de descoberta e de sua divulgação na internet, que deu origem a inúmeras reportagens e artigos em diversos países, e às primeiras exposições. Conhecemos amigas de Vivian e pessoas de quem ela foi babá. Desses depoimentos, emergem os difusos contornos de uma pessoa reservada, fechada mesmo, que nada falava a respeito do volume de fotografias e de filmes amadores (em diversos formatos) que produziu. Fosse outra a combinação de fragmentos da cronologia do acaso que levou à preservação e à descoberta do material, tudo estaria destruído e jamais saberíamos quem ela foi. No fundo, continuamos sem saber. A aura de mistério torna o seu trabalho ainda mais forte e cativante.