O novo disco do Afghan Whigs, Soft Control, coloca a banda como uma das forças mais intensas, sombrias e elegantes do rock alternativo contemporâneo, funcionando como um verdadeiro espelho da era de ouro do grupo na década de 1990. Para o ouvinte de longa data, a experiência de ouvir o álbum traz um misto de nostalgia e relevância artística imediata, pois o grupo liderado por Greg Dulli consegue resgatar aquela atmosfera perigosa, noturna e intensamente emocional que parecia adormecida nos últimos discos da banda, após se reunirem novamente depois de um grande hiato. O disco não tenta reinventar a roda ou se adaptar desesperadamente às tendências pop modernas de produção; em vez disso, os músicos optam por mergulhar de cabeça na própria identidade que construíram no passado, entregando canções que exalam o mesmo suor, as mesmas dores e a mesma sofisticação musical de outrora. Essa coesão estética faz com que a audição flua de forma extremamente orgânica, parecendo um elo perdido ou uma continuação direta da trilogia clássica que definiu a fusão do rock independente com o drama da soul music, na tríade musícal composta por Gentleman (1993), a obra-prima da banda, o bom Black Love (1996) e, para mim, um dos mais perfeitos discos da década de 1990, o belo 1965 (1998). Soft Control, com apenas 36 minutos de duração, a obra se mantém direta e sem gorduras através de faixas poderosas como “Jungle Roux”, “House of I” e “Loose Talk”, culminando no desabafo existencial de seis minutos de “A Simulation”.

Essa semelhança com os pilares da discografia fica explícita quando analisamos a dinâmica de faixas como “The Deepest Part of the Darkest Shadow”, que carrega em seu DNA a melancolia arrastada e o piano melancólico que outrora consagraram hinos de término como “Faded”. A capacidade que Dulli possui de transformar o sofrimento amoroso e a obsessão em uma performance vocal quase teatral e desesperada é o grande motor que move este novo trabalho, ecoando diretamente a vulnerabilidade crua de Gentlemen, e o peso instrumental sufocante de Black Love. Embora parte da crítica especializada aponte que a mixagem é divisiva — deixando a bateria e o baixo muito destacados enquanto os vocais por vezes soam tímidos —, o álbum triunfa ao focar no clima de um fim de noite em um bar solitário, onde faixas como “77” misturam a abordagem de hino de rua à lá Bruce Springsteen com o soul eternos da Motown. É um trabalho que não apenas faz jus ao passado, mas se apoia firmemente nele para provar que a crueza emocional do Afghan Whigs é atemporal e que o amadurecimento dos músicos apenas refinou a capacidade de transformar o melodrama em pura arte de alta classe. É como uma onda de peso e riffs de guitarras tocadas graciosamente.
Para compreender a fundo essa genialidade de Greg Dulli, é fundamental analisar os caminhos paralelos que o músico trilhou quando a banda entrou em hiato na virada do milênio, dando vida ao The Twilight Singers no ano 2000. Se no Whigs as guitarras de rock alternativo davam as cartas, no Twilight Singers ele mergulhou de cabeça na música eletrônica minimalista, no trip-hop e em texturas de R&B contemporâneo, colaborando com uma rotatividade imensa de músicos e lançando discos aclamados como Blackberry Belle e Powder Burns. Essa verve colaborativa atingiu o ápice definitivo em 2003 com o nascimento do The Gutter Twins, uma parceria sombria e histórica com seu grande amigo e ícone do grunge, Mark Lanegan (ex-vocalista do Screaming Trees, já falecido). Juntos, Dulli e Lanegan — apelidados de “príncipes da escuridão” — lançaram o emblemático álbum Saturnalia em 2008 pela lendária gravadora Sub Pop, misturando o folk soturno e a voz cavernosa de Lanegan com o senso de melodrama e a guitarra suja de Dulli, criando uma simbiose perfeita sobre tentações, pecado e redenção que acabou por influenciar tardiamente o próprio DNA do Afghan Whigs em seu retorno.

Essa conexão com bandas de Seattle faz com que muitos associem o início do Afghan Whigs diretamente ao movimento grunge, já que a banda foi contratada pela Sub Pop no final dos anos 1980 e lançou discos seminais como Up in It (1990) e Congregation (1992) sob o mesmo teto que Nirvana, Soundgarden e Mudhoney. No entanto, embora dividissem a mesma época e o uso de guitarras pesadas e distorcidas, os Whigs se diferenciavam de seus contemporâneos por causa de suas raízes geográficas e musicais. Sendo originária de Cincinnati, Ohio — e não do isolamento chuvoso do Noroeste Pacífico —, a banda trazia em sua bagagem cultural uma forte influência da soul music, do funk e do catálogo clássico das gravadoras Motown e Stax. Enquanto o grunge de Seattle olhava para o punk rock, para o heavy metal dos anos 1970 e para o niilismo apático, Greg Dulli queria que sua banda soasse como um cruzamento perigoso entre o rock alternativo barulhento e o romantismo trágico de Marvin Gaye ou The Temptations, incorporando linhas de baixo altamente suingadas, pianos dramáticos e até mesmo releituras de hinos clássicos do R&B. Com efeito, essa característica da banda os fez chegar ao estrelato, mesmo brevemente, com hinos do rock alternatico como Debonair e Somethin’ Hot.

Outro fator crucial de diferenciação estava na abordagem lírica e na postura de palco de Greg Dulli, que contrastava fortemente com o arquétipo do anti-herói grunge típico daquela geração. Figuras como Kurt Cobain ou Eddie Vedder frequentemente expressavam angústia existencial, alienação social, traumas de infância e uma profunda aversão ao estrelato, subindo ao palco vestindo camisas de flanela xadrez e bermudas largas, em performances trágicas e cheias de angústia. Dulli, por outro lado, adotou a persona de um crooner lascivo de terno escuro, operando em um universo lírico focado em histórias confessionais de relacionamentos tóxicos, infidelidade, obsessão sexual, culpa e autodestruição em noitadas movidas a excessos. Em vez da apatia grunge, o Afghan Whigs oferecia um melodrama tenso e cinematográfico, onde o vocalista assumia o papel de um anti-herói de filme noir que reconhecia seus próprios pecados e fraquezas. Essa fusão única de peso instrumental com a sofisticação da black music americana fez com que eles fossem uma das bandas mais singulares de sua era, pavimentando o caminho para o som maduro que eles continuam refinando com maestria irretocável em Soft Control.
Soft Control é o The Afghan Whigs voltando à boa forma. Uma banda que atualmente não causa nenhum alvoroço e quase não é lembrada pelos fãs do rock alternativo. Muito devido a seriedade e equilíbrio com que a banda percorreu sua carreira. É um disco sólido de rock, que prova que o gênero neste ano de 2026, está voltando com força e vigor.