Rita Lee: Balada da Louca, dirigido por Beatriz Barros, é um espetáculo sintonizado com as escolhas da atriz Lilia Cabral no teatro, tanto no que diz respeito à valorização de textos brasileiros quanto à conexão com obras marcadas pelo humor. Essa nova montagem, em cartaz no Teatro Prio, não pertence exatamente ao terreno da comédia. Aborda o período final, bastante dramático, da trajetória de Rita Lee, que descobriu um câncer e mergulhou em tratamento sofrido e desgastante que não levou à cura da doença. Mas o texto de Guilherme Samora, adaptado da autobiografia da cantora (Rita Lee:Outra Autobiografia), e a interpretação de Lilia Cabral destacam a leveza (na medida do possível, claro) com que a artista lidou com a tragédia.

A Rita Lee dessa encenação evidencia aproximações (e afastamentos) em relação a figuras da ficção feitas anteriormente por Lilia. É uma mulher em processo de transformação – vale lembrar das transições atravessadas pelas personagens de Divã, de Marcelo Saback, Maria do Caritó, de Newton Moreno, e A Lista, de Gustavo Pinheiro –, mesmo que em fase terminal, confrontada com a própria finitude. Ela administra o cotidiano, apesar de ter cada vez menos controle sobre o dia a dia, condicionado às regras do tratamento que, aqui e ali, burla, a exemplo da determinação em manter contato com seus animais de estimação. Uma característica da artista que, destemida, se opôs ao mainstream e afirmou, com constância, a sua independência num mundo norteado por padrões comportamentais e estéticos.
Diferentemente dos aristocratas de O Baile de Máscaras – peça de Mauro Rasi que contou com Lilia Cabral no elenco –, fechados dentro de um apartamento, onde participavam de saborosas maratonas de filmes e óperas, Rita Lee estabeleceu resistência contra o opressivo e violento sistema político que imperou no Brasil durante décadas. Não por acaso, foi censurada com frequência na ditadura militar. Uma postura mais comprometida que a dos personagens de outro texto, Futuro do Pretérito, de Regiana Antonini, que conjugou as jornadas de casais com capítulos da história do país. Mas Rita Lee: Balada da Louca não ambiciona fornecer um amplo panorama do percurso da artista, e sim um recorte localizado, ainda que fatos importantes do passado da cantora sejam evocados no decorrer do relato.
Além dos tópicos temáticos, existem elos referentes a formatos de dramaturgia de encenações com a presença de Lilia Cabral. Como Feliz Ano Velho, montagem escorada em livro de Marcelo Rubens Paiva, e Divã, baseado em livro de Martha Medeiros, Rita Lee: Balada da Louca parte de uma obra literária. E mais uma vez como em Feliz Ano Velho, esse trabalho transporta para a cena um depoimento real sobre uma experiência de vida lancinante. Lilia Cabral também volta a enfrentar o risco do monólogo depois de Solteira, Casada, Viúva, Divorciada, montagem que surgiu da junção de textos curtos de Noemi Marinho, Luiz Arthur Nunes, Maria Adelaide Amaral e Regiana Antonini.

Mas há uma especificidade no registro de Lilia Cabral, que se coloca de maneira direta em Rita Lee: Balada da Louca. Em dado instante da apresentação, a atriz tira a peruca, elemento fundamental da caracterização. Lilia desconstrói a personagem Rita Lee e assume fala em primeira pessoa, mencionando a admiração artística pela cantora e o conflituoso convívio com o pai. A dramaturgia tangencia o confessional (proposta interessante), sem, contudo, desenvolver essa vertente. Nos demais momentos, a atriz, oscilando com habilidade entre a narração e a vivência dos acontecimentos, busca captar a personalidade irreverente de Rita Lee. Traz à memória a entonação de voz da artista, mas sem limitar a atuação a uma reprodução mimética. As passagens de composição mais sublinhada são aquelas em que Lilia desenha personagens circunstanciais, como uma das enfermeiras que procura fazer com que a cantora siga com absoluta disciplina os protocolos do tratamento.
O tom suave de Lilia Cabral combina com a concepção lúdica da cenografia de Pedro Levorin – perceptível nas cores das cadeiras, no móbile e nos instrumentos musicais (como o acordeom, utilizado para pontuar o movimento da respiração), objetos que remetem a um universo, em certo grau, infantil ou fantasioso. Um cenário afinado com a linguagem do espetáculo, mas não muito sedutor visualmente. O figurino de Walério Araujo acentua o perfil singelo e descontraído da encenação e a iluminação de Ana Luzia Molinari de Simoni realça, sem reiterar, os estágios emocionais de Rita Lee. Distante da estrutura do teatro musical – a cantora já foi homenageada num espetáculo do gênero, Rita Lee, uma Autobiografia Musical –, essa montagem inclui a música como componente sugestivo, acionado com alguma discrição por meio do acompanhamento sonoro e em eventuais cenas de canto (direção musical de Dani Nega).

Essas proposições fazem de Rita Lee: Balada da Louca uma montagem simpática, mas de temperatura morna. Beatriz Barros – que acumula a direção e a adaptação dramatúrgica – não chega a imprimir, nas duas funções, vigor autoral. Sem perder de vista as dificuldades impostas pelo monólogo e a responsabilidade de interpretar uma personagem real, o texto de Samora não parece desafiar particularmente Lilia Cabral. De qualquer modo, a atriz garante um resultado comunicativo, que tende a conquistar o público.
RITA LEE: BALADA DA LOUCA – Texto de Guilherme Samora. Direção de Beatriz Barros. Com Lilia Cabral. Teatro Prio (Av. Bartolomeu Mitre, 1110). Sex. e sáb., às 20h, dom., às 18h. Ingressos: R$ 150,00 e R$ 75,00 (meia-entrada). Temporada: 9/10/2026 a 15/11/2026.