sábado, 24 de outubro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
RUIDO DE FUNDO

Ride Lonesome, Beck

Um cavaleiro solitário que cruza fronteiras emocionais sabendo que a jornada humana é, em última análise, estritamente individual e cíclica
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NOTA DA CRÍTICA Conselho Editorial • Revista Lume
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O lançamento de Ride Lonesome (2026) consolida o que a posteridade certamente chamará de a “Trilogia da Tristeza” de Beck, um arco conceitual de desalento e autorreflexão que subverte a própria persona pública do artista e encerra uma investigação existencial iniciada há mais de duas décadas. Os três discos que compõe esse frupo de canções tristes e melancólicas são Sea Change (2022), Morning Phase (2024) e agora Ride Lonesome (2026).

Se no início de sua trajetória o músico se projetou como o bardo irônico do desbunde anti-folk em Mellow Gold (1994) e o colagista antropofágico de Odelay (1996), este novo trabalho funciona como o opus derradeiro de suas experimentações estéticas. Ao resgatar a densidade um tanto despojada que outrora definiu sua transição para a maturidade, Beck abdica dos ritmos sincopados e das rimas desconexas de sua juventude para abraçar um existencialismo estrito, fortemente ancorado na tristeza e na desolação.

A audição de Ride Lonesome evoca um sentimento de finitude intransigente, onde cada acorde de violão e cada silêncio prolongado parecem carregar o peso histórico de uma discografia que sempre oscilou entre a catarse festiva e o recolhimento mais absoluto.

Para compreender a força deste encerramento, faz-se necessário traçar uma genealogia desse luto que atravessa a carreira do compositor, fazendo um paralelo com os três discos da trilogia. O colapso sentimental de Sea Change (2002) estabeleceu as fundações de sua desolação moderna. Naquele início de século, o choque da ruptura afetiva baniu o sarcasmo lo-fi de Mutations (1998) e a psicodelia groove de Midnite Vultures (1999) em prol de uma crueza confessional quase insuportável, onde os arranjos de cordas lancinantes de David Campbell traduziam o esvaziamento imediato do “eu”. Doze anos mais tarde, Morning Phase(2014) revisitou esse mesmo território geográfico e espiritual, mas sob a ótica de uma melancolia estática e pastoral que emulava o esforço sísfico de carregar a dor montanha acima, encontrando na luz fraca do amanhecer uma aceitação bucólica que conversava diretamente com o folk californiano dos anos 1970.

Agora, em Ride Lonesome, o que testemunhamos não é mais o luto pelo outro ou a resignação diante do tempo, mas a dissolução completa do indivíduo na imensidão árida de sua própria solitude; o eco do pedal steel e os delays fantasmagóricos na guitarra operam como movimentos de uma ruína pessoal que já não busca cura, mas sim a emancipação poética através do isolamento.

Musicalmente e liricamente, o álbum atua como um espelho invertido de toda a efervescência pop que Beck destilou em registros como Colors (2017) ou Hyperspace (2019), transformando o apuro tecnológico de outrora em um minimalismo musical assombrado pelo deserto. Faixas monumentais como “Disappearing Act” e “In The Night” dialogam sutilmente com o lirismo crepuscular de Leonard Cohen e o misticismo acústico de David Crosby, enquanto a produção texturizada e contida de Nigel Godrich ancora a performance vocal de Beck em um registro grave, exausto e profundamente honesto, despido dos filtros e artifícios que mascaravam suas vulnerabilidades no passado.

Ao evocar a atmosfera dos faroestes psicológicos de Budd Boetticher, que emprestam o título à obra, o compositor se assume como o cavaleiro solitário que cruza fronteiras emocionais sabendo que a jornada humana é, em última análise, estritamente individual e cíclica. Ride Lonesome encerra a trilogia não com o desespero de quem perdeu tudo, mas com a sabedoria altiva de quem compreendeu que a solidão não é uma punição imposta pelas circunstâncias da vida, mas sim a única realidade e a maior das liberdades possíveis.

Beck. Foto: Mikai Karl

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