Estabelecer uma comissão de seleção fora dos gabinetes do governo federal foi uma decisão justa e bem-vinda. Antes de 2017, quando a Academia Brasileira de Cinema passou a participar da indicação do representante brasileiro no Oscar, esse processo era organizado pela Secretaria do Audiovisual, órgão ligado ao Ministério da Cultura, o que poderia sugerir censura ou privilégio, de acordo com a abordagem política dos filmes.
O grande estopim dessa mudança foi a escolha, em 2016, de “Pequeno Segredo”, em detrimento do premiado e celebrado “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho. Quando a produção pernambucana foi exibida no Festival de Cannes daquele ano, a equipe parou no tapete vermelho, antes da exibição no Palais des Festivals, e abriu cartazes que alertavam para o golpe realizado no Brasil, com o impeachment de Dilma Rousseff.
Quando a comissão foi anunciada, meses depois, um dos integrantes era um crítico que teria atacado, com um viés político, a manifestação ocorrida em Cannes. Não sei se há alguma relação com esse episódio (não deveria ter), mas o fato é que os críticos de cinema passaram a ter um papel diminuto na comissão, com a indicação de pouquíssimos nomes à frente da atividade no Brasil, geralmente não se vendo mais do que um representante.
E não estamos falando de uma comissão de três ou cinco participantes. No time que realizou a seleção do cearense “Feito Pipa”, de Allan Deberton, estavam 14 pessoas. Seis delas foram apresentadas pela Academia como produtores, sendo uma escolhida como presidente da comissão. Três são diretores. Fechando o grupo, dois atores, um distribuidor, um músico e uma curadora. Nenhum crítico de cinema entre eles.
Há uma desproporção muito grande que parte de uma ideia antiga de que o produtor é, na hierarquia do cinema, a peça essencial de tudo. Uma imagem que perdura até hoje, por mais que ter um celular na mão e acesso a uma rede social possam bastar para fazer e lançar um filme. Parece prevalecer ainda aquela imagem do produtor de smoking e charuto, como o Howard Hughes visto no filme “O Aviador”.
Mais: o produtor seria aquela pessoa que entende com olhar clínico o funcionamento do mercado, sabe tudo e conhece a todos. Mas será esse o papel único de quem está numa comissão de filmes? Na minha percepção, o crítico de cinema é quem juntaria todas essas pontas de uma produção cinematográfica e teria condições de assumir a função de “passador de cultura”, como definiria Serge Daney.
Para um dos mais importantes e influentes críticos e teóricos de cinema da França, considerado por muitos o herdeiro intelectual de André Bazin, esse profissional (sempre importante reforçar essa palavra) é “responsável por contextualizar o filme no tempo histórico e social em que foi feito”. Ele é quem mede um esforço que pouca gente nota, abraçando análises que se dirigem aos campos filosóficos e estéticos.
Não faz sentido não ter um profissional da atividade crítica na comissão a não ser por uma visão depreciativa e deturpada, de que o profissional não estaria diretamente ligado à cadeia produtiva. E que bom que não está, eliminando qualquer risco de favores a amigos, menos sujeito à teoria dos seis graus de separação – talvez um diretor possa ter trabalhado com o ator de um dos concorrentes. Diria até que é mais do que um “talvez”.
Uma boa desculpa, poderia dizer alguém, é que a seleção reflete o processo do Oscar, em que não há críticos entre os votantes, com a indicação e a premiação sendo feitas por seus “pares”. Mas a comissão brasileira, é bom lembrar, também elege o representante no Goya, considerado o Oscar espanhol. Neste, diferentemente do prêmio hollywoodiano, a Academia que o realiza permite a associação de críticos de cinema.

Sei que a Academia Brasileira de Cinema é uma das poucas no mundo que têm críticos entre os sócios, e louvo bastante essa atitude, permitindo que possam votar no Prêmio do Cinema Brasileiro (nosso Oscar), compreendendo assim que a fronteira entre crítica e criação é historicamente uma via de mão dupla. Mas essa participação tem que se refletir em todas as suas atividades.
Por fim, é importante reforçar a ideia de um parecer técnico e independente que a participação de críticos pode oferecer a essas comissões. A Academia francesa não tem críticos entre os seus associados, mas faz questão de incluí-los no processo de escolha para o Oscar. Em 2024, a comissão francesa que indicou “Emilia Pérez” foi dirigida por Charles Tesson, vice-presidente do Sindicato dos Críticos de Cinema da França.