sábado, 19 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
ENTREVISTA

Chico Diaz, a entrevista

A entrevista da semana da Revista Lume
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Há atores que habitam personagens; há outros, raríssimos, que transformam a própria carne em uma geografia poética do espírito humano. Chico Diaz pertence a essa segunda estirpe. Nascido no México e moldado por andanças latino-americanas, Diaz ergueu no Brasil um dos percursos mais importantes do nosso tempo no campo das artes. Sua formação em Arquitetura e Urbanismo não é um detalhe biográfico menor; ela se traduz no rigor com que ele desenha o espaço cênico e na precisão cirúrgica de sua presença, seja sob os refletores implacáveis do teatro ou diante do olhar íntimo das câmeras de cinema.

No cinema, onde acumula mais de 80 produções nacionais e internacionais, Chico Diaz consolidou-se como a espinha dorsal de um audiovisual que recusa o óbvio e o puramente comercial. Sua filmografia é um mapa das fraturas e das belezas ibero-americanas. Transita com a mesma propriedade pelo misticismo histórico e brutal de clássicos como Corisco e Dadá e Os Matadores até a urgência contemporânea de obras premiadas como Noites Alienígenas e o drama existencial e político de Homem Onça. Sua atuação internacional também ganhou contornos históricos ao dar vida à complexidade poética de Fernando Pessoa em O Ano da Morte de Ricardo Reis, sob a direção de João Botelho, e ao mergulhar no denso universo das artes plásticas em Vermelho Monet.

Já o teatro surge na vida de Diaz como o território sagrado do risco, da palavra e do despojamento absoluto. É nos palcos que ele opera seus voos mais radicais. Prova disso é a sua histórica reinvenção de clássicos — como o colosso trágico que ergueu em Rei Lear, em Portugal —, além de seu aclamado e longevo monólogo A Lua vem da Ásia. Na pele do narrador delirante da obra surrealista de Campos de Carvalho, Diaz transforma o palco em um limite tênue entre a sanidade e o delírio, usando o teatro como um “gigantesco grito lançado sobre a vulgar balbúrdia cotidiana”.

Nesta entrevista exclusiva para a Revista Lume, o ator nos convida a desbravar o laboratório de sua criação intelectual. Longe das fórmulas fáceis do entretenimento, ele reflete sobre o ofício do ator como uma trincheira política de resistência e humanidade, a indissociável relação entre estética e ética, e a eterna busca por uma arte que não apenas entretenha, mas que devolva ao espectador a urgência de compreender a sua própria realidade. 

Frederico Machado: Chico, você mencionou recentemente que o ator precisa cavar um buraco profundo e criar uma “caverna preciosa” dentro de si para fazer ressoar as dores e a ancestralidade coletiva. Como é o processo diário de escavação desse imaginário para dar vida a figuras tão viscerais, sem se deixar soterrar por elas?

Chico Diaz: Soterrar elas nunca soterrariam pois elas não se pertencem ,pertencem a mim como criador …elas não existem, são fantasmagórias impregnadas em um suporte, como tinta na tela, na telinha, e na telona que é a sensibilidade do público, na cabeça ou coração do espectador, ali sim, elas reinam. Mas voltando ao início da pergunta: na verdade tudo parte ou acho que parte, veja bem, (eu não sei de nada …), da observação e das experiências vividas, do desejo de significado, de significação e da procura daquilo que é mistério coletivo, ou seja daquilo que se torna símbolo ou signo transformador ao alcance de todos. Acho mesmo que a arte tem o desejo de reconfigurar, provocar, desestruturar para então depois reestruturar, não só representar mas re-significar, interpretar, que são conceitos diferentes. Podermos estar ali na fogueira, em corpo e espirito, para emitir sinais aos nossos semelhantes é uma bela missão. Acho que existe também uma licença para bem olhar, bem observar o mundo e tentar ver o que há por trás de tanta beleza ou de tanta miséria, não é? Atentar às relações, às injustiças, à desigualdade, ao abandono, ao fim de toda uma humanidade possível.

Frederico Machado: Sua filmografia no cinema nacional ultrapassa os 80 títulos e você já rodou o país inteiro filmando. Do mítico e furioso Corisco em Corisco & Dadá (1996) até o Pedro em Homem Onça (2021) ou os dramas de Noites Alienígenas (2022/2023), o que o cinema te revelou sobre a identidade profunda do povo brasileiro que a sociologia não conseguiu explicar?

Chico Diaz: A sociologia explica, nós artistas vivemos a prática, expomos na musculatura do espírito, as questões do nosso povo e do nosso tempo, fazendo o devido corte para uma identificação e posterior reflexão. Acho que o segredo ou pelo menos para mim, o desafio está nesse corte, a qualidade e o teor desse corte. Dali do universo proposto, saber escolher o que se mostra e o que se esconde. Tentar revelar o que se esconde, reconfigurar o mundo na cabeça e coração do espectador. Mas, sim, o cinema me mostrou muito, levando-me para todas essas geografias, que em cada homem existe uma divindade plena, cercada de beleza em sua luta e busca de entendimento perante o mistério, né? Esse ofício é uma benção.

Frederico Machado: Muitas pessoas juram que você é nordestino, embora tenha nascido na Cidade do México e crescido no Rio de Janeiro. Essa sua capacidade de “corporificar” o sertão e o interior do país é fruto de uma observação puramente técnica ou há uma conexão mística com a terra que te acolheu?

Chico Diaz: Ah! Isso é bonito sim! Há uma indagação constante nos acompanhando, é uma conexão mística sem dúvida e um oferecimento e disponibilidade também. Curiosidade e muito amor pelo semelhante. Não sei de nada, não me apropriei de nada, nem me apeguei a nada, vivo desesperadamente, satisfatoriamente, poeticamente, criando asas a medida que caio, criando asas a medidas que voo. Não me apropriei de teorias nem acumulei conhecimento. Confesso que liguei pontos, decodifiquei sinais, inventei códigos, acreditei neles como se  fossem reais e assim dei-lhes vida e acabaram que se tornaram reais. É curioso. Mas claro, também não é assim um processo meramente intuitivo: há uma disciplina, sim, na procura das devidas ferramentas para a mencionada “escavação”, há camadas que se sobrepõe, há vazios que devem ser considerados, tudo se dá no outro. Silêncios que dizem muito.

Frederico Machado: Sua base teatral vem do icônico grupo Manhas e Manias nos anos 80, calcado na linguagem do circo e da dramaturgia lúdica. Como essa liberdade e o improviso do teatro de grupo moldaram o ator rigoroso que depois conquistou as telas de cinema e televisão?

Chico Diaz: O”Manhas e Manias” foi uma escola. Rapaz…as exigências e os desafios vieram me formando a cada processo, uma experiência e um aprendizado. Liberdade sempre desejada mas nem sempre real, mas como filho de um grande educador e comunicador tive algumas chaves para acessar o espectro humano. Há uma utopia ai, ao  pensar e querer que o ator tenha sim uma grande responsabilidade em seu ofício, ao representar para este povo deste pais enorme e tão desassistido …tornar se um representante dele…não é ? Que predicados seriam necessários para bem servir? Mas confesso também que existe uma grande disciplina no estudo e na composição da partitura, na aproximação do personagem…Estudos ,camadas ,relações, curcas emotivas, nitidez dos conflitos, como expressa-los,. etc.. etc…

Frederico Machado: Você declarou que parte importante do crescimento de um artista envolve saber “dizer não” a certos papéis para expandir seu espectro e não ficar aprisionado em estereótipos. Em um mercado muitas vezes conservador, como foi bancar o preço ético e artístico desses limites?

Chico Diaz: Ah.. isso foi o mais importante, pois requer coerência e atenção, não é ? E é daí que se cria a musculatura para enfrentar as pegadinhas, surpresas, seduções, tentações e enganos da carreira. Não que eu não tenha me enganado, claro que sim, dei voltas à toa, abismado mas na solidão, e entre tantos nãos e tantos sims, na perplexidade, encontrei uma linguagem, uma Personalidade …difícil não nego, para o mercado, para o “star system”, mas é o preço e, olha, acabou sim, por me libertar . É o preço, existe também uma sensação de não pertencimento, não adequação, que por sua vez tanto tem a ver com os personagens que vivo, nao é? Acho que uma obra se faz a longo prazo e é o tipo de escolha que te define. As opções feitas durante a vida é que esculpem ou lapidam das vida á trajetória.

Frederico Machado: Além dos palcos e das telas, você desenvolve um trabalho consistente com a pintura e as artes plásticas, tendo inclusive exposto na Europa. A tela em branco e as tintas dialogam com o ator no sentido de preencher o silêncio, ou a pintura é o único lugar onde você não precisa emprestar seu corpo para outra voz existir?

Chico Diaz: Olha, esse é um outro assunto, ainda na área da artesania, mas é um outro campo apesar de semelhante e complementar. Tenho me dedicado a pintura e ao desenho pois são formas de diluir o tempo e me permitir diálogo com o desconhecido e com o inesperado .É interessante ver o inconsciente se manifestar, entre riscos e manchas. Gosto dessa elaboração lenta, solitária e silenciosa meio que em vão, sem intenções imediatas, em um diálogo com a superfície branca ou negra que no fundo sou eu mesmo. Há um diálogo ali muito interessante; claro depois começam as exigências, os desafios, as influências, a observação, as técnicas de representação. Não empresto só o meu corpo físico, mas sim ,também, o misterioso.

Frederico Machado: Você teve a oportunidade extraordinária de filmar em Portugal vivendo Ricardo Reis, o heterônimo de Fernando Pessoa, sob a direção de João Botelho. Como foi a experiência de cruzar o Atlântico para interpretar um ícone literário e ser “alçado a uma condição poética”, algo que você mesmo notou ser raro no mercado brasileiro?

Chico Diaz: Considero esse filme e essa experiência como um dos pontos altos de minha carreira, sem dúvida. Poder viver um heteronimo do Pessoa, em uma equação linda feita pelo Saramago, me deram ferramentas para alçar voo e sou muito agradecido por isso. Adentrar em instância poética em um personagem que por sua condição de heteronimo, não existia, não é? Em diálogos lindos com o próprio Fernando Pessoa, que por sua vez acabara de falecer, então na verdade, para discutir o ano de 1935 que é o grande personagem do livro quando os totalitarismos europeus emergiam, o Saramago inventa essa questão: um personagem que acabara de falecer em diálogo com um personagem inventado por ele que nunca existiu e que era ele mesmo!! Fascinante…Pena que pouquíssimas pessoas no Brasil assistiram o filme .E claro também agradecido porque pude sair do estereotipo a que tentam nos sujeitar e pude alcançar linguagem poética e mais elevada.

Frederico Machado: Recentemente, você trouxe uma reflexão contundente sobre o tempo: defendeu que a realização humana não deve ser resumida a trabalho e dinheiro, afirmando que “o tempo é uma fortuna que não deveria ser vendida”. Como o artista Chico Diaz tenta proteger o próprio tempo para criar, contemplar e viver em um mundo hiperconectado?

Chico Diaz: Acho que a minha única fortuna é o tempo que tenho, fora os meus filhos, claro, e nesse sentido. pinto, desenho, ensaio, viajo. Tenho tentado me permitir alcançar outras paisagens e outras pessoas. Fazer nada é muito bom, sair da correria é bom. O mundo moderno parece que nos impõe uma corrida maluca para definir vencedores, o que nos escraviza na tentativa de estar sempre lá, em algum lugar que não sabemos bem onde é, nem o que é… Muitas vãs ilusões na tentativa de ser livre, não é?

Frederico Machado: Sem dúvida, Chico. Quais são os sonhos que ainda movem o Chico Diaz hoje? Pensando tanto no micro (um personagem que ainda quer criar, uma pintura que deseja fazer) quanto no macro (seus desejos para o futuro social e cultural do Brasil)?

Chico Diaz: Gostaria de me mudar, tenho essa ânsia da busca …não sei bem se fujo ou se procuro, se busco …Brinco que sou lá de “Busca-fuga”, cidadezinha imaginaria no umbigo da America Latina. Gostaria de pousar em uma casa à beira mar. Fazer teatro todos os anos também é um caminho, o encontro em cena é de uma potência ímpar e ali mantemos a nossa autoralidade… poder sempre me colocar, ali, onde possa ser revelada alguma substância do humano, em confronto, em conflito ou oração, me parece um bom caminho. Refletir em todos os sentidos da palavra… Ah! E como desejo e sonho… ver Lula ser eleito e que a democracia mantenha nesse país… e que a lucidez invada a consciência desse povo.

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