segunda-feira, 3 de agosto de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
CONTOS E POESIA

A pianista, um conto de Carina Bacelar

O conto inédito da semana da Revista Lume.

Ninguém mais pisando no mármore daquele saguão quase vazio do centro cultural parecia se importar com o piano. Então Ana avançou, puxou a banqueta sentindo o afago do veludo entre os dedos, e contemplou as teclas que pareciam ter sido limpas há meia hora. Esperou duas respirações profundas antes de deitar o dedo reverente em mi bemol. E depois dó menor. Mi bemol de novo, dó menor, lá bemol. Os dedos foram ganhando confiança na melodia, e Ana, com o rosto endurecido das alegrias raras, nem reparou no homem parado ao lado do piano. Seus olhares cruzaram rápido, o homem era lindo mesmo fatiado pela rapidez, mesmo borrado pelas próximas notas a tocar, mas reparou que ele era alto, meio grisalho. Ana avançou na melodia até ouvir ali uma nota que não passou por ela, e depois outra: sentiu o entorno menos gélido, olhou de novo para o lado e lá estava o homem, enganchando sua beleza na música, dedos ágeis no piano e um sorriso rápido no rosto anguloso. Seu perfume bambeou Ana, que teve vontade de torcer as mãos e gritar agudo por tudo aquilo, a sucessão das coisas: um piano disponível, minimamente afinado, a memória íntegra das lições da escola de música, e aquela conjunção com o homem na melodia, o tocar do homem no arranjo que era dela, mais alguém que sabia isso que ela sabia, isso que embaralha e torce o fôlego e que se aprende com a pele em estado de cristais: tudo na vida de Ana agora reluzia. Quando voltou a olhar para o lado, um grupo de três pessoas acompanhava vidrado, uma mulher com a mão esquerda cobrindo a boca, olhos melados. Ana sentiu o corpo espichar em um arrepio, e continuou. De repente ouviu mais combinações de notas dentro da melodia: eram duas daquelas três pessoas que se juntaram à música, à sua música, à paixão que emanava da sua lembrança. E seguiu. Quando uma quarta pessoa se juntou, ela só percebeu pela respiração densa soprando no seu pescoço, não exatamente pelas notas que se emparelharam à música, mas libertou os dentes numa alegria plena e teve vontade de chorar com aquela alquimia, aquela alquimia que vinha dela, o talento, o desejo pianista desde menina envolvendo as cinco pessoas que a testemunhavam em uma espécie de laço mágico. Pensou na professora Cristina, que tanto insistiu para garantir sua bolsa de estudos na École, pensou em terminar de tocar aquela música e ligar para ela e dizer: eu voltei, professora, eu nunca fui. Contar que largar tudo para trabalhar e se manter era um hiato na magia, mas não o fim dela. O tempo tinha marinado tudo o que estava lá dentro, esse rochedo intransponível e tão brilhoso quanto o mármore que cobria o chão gelado daquele centro cultural, talvez gelado antes de estar calor demais com aquela energia percorrendo os corpos ao piano e a décima pessoa se juntando à trupe, o compasso se desdobrando em arranjos feito folhas verdes e vibrantes, a vida se mutiplicando ao redor de Ana e das quinze pessoas que tocavam juntas dentro de sua música, sua arte acordada para nunca mais dormir, acordada para nunca mais desaparecer como desapareciam as teclas do piano entre as mãos da vigésima primeira pessoa, entre o vendaval alegre de bufadas da vigésima segunda pessoa empurrando o rosto de Ana, e quando não havia mais piano para um único dedo alegre a mais, sentiu vibrar de verdade algo dentro dela, no meio de suas pernas, uma vertigem, um pulo no penhasco, e continuou febril e firme em suas duas notas, febril e firme, Ana suava frio e mais dois dedos passaram a tocar dentro dela e a deixar o penhasco cada vez mais apertado, aquilo tudo cada vez menos inebriado e mais forçoso, mas seguiu empenhada naquela música que era dela, naquela música cujas notas iniciais nem escutava mais, cuja feição em sons já nem conseguia tatear, mas sabia que se todos escalavam a montanha estavam encantados por ela, uma pianista-feiticeira, estavam todos em comunhão bebendo e brindando embriagados o seu irrefutável talento, e quando dois dedos que ela não fazia ideia de onde vieram começaram a tocar nos seus dentes da frente, ela sentiu algum desconforto em respirar, mas não tanto quanto o torpor que os dedos grossos deixavam ao pressionar com força o seu pescoço, por cada vez mais tempo, e cada vez mais dedos, a tontura era tanta e tão inebriante que mesmo em meio às cócegas que sentia com as outras dezenas de mãos tocando suas coxas, a cartilagem das narinas e até a parte detrás de suas orelhas, ela nem reagiu, ela nem conseguia respirar quando sentiu em êxtase o brilho do mármore sair do chão e tomar o saguão todo, permanecendo mesmo dentro de suas pálpebras fechadas e dedilhadas, a faiscar luzes moles entre a escuridão de onde saía sua música, a sua música única, magistral, diluída em todos os pedaços possíveis de mundo, tamanha a grandeza da música, e talvez por isso, agora inaudível, talvez por isso inseparável, indissociável, e, acima de tudo, imortal.

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