quarta-feira, 4 de novembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
MOSTRA DE SP

O Outro Lado das Redes, de Aaron Sorkin

Drama sobre as entranhas do Facebook é um suspense eficiente que ilumina o poder nefasto das big techs.
WhatsApp

Intencionalmente ou não, o timing foi perfeito: O Outro Lado das Redes foi exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e entrou imediatamente em cartaz no Brasil no momento em que o país vivia uma virada popular histórica contra inimigos poderosos, entre eles a Meta. Agora está claro: a empresa de Mark Zuckerberg, dona do Facebook, do Instagram e do Whatsapp, fez de tudo para prejudicar a campanha de Lula e beneficiar a de seu opositor, hoje foragido nos EUA.

Dito isso, há que reconhecer que o filme de Aaron Sorkin está longe de ser uma obra-prima ou de trazer uma contribuição relevante para a arte do cinema. Trata-se de um drama de suspense bastante convencional, baseado na série de reportagens que rendeu ao jornalista Jeff Horwitz (Jeremy Allen White), do Wall Street Journal, o Prêmio Pulitzer de jornalismo.

Assim como aconteceu na “vida real”, no filme Horwitz conta como principal fonte de informações a jovem engenheira de dados Frances Haugen (Mikey Madison), que trabalha no Facebook e, embora adore a empresa, começa a perceber o desvirtuamento da ideia inicial da rede (conectar pessoas) e sua transformação numa máquina de produção de ódio e extremismo.

A partir do momento em que Horwitz e Frances se entendem e formam uma dupla, o filme entra na senda clássica hollyoodiana da luta de Davi contra Golias, ou do indivíduo íntegro contra o sistema corrompido, em defesa dos valores supostamente norte-americanos da decência e da liberdade. Não por acaso, um dos cineastas mais citados nas conversas entre os dois protagonistas é Frank Capra, o paradigma máximo dessa vertente do cinema.

Como em todo drama edificante, é preciso que haja um antagonista forte – um vilão, em suma –, que neste caso não poderia ser outro senão o todo-poderoso Mark Zuckerberg (Jeremy Strong), construído no filme como uma figura sinistra, misto de robô, E.T. e Joseph Goebbels. Ao que parece, ele é assim mesmo, e o filme reforça essa sua natureza inumana por meio de uma cenografia e uma iluminação sombrias na maior parte de suas aparições.

Um dos pontos fortes do filme, aliás, é a preparação de Zuckerberg por sua equipe para a sessão de interrogatório que terá que enfrentar no Congresso. Tudo ali é calculado em minúcias: as palavras que ele deve usar, a postura, o tom de voz, os gestos: a política como um teatro. Se nada de braçada no seu meio (o virtual), ele tem que aprender a representar um papel no mundo real.

O resto é a progressão habitual desse tipo de narrativa, com todos os códigos e clichês do gênero, dos respiros pontuais de humor à música enfática e indutora, da introdução eficaz de imagens documentais aos momentos de dúvida e solidão dos protagonistas, tudo confluindo para a harmonia do par central e o final catártico.

Ou seja, nada que fuja muito do padrão que Aaron Sorkin já mostrou dominar em obras anteriores, como diretor (A Grande Jogada, Os Sete de Chicago, Apresentando os Ricardos) ou como roteirista (Jogos do Poder, Questão de Honra, A Rede Social, O Homem que Mudou o Jogo). Em poucas palavras, cinemão norte-americano eficiente e sintonizado com o pulso de seu tempo. É, basicamente, cinema de roteiro, concebido como ilustração audiovisual de uma história já existente – no caso, a série de reportagens de Horwitz e seus bastidores. 

Uma última observação: o título original, The Social Reckoning, pode ser traduzido como O Acerto de Contas Social. Mas, pelo que temos visto, esse acerto ainda não chegou: a Meta está mais poderosa (e perigosa) do que nunca.

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