quinta-feira, 22 de outubro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
MOSTRA DE SP

Romênia em toda parte

Três filmes de diretores romenos ambientados em três países diferentes abordam com vigor e originalidade temas como imigração e xenofobia por meio de histórias densamente humanas.
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Que o cinema romeno é hoje um dos mais fortes e originais do mundo ninguém duvida. Três filmes de diretores romenos exibidos na 50ª Mostra Internacional de Cinema são a comprovação cabal disso. Curiosamente, só um deles – Aqui Não É o Seu Lugar, de Florin Serban – se passa na própria Romênia. Fjord, de Cristian Mungiu, é ambientado na Noruega; O Diário de uma Camareira, de Radu Jude, na França. Todos os três, de formas diversas, tocam as questões candentes da imigração e da xenofobia.

Em Aqui Não É o Seu Lugar o nacionalismo xenófobo está presente desde o título. Na pequena cidade industrial de Resita, na Romênia, um grupo de jovens extremistas vandaliza carros e casas da minoria cigana local. Esse problema social se entrelaça com um drama familiar quando Marius (Adrian Vancica), respeitável médico e diretor de hospital, descobre que seu filho adolescente Ioan (Teodor Butanesco) está envolvido na gangue.

Não se trata, porém, de uma imigração recente: os ciganos estão presentes na Romênia há vários séculos. O problema, ao que parece, são os ciganos que ascenderam à classe média, disputando empregos com os romenos europeizados há mais tempo. Não por acaso o principal alvo dos vândalos são os automóveis das vítimas.

O tema da migração aparece, na direção oposta, numa reunião de ex-colegas de colégio da qual Marius participa. Vários deles estudaram ou trabalharam no exterior, e alguns ainda vivem fora do país. Mas o foco central da narrativa é a relação espinhosa entre pai e filho, que parecem desconhecer um ao outro embora vivam sob o mesmo teto. Duas gerações, dois mundos, duas ordens de valores. A investigação policial, o contexto político, tudo remete de alguma forma a esse eixo dramático central.

O final poético e um tanto enigmático tem dividido opiniões entre críticos e espectadores, mas é talvez o que melhor amarra e dá sentido ao conjunto.

Fjord, por sua vez, retrata uma família recém-chegada da Romênia a um vilarejo à beira de um esplêndido fiorde. O romeno Mihai Gheorghiu (Sebastian Stan, irreconhecível) e sua esposa norueguesa Lisbet (Renate Reinsve) têm cinco filhos: dois adolescentes, duas crianças e um bebê.

Num ambiente bucólico e pitoresco, que parece saído de uma foto de calendário, os problemas começam quando a educação estritamente religiosa dos filhos adolescentes entra em choque com a laicidade radical do estado e da educação noruegueses. Pelos preceitos de sua seita neopentecostal, os jovens Gheorghiu não podem ter celular, nem ver TV, têm que rezar antes das refeições e de dormir, etc. 

A adolescente Elia (Vanessa Ceban) aparece na escola com hematomas no braço e no ombro e, por conta disso, instaura-se um processo contra os pais, suspeitos de maus-tratos, ainda que não haja nenhuma prova. No processo kafkiano que se instaura, ficamos sabendo que na Noruega até mesmo uns tapas na bunda podem causar a retirada dos filhos da guarda dos pais e condenar estes últimos à prisão. Fica clara, também, uma prevenção contra povos como o romeno, vistos como ainda imersos nas trevas da religião.

Em meio aos conflitos culturais-religiosos que abalam a família e sua relação com o vilarejo, afloram as pulsões adolescentes e o desejo de liberdade de Elia e de seu irmão Emmanuel (Jonathan Ciprian Breazu), seduzidos e encantados pela rebelde vizinha Noora (Henrikke Lund-Olsen). Sobretudo o vínculo que se estabelece entre Elia e Noora, sublinhado na linda cena final, aposta no amor contra as muitas formas de intolerância e opressão.

E chegamos, por fim, a O Diário de uma Camareira, de Radu Jude. Em vista da obra pregressa do cineasta, em que despontam filmes estética e politicamente subversivos como Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental e Não Espere Muito do Fim do Mundo, seu novo longa-metragem pode parecer mais contido, quase convencional. Mas em sua versão do romance de Octave Mirbeau (publicado em 1900) está presente, ainda que de maneira menos estridente, a veia satírica e iconoclasta do diretor.

Para começar, Jude atualiza e adensa a trama do livro original (já adaptado por Buñuel em 1964) ao tornar protagonista a romena Gianina (Ana Dumitrascu), que trabalha como doméstica e babá numa casa de burgueses ilustrados em Bordeaux, na França.

Ao mesmo tempo em que se esfalfa no serviço doméstico para juntar dinheiro e reencontrar na Romênia a filhinha, que mora com a avó, Gianina atua como atriz amadora numa encenação universitária do romance de Mirbeau, por indicação da patroa benevolente e “progressista”.

Por meio desse dispositivo narrativo simples e sagaz, Jude estabelece um jogo de espelhos entre o texto decadentista de Mirbau (e indiretamente, o filme de Buñuel) e a realidade atual, em que o capitalismo avançado implica novas formas de exploração do trabalho, e em que a imigração exerce um papel fundamental.

Esse jogo se condensa também na dupla relação de Gianina com sua filha (via videochamadas), a quem acena com as maravilhas do consumo, e com o filho dos patrões, a quem conta histórias da tradição oral romena, para eventual alarme dos pais do menino.

Em suma, três filmes que, cada um à sua maneira, encaram questões cruciais de nossa época, como migração, identidade, trocas culturais e relações socioeconômicas transnacionais. Tudo isso plasmado em histórias profundamente humanas. Não é pouco.

Faltou dizer que Fjord ganhou a Palma de Ouro em Cannes e Aqui Não É o Seu Lugar conquistou o Leopardo de Ouro em Locarno.    

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