“Se tudo pode acontecer, se pode acontecer qualquer coisa…”, a música vazava pela janela do terceiro andar do edifício vermelho carmim, “um deserto aparecer, uma nuvem suja chover”, o prédio de 1866 tem mais outras onze janelas distribuídas em seus quatro andares, “um relâmpago na escuridão”, mas apesar de ser very cool morar no Greenwich Village, Judy se sentia habitando a janela do edifício mais afastado em um plano geral do Bronx de Will Eisner, “um cometa vir ao chão”, um prédio idêntico aos dos seus vizinhos. E ela, uma criatura invisível.
A ampla janela do apartamento histórico – com pé direito alto e piso de madeira! –, que a princípio tinha lhe causado tanto furor, estava com a vedação corrompida naquele frio de lascar. E dela, junto com a música, “eu quero que você se foda a vida inteira!”, saía a fumaceira do bife que Judy fritava na chapa quente do inverno gelado de terra estrangeira. De americana, Judy só tinha o nome, que seus pais lhe deram em homenagem a Judy Garland. E tal como a personagem que lançou a atriz ao estrelato, Judy também havia caído no olho do furacão. Um furacão no meio da neve.
Agora, engolindo com muita gim tônica todos os não quereres da vida que tanto havia desejado, Judy assistia a manteiga se derretendo em rodamoinhos na frigideira, PSSSSS, os pingos saltitando e ameaçando queimá-la, PSSSS, a frigideira que há muito, desde que se mudaram para os Estados Unidos, era sua principal companhia.
Empacotada feito um embrulho frágil que precisa de mil camadas de plástico bolha para não quebrar, ainda assim Judy estava gelada feito o mármore que cercava a lareira. Apesar das labaredas, o fogo parecia sem chamas, tinha perdido a batalha contra o vento que abria desertos no rosto de Judy. Nem toneladas de manteiga de cacau amenizariam as rachaduras. A última vez que a cara tinha ficado craquelada foi no dia do seu casamento, mas a maquiadora contratada por Alberto tratou de camuflar o ressecamento com uma base especialíssima, e também escondeu as crateras de acne que acompanhavam Judy desde a adolescência. Parecia estar usando, na vida real, seu filtro preferido do Instagram. Filtro este que provavelmente funcionou como pontapé para a paixão de Alberto. E naquele dia que havia planejado ser o clímax de sua vida, Judy não fez feio diante dos convidados escolhidos a dedo que transitavam com suas taças de champanhe embarriladas por não sei quantos anos pelo amplo apartamento quase casa do seu sogro tão legal tão incrível tão marchand tão conhecedor de arte contemporânea, no dia de princesa de uma menina vinda do interior de Minas, quando estava com pele de neném, Judy se sentia mesmo tal uma recém-nascida vendo o mundo pela primeira vez, a hora do sim ficou carimbada na memória: lá fora, a luz outonal pixelava as palmeiras, o sol abria cones entre as folhas secas do outono e o branco dos patos chapados reluzia no lago do cobiçado condomínio de classe média alta.
No entanto, aquele dia já se perdia em um outono distante, as folhas do calendário haviam caído como as da própria estação e Judy postada ali, diante da frigideira, grelhando o bife de Alberto enquanto pensava que preferia ser um pingo de manteiga esturricado a um bloco de gelo.
Estaria derretendo no verão carioca se nunca tivesse cruzado com aquele queixo quadrado sob o nariz adunco. Alberto tinha o jeito de sacudir contrariado a cabeça que ela já conhecia, igualzinho ao do seu pai, e foi por este homem que Judy se apaixonou e com quem trocou alianças para logo depois largar seu emprego a fim de ficar um ano fora do país como primeira dama do renomado repórter investigativo que desmontava máfias e recebeu licença remunerada do seu alto cargo na emissora para fazer pós-doc em Ciências Sociais na Columbia University, pós-doc em Nova York!, justo onde o sogro dela tinha aquele belo apartamento com problemas de vedação, e agora este homem, após deixá-la sozinha durante toda a semana, havia se mandado para o Mississsipi com os amigos universitários e estava a dois mil quilômetros de distância em uma caçada desenrabando gatos, ou, mais especificamente, desenrabando bobcats, o felino selvagem mais caçado em território americano, o lince-pardo rajadinho, apenas um pouco maior que os gatos que Alberto dizia tanto amar, logo ele que, além de jornalista, tinha escrito um livro infantil sobre bichos!, e naquele momento Alberto estaria carregando o carril, calibrando a espingarda e apontando para algum bobcat em seu habitat natural quem sabe desejando um carinho e querendo amassar alguém com suas patas rosas feito almofadas, mas pá!, pá!, logo o gato ficaria sem rabo.
Rabos, rabos, rabos, o excesso do significante era tanto que na noite anterior Judy havia sonhado com rabos solitários cortados ao meio, tipo minhocas divididas que mexem incessantemente suas partes, a grande questão é que sempre falta a outra parte, tudo o que Judy desejava era não ficar sozinha, queria seu emprego de volta, queria ir para a redação encontrar as pessoas, ter conversas sobre pautas aleatórias nas pausas para o cigarro, ainda lhe restavam alguns amigos fumantes que não eram tratados feito leprosos, não queria estar freelando para veículos de comunicação duvidosos que lhe pediam matérias sobre o american way of life, tinha vontade de desabafar sobre sua vida de fachada com aquele cara que agora estaria assistindo ao bobcat agonizar e girar ao redor de si mesmo em busca do rabo que não possuía mais, era melhor matar o bicho do que deixá-lo sofrendo, mas aquele homem com quem havia se casado era feito um verme, aliás, verme não, verme era uma criatura de deus, ele era um esquerdomacho cheio de falsa modéstia, sentia prazer em rebaixar Judy até a merda dos seus pés de dedão encravado, adorava dar pitacos para seus mais de um milhão de seguidores – como espectador, só espectador, ele costumava reiterar – sobre as mesmas obras criticadas por Judy em suas matérias, se ela resenhava determinada peça teatral, em algum momento ele apareceria no próprio canal discorrendo sobre outros aspectos do mesmo espetáculo, sempre colocando em ponderação as pontuações de Judy, homem não suporta mulher inteligente, ameaça o falo!, sua amiga Maria costumava dizer, e agora Judy jogava butter na frigideira, buTTer com a língua atrás dos dentes, como ele adorava corrigi-la, e se sentia uma miniatura em meio a tantas janelas, sempre havia estado em meio a muitas janelas, mas nunca ouviu!?, NUNCA!, ela tinha vontade de berrar, nunca fui sozinha como agora!, absolutamente invisível para você e para o mundo e para mim mesma!, Judy lamentava enquanto socava o bifinho do marido que logo retornaria após tantos rabos fora, o pior é que ela sabia, sabia muito bem o porquê daquela obsessão, e ainda compreendia e participava com muita delicadeza, com muita delicadeza, né?, filhinho de papai de merda!, faço com muita delicadeza para não machucar o neném!, Shit! Judy queimou a mão nos pingos de manteiga salteando na frigideira, SHIT!, desligou o forno e colocou a pele sob a água corrente em alta pressão, ao menos a pressão do apartamento era boa, e então começou a lacrimejar olhando a gordura derretida abrindo caminhos na frigideira, aquelas bolotas cheias de óleo feito a banha depositada ao redor do cinto de Alberto, os pneus que Judy aprendeu carinhosamente a chamar de muffin tops, era uma idiota que ia para a cama com aquela banha se amontoando cada vez mais sobre o pau sempre mole, I’m stupid!, a água escorria e Judy chorava e chorava, quem mandou acreditar que alguma coisa mudaria?, sabia desde o início, e no entanto, deixou o pensamento para o fundo da cabeça, os pensamentos mais importantes ela aterrava sob os outros, certamente queria antes realizar o sonho da menina interiorana que moraria em Nova York com o marido culto com o qual sempre sonhou, Judy, a jornalista que saiu de Carangolas, filha de pai jardineiro e mãe doceira quase analfabetos, ao menos os pais a amavam, amavam muito, não era para ser craquelada e estar naquela terra gelada e insípida justo quando tinha começado a ocupar seu espaço e ser reconhecida no caderno de cultura, I’m stupid!, largou tudo ao conhecer o cara inteligente, despojado e cheio de amigos interessantes, o dono daquele pau que só subia quando Judy metia na boca, na hora de entrar nela nada, nunca tinha sido comida por aquele homem de merda, deveria ter desconfiado, um homem que passa mais de meia hora nas preliminares não é macho, macho tem alvoroço por possuir a fêmea, mas sempre quando ia entrar Alberto dava para trás, há poucas coisas mais terríveis que um pau mole, quer dizer, pior ainda é um pau duro que amolecia justo na hora de encará-la, não funcionava nem com carinho, nem com amor, nem com Viagra nem com Tadalafila, e ela fingindo que tudo bem, ela se contentando com gozos falsos porque nem chupar direito ele chupava, aquela língua mixuruca sem vontade alguma, e depois das parcas lambidas ela queria ser comida, queria sentir o desejo do outro por ela, ser penetrada, entupida, e por que, Judy? por que você se casou com esse merda?, um homem que ainda tem coragem de reclamar das cicatrizes de acne dos seus quinze anos!, um homem que fica vociferando opiniões sobre a igualdade social e se diz cheio de cuidados com os bichos, a natureza e o planeta e adora proferir que é por dentro que a gente muda o sistema, Alberto era a mais inteira das falcatruas!, um marido de merda que lançou o livro dos bichos com as fotos de Judy creditadas como a divulgação!, EU SOU A SUA DIVULGAÇÃO!, ela berrou sozinha na cozinha enquanto fechava a torneira e sacodia a mão já com bolhas no ar, talvez não devesse tê-la colocado sob a água, você tá aí no Mississipi na sua caçada enquanto eu penso em como sair dessa vida medíocre que topei dividir com você e agora eu tô aqui cozinhando o bifinho pra você, seu merda!, fico aqui nesse apartamento gelado do seu pai enquanto você faz seu super doutorado com seu inglês perfeito de aluno de escola bilingue junto a seus amigos intelectualóides que só citam cientistas, sociólogos e homens escritores, vocês e seus Jack Kerouac e Henry Miller e Bukowski na veia!, no início você até fingia querer minha opinião, elogiava minhas resenhas, gostava do meu senso de humor, dos meus trocadilhos agridoces que animavam seu grupinho serelepe, mas em algum momento você sempre dava um jeito de avisar que havia terminado o tempo da minha sessão, e aí você falava de você e dava voz aos garanhões refinados que comem mulheres fazendo ostentação, mulheres bonitas e inteligentes mas jamais geniais como vocês!, vocês lambendo o saco uns dos outros, e não duvido nada que isso seja literal, né?, no fundo você sabe que eu sei mas permaneço aqui, congelada e queimada, me debulhando com meus olhos de Oceano Índico, no início você dizia que eu tinha olhos escarlates como a água do Índico?, lembra?, e não venha dizer que eu tô me fazendo de vítima, que isso é mimimi, que é tudo melodrama, eu tô aqui abandonada sob essa nuvem monstruosa que não para de soltar flocos de gelo, é bonito por fora mas dói, dói igual ao nosso casamento, e daqui a pouco vai se repetir a cena semelhante àquela de quando você me encontrou lá fora e me chamou de maluca, maluca nada!, maluca é continuar aqui, você sabe o que eu tava fazendo naquele dia?, dessa vez vou ter coragem, já me prometi, vou ligar pra minha mãe em desespero e vou deixá-la colapsada também, sei que isso é mais uma parte do meu masoquismo, deixarei minha mãe mal de tanta preocupação e depois vou me arrepender e me maltratar, você não se preocupa nem um pouco, né?, se você tivesse alguma preocupação não me deixaria aqui só, quem sabe se eu ligar pra minha mãe e desabafar ao menos dez minutos talvez eu me acalme, mãe, mãe, mãe!, vou abrir o berreiro e ela vai me apaziguar dizendo que devo te suportar como Jesus Cristo suportou ser cravado numa cruz, casamento é assim, minha filha, um tem que aturar o outro para dar certo, e então eu olho lá pra fora e vejo aquela rede de fios soltando apenas faíscas e calço minhas meias e minhas galochas de borracha que são as mesmas que papai me deu quando eu era criança e quando ele era ainda vivo, minhas galochas de pés 35 que não crescem desde os onze anos, e eu ando e penso que não devo pensar porque não fui feita pra pensar, e então sigo pisoteando o branco enquanto você vê o rabo do bobcat balançando em cima de uma árvore de galhos espichados e aqui eu escorrego na neve e corto meu joelho e me tremo de frio, muito frio, eu tento levantar e não consigo, eu queimada na mão e gelada no corpo, e você na floresta já atira no gato e pega para si o rabo ainda quente dele, ainda com o sangue que espera a paralisia, e aí você enrola o rabo em volta do pescoço e sai feito rei de cachecol, e quando chega aqui me encontra nesse estado, caída e congelada, e aí você tenta me levantar para que eu tome um banho e possa enfiar minha mão inteira delicadamente no seu rabo, mas eu já estarei feito dama de companhia em cubo de gelo, e só então, feito fantasma, conseguirei falar isso tudo pra você.
Sob efeito do desespero, Judy criou a tragédia. No entanto, não desentalou coisa alguma. Naquele dia, um solzinho brotou entre as nuvens e logo depois um arco-íris surgiu no céu. Quando Alberto retornou, a mão dela já estava cheia de pomada e o bife pronto sobre a mesa. Assim como a batata frita, o arroz e o feijão.
Alberto comeu com gosto.