sábado, 12 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
O ESPECTADOR NOTURNO

Os Ruminantes

O fracasso tem sua beleza.
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Certos fracassos podem ser mais interessantes e inspiradores do que muitos supostos êxitos. É o caso do projeto frustrado de Luiz Sergio Person de levar às telas o romance A hora dos ruminantes, de José J. Veiga. A história dessa frustração, do contexto em que ela se deu e dos desdobramentos do episódio na vida de Person e no cinema brasileiro subsequente é a matéria do documentário Os ruminantes, de Tarsila Araújo e Marcelo Mello.

Person, que havia dirigido as obras-primas São Paulo Sociedade Anônima (1965) e O caso dos irmãos Naves (1967), escreveu o roteiro de A hora dos ruminantes em parceria com Jean-Claude Bernardet e estava com tudo pronto para começar as filmagens quando o produtor Mario Civelli desistiu da empreitada. Seria o filme mais ambicioso do diretor, o primeiro em cores e com uma produção complexa. O cineasta o via como uma espécie de continuação dos Irmãos Naves, em que a violência física de um regime autoritário era substituída pela opressão psicológica, mediante a criação de uma atmosfera de ameaça obscura e sem nome.

Poster do filme Os Ruminantes de Tarsila Araújo e Marcelo Mello.

O romance de José J. Veiga, publicado em 1966 e geralmente associado ao realismo fantástico, narrava as invasões sucessivas de um vilarejo rural por uma horda de cães selvagens e, depois, uma manada desgovernada de bois. Era uma espécie de alegoria da situação de medo vivida no país sob a ditadura militar.

Pois bem. Os ruminantes busca dar conta dos vários aspectos dessa saga abortada, por meio dos depoimentos de um punhado de pessoas escolhidas a dedo. Jean-Claude Bernardet relembra como começou sua amizade e parceria com Person, cimentada, entre outras coisas, pela perspectiva crítica que ambos tinham em relação ao Cinema Novo e sua ânsia de “conscientizar” as massas, sem no entanto conseguir se comunicar com elas. Marina Person, a filha mais velha do cineasta, fala da amargura que acompanhou o pai até sua morte abrupta, em 1976, antes de completar 40 anos. Também Sebastião de Souza, que trabalhou como assistente de direção nos Irmãos Naves, comenta a frustração profunda de Person, que em vez de seu filme mais ambicioso foi trabalhar em publicidade, dirigiu uma chanchada western (Panca de valente, 1968) e uma comédia erótica (Cassy Jones, o magnífico sedutor, 1972).

Mas o depoimento mais tocante, fragmentado e espalhado ao longo do documentário, é do próprio Luiz Sérgio Person, num programa da TV Cultura realizado poucos dias antes de sua morte num acidente de carro. Ali ele rememora, com um misto de humor e melancolia, seus tempos de publicitário e diz que chegou a abandonar o cinema e voltar-se para o teatro (fundou o Teatro Augusta, com grande sucesso).

Do modo como o filme foi descrito nos parágrafos acima, pode-se ter a falsa impressão de que se trata de uma série de talking heads, mas o que torna Os ruminantes uma obra envolvente e inspiradora é o modo como articula os discursos com imagens dos mais variados filmes, não só os de Person, mas também clássicos de Humberto Mauro, trechos de chanchadas, de documentários e cinejornais, além de recortes de jornais e revistas.

Um projeto radical jamais finalizado.

Algumas dessas imagens iluminam o contexto daquilo que é dito, mas muitas vezes as associações são mais soltas, atendendo à criação de atmosferas e a motivações humorísticas e/ou poéticas.

Por essa colagem vibrante passa toda uma leitura da história do cinema brasileiro, sobretudo nos anos 1960 e 1970, e da delicada relação entre a produção artística e o poder opressor, seja ele político ou econômico. Ficamos sabendo, entre outras coisas, que uma versão cinematográfica de A hora dos ruminantes chegou a ser iniciada pelo diretor José de Anchieta, em 1978. Foi construída uma vila cenográfica numa fazenda no interior de São Paulo, mas uma enchente de proporções bíblicas destruiu o set e interrompeu a produção, que nunca foi retomada. Das imagens captadas sobrou pouca coisa.

Essa sucessão de reveses e desastres levou o diretor Carlos Reichenbach a dizer a Marina Person, filha de seu mestre e amigo, que nunca tentasse levar aquele livro às telas. “Esse é um filme maldito”, decretou Carlão, ele próprio calejado por projetos frustrados e obras abortadas. A história do cinema brasileiro é repleta de sonhos tornados pesadelos. Alguma coisa há de surgir da contribuição milionária de todos os fracassos.

Jean Claude Bernardet.

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