Naquela manhã, ensolarada e quente, cercada do que via e tinha, Olívia sentiu um insuportável sentimento de posse. Escancarou as portas do guarda-roupa inspirando o indesejável cheiro de mofo, chamando alto:
– Joana?
A empregada, chegando ao pé da escada, perguntou:
– A senhora chamou?
Olívia jogou duas peças de roupa, dizendo:
– Vê se isso serve para alguma coisa. Se alguém pode querer; se não aparecer ninguém, joga no lixo.
Joana fez um gesto precipitado, amparando-as, e Olívia sentiu-se mal com o cheiro mofado das peças. Era chegado o momento que não podia adiar. Já vinha entediada a observar nos shopping da cidade suas lojas cheias de produtos cafonas, rebuscados, sofisticados caríssimos, a maioria inútil, sob a vigilância de vendedores perfilados em tristes expectativas, ansiosos e/ou pacientes, querendo fregueses a voltear pelas avenidas nauseantes de um mundo de interrogações e futilidades. Não havia bondade nos seus gestos, era como quem foge amedrontada, achando-se num quarto contaminado por um cheiro e exagero de coisas enchendo aquele guarda-roupa.
Jogando mais um vestido, Joana recebeu um tanto assustada:
– Para mim?
– Se quiseres. – E jogou mais dois.
– Estes, também?
– Só se te interessar.
Joana subiu as escadas, vendo aquela desordem pelo chão:
– A senhora vai se mudar?
– Estou me livrando disto tudo. – Disse, avaliando aquelas coisas: o vestido azul que um dia viu na vitrine de uma loja da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Rio de Janeiro, que a fascinara, indo e voltando na dúvida de adquiri-lo pelo alto preço, acabando por comprar. Agora estava no guarda-roupa sem uso. Outro, de um corte em cetim, que a costureira, coitada, não acertando fazer, como lhe recomendara; na intolerância, reclamou contra a pobre senhora que se quedou infeliz, diante da humilhação. Aquele, de fazenda estampada, tão bonito e ajustado ao seu corpo, que desprezou sem usar vendo a funcionária do SANEPE vestida naquele, na mesma padronagem, insuportavelmente igual ao seu. Tinha ali aqueles vestidos, pensando e querendo rasgá-los, Joana dizendo num gesto súplice:
– Não rasgue, parece uma coisa impossível de ter, é uma pena; pode se arrepender.
Olívia segurou aquele vestido estampado, tentando rasgá-lo pelo decote, Joana a contê-la, Olívia, voltando-se, tentava compreender o que era para Joana um gesto impossível. Num certo apaziguamento, Joana disse delicada:
– Aquele verde, a senhora não quer?
– Não.
E tirando da cruzeta o tal vestido verde que vestira no seu diploma de médica, perguntou:
– Queres para ti?
– Troco por este que me jogou.
– Fica com os dois.
Precisava, sim, de Joana ali perto. Compreendeu de início que alguém, do céu ou do inferno, precisava testemunhar sua largada.
– Por que a senhora está fazendo isso?
Olívia sentiu-se desafiada. As palavras de Joana deram-me a impressão de que arrancavam seu coração sem vida.
– É necessário.
Nova força embaralhou seus sentidos.
Saiu afastando o que podia com os pés, agora também os sapatos; eram tantos! Todos inúteis, ali separados, já desgastando o falso couro que o cercava, produto plastificado, feito assim para o fabricante economizar.
– E os sapatos, vai também desfazer-se deles?
– Também.
– Parece que a senhora vai morrer!
Olívia olhou para Joana curiosamente; estava ali uma ideia que ainda não lhe ocorrera, era mais ou menos isso, pedindo:
– Pega por favor lá embaixo um pouco de água para beber e alguns sacos plásticos para acomodar estas coisas.
Joana mantinha na cozinha um radiozinho de pilha o tempo todo ligado. Uma emissora dera ultimamente para citar certas frases com a intenção de educar ou esclarecer.
Ouvindo, Olívia reclamou:
– Aproveita, fecha esse rádio, escutando o locutor dizer, e implicava com o que ele dizia, repetidamente: “cada um pode e deve ensinar ao outro o começo do caminho.”
Joana trouxe a água e os sacos, descendo de novo para terminar o almoço. A patroa desceu logo depois para almoçar com a família.
Voltou em seguida, enquanto Joana ficou na lida da cozinha e no descanso a que tinha direito. Quando retornou, achou Olívia pensativa, sentada num banquinho:
– Está cansada?
– Não, estou te esperando. – Disse levantando-se para separar as peças descartadas, juntando sapatos e sandálias, ali pertos, entre si, passando-as a Joana para ensacá-las, distinguindo em separado vestidos de saias, blusas de calças, camisolas de anáguas, sapatos de sandálias, com rótulos identificando-os discriminadamente.
Desfazendo-se daquelas coisas, encontrou uma camisola branca de dormir que a mãe lhe deu meses antes de morrer. Perspicaz, não vendo a filha usá-la, entendia que não gostara daquele presente que lhe dera de aniversário. Olívia lembrando agora que a mãe se ressentia, mesmo assim não usou-a, perdendo de vê-la feliz. Agora, diante da camisola, pensava claudicante num sentimento vizinho à demência: “e esta camisola?”
Pensou que sua vida até ali tinha sido apenas ao alcance do que achava essencial ao seu bem-estar, afastada dos apelos da mãe e de suas intensões maternais. Enquanto pensava, Joana perguntava:
– Vai querer dar a camisola?
Não respondendo, Joana repetia:
– Vai querer dar a camisola?
Olívia, sem responder, não sabia se escapava de algum atrito psicológico, ou se estava a se ocupar observando a letra de Joana, escrevendo os rótulos dos ensacados, perguntando:
– Até que ano estudaste?
– Até o segundo ano. (A patroa considerou como sendo do primário, vendo como ela escrevia mal o português.)
– E por que não continuaste?
– Porque tenho de servir o jantar de vocês (Olívia pensou contrafeita: é mesmo, primeiro ela tem que servir nosso jantar…), as aulas começam às sete horas e aqui só se janta às sete e meia da noite.
– Gostarias de continuar estudando?
– Quem me dera!
– Para quê?
– Para trabalhar noutra coisa, inclusive comprar vestidos como estes da senhora.
– Já te disse que podes ficar com eles, podes dispor do que quiseres.
– Não é a mesma coisa.
A patroa olhou-a, sentindo um ligeiro mal-estar. Caridade não era, era pior. Achou que atropelava aquele ser indefeso, parecendo vingar-se de algum malfeito, desforra, covardia, ou revolta. Estava ali uma empregada doméstica a considerar seu hipotético heroísmo, sua improvável coragem! Onde ela já tinha visto alguém abrir mão de todo o seu moderno e especial guarda-roupa com peças caras, quase sem uso? Joana continuou:
– A gente gosta de ter o que consegue com o próprio esforço, subindo escada, diferente desta aqui, mas escada que a gente mesma faz.
– Puxa, Joana, falas como se me desses uma reprimenda! Peço-te desculpas por sugerir que escolhas para ti algumas destas coisas.
Estou envergonhada.
– A senhora está me entendendo mal. Teria muito o que fazer com isto que a senhora despreza. Sei que custou caro, coisas que nunca usou, tudo bonito e bom. Mas se eu soubesse ler e escrever, ganhando um dinheiro melhor, talvez, digo talvez, fizesse o que a senhora faz agora, dispensando o que lhe sobra para dar a quem precisa, até mesmo jogar fora.
Olívia sentiu-se destruída, alguém que se interrompia diante do gesto inútil. Permaneceu sob o silêncio de quem faz uma sondagem, dispersando-se na própria gratuidade. Joana, meio constrangida, perguntou:
– Vamos continuar?
Ela disse que não, vendo que Joana já tinha separado o pouco que restara, recolocando-o no guarda-roupa. Então, levantou-se para tomar banho, dizendo:
– Joana, de amanhã em diante, tu vais voltar a estudar, o colégio fica por minha conta. Cada um de nós jantará fazendo o próprio prato, na hora que bem quiser.
Joana que começava a descer com os sacos daquilo que, na verdade, não tivera nenhuma serventia, escutava parecendo incrédula:
– A senhora continua estranha, dá até uma impressão de estar zangada.
Olívia ficou sem saber se Joana tinha acreditado no que ela prometia. Mas o que ela prometia era verdade: continuaria, sim, a estudar, parando de trabalhar nas horas extras noturnas, acrescentadas ao horário legal, para encontrar-se estudando nas salas de aula sem perder a indenização pelas horas extras que recebia trabalhando.
Mais tarde, quase noite, quando voltou ao quarto para conferir como ficara tudo, encontrou Olívia depois do banho metida na camisola branca que a mãe lhe deu, mofada pelo tempo em que ficou à espera, refluindo na inspiração do cheiro bom da lavanda que ambas sabiam ser dos seus gostos, ocupando agora os espaços desabrigados daquele quarto.