Do livro à tela
Cerca de dez, talvez vinte anos atrás, quando as redes sociais passaram a protagonizar o cotidiano das pessoas, não raro líamos, aqui e ali, frases atribuídas a Clarice Lispector. Às vezes, ficava nítido que não se tratava de passagens escritas pela autora; em outras, os excertos haviam sido extraídos de sua obra, o que tampouco resolvia o problema, afinal, nada poderia ser mais incoerente com o legado de Clarice – a escritora das entrelinhas, a voz narrativa do indizível – do que sua transformação em uma espécie de guru da autoajuda.
A paixão segundo G.H., filme dirigido por de Luiz Fernando Carvalho, a partir do livro homônimo de Clarice Lispector, e protagonizado por Maria Fernanda Candido, reconduz a autora ao lugar de onde ela nunca deveria ter saído: o da corporificação do mistério.

Como em suas demais obras que partem de textos literários, no cinema e na televisão, o diretor empreende um mergulho no texto de origem, em busca do diálogo entre as especificidades da poética literária e as imagens evocadas por sua percepção. No método de Carvalho, é fundamental que esse mergulho seja vivenciado por toda a equipe. O filme nasce à justa medida em que os envolvidos são transformados pela experiência.
Livro-diário
Diário de um filme – a paixão segundo G.H., escrito por Melina Dalboni, que assina o roteiro do longa-metragem com Carvalho, aborda a concepção do filme, destacando o envolvimento emocional dos participantes no processo.
O livro-diário se divide em três atos: o ano anterior às filmagens, passado sobretudo no Galpão criativo concebido pelo diretor, em São Paulo, onde houve uma série de atividades preparatórias, incluindo oficinas teóricas sobre a obra de Clarice Lispector (outubro de 2017 a julho de 2018); os meses que antecederam as filmagens, com as tomadas das últimas decisões (julho a outubro de 2018); o período que vai da filmagem, no Rio de Janeiro, até o início da montagem (outubro de 2018 a julho de 2019).
O livro traz, ainda, uma série de fotografias do processo e reproduções dos cadernos de Luiz Fernando Carvalho, com suas anotações e desenhos, além da transcrição de todas as oficinas teóricas ocorridas no Galpão, proferidas por Nádia Battella Gotlib, Yudith Rosembaum, José Miguel Wisnik, Franklin Leopoldo e Silva, Rafaela Zorzanelli e Flavia Trocoli.
Negativo às avessas
No início do livro, Dalboni escreve, em tom de confissão, que estamos diante de “um ensaio de caráter inapropriadamente pessoal sobre o fazer cinematográfico”. Ora, aquilo que não é apropriado, o estranho por excelência, é marca importante da poética clariceana. Nesse sentido, o livro-diário se coaduna com o universo a ser retratado, ou seja, não é um retrato “de fora”, mas um testemunho que se torna, ele mesmo, parte desse universo.

O livro revela uma série de circunstâncias que atravessaram a concepção do filme: os desafios do projeto de filmar Clarice; o momento político conturbado do país; as ressonâncias entre o trabalho em curso e eventos significativos da vida pessoal (da própria roteirista e de demais membros da equipe); os bastidores das filmagens (Dalboni desempenhou função fundamental nessa etapa, exercendo a mediação entre o texto de Clarice e a atriz Maria Fernanda Cândido); muitos são os eventos que capturam o leitor.
Dalboni escreve em primeira pessoa. No entanto, o foco narrativo é “míope”, como o olhar de Clarice para os objetos cotidianos, segundo Yudith Rosembaum, e a “Lente G.H.”, construída por Luiz Fernando Carvalho especialmente para o filme, que foca os primeiríssimos planos. Há muitos elementos fora de foco, invisíveis, que assumem o primeiro plano e compõem, como dizia Clarice sobre o abstrato, “um real mais difícil”.
O olhar de Dalboni se volta à experiência, analogamente à G.H., no momento mesmo em que a vive e, também, a posteriori, e nesse movimento outras vozes tomam conta do diário. São registrados diversos depoimentos de membros da equipe, em discurso direto, mas há sobretudo a presença do outro através da “Lente-Melina”.
Assim, o “caráter inapropriadamente pessoal” do ensaio é emblema da abertura à alteridade, da circulação dos afetos e, em suma, do encontro com os negativos, às avessas, que preencheriam a película. O resultado é um registro sensível, por meio de uma prosa límpida, da matéria pulsante do fazer cinematográfico concebido por Luiz Fernando Carvalho.
