Muitas vezes relegado a um lugar rebaixado na cultura, o melodrama é uma forma narrativa que se enraizou e encontrou terreno fértil na América Latina. O preconceito tem se enfraquecido, e esse tipo de literatura e cinema se tornou cult e respeitado nos últimos anos. Blanca Sol, da peruana Mercedes Cabello de Carbonera, é uma das grandes obras, que, finalmente, chega ao Brasil, em tradução de Roberta Vilas Boas, e ilustrações de Kaio Fialho.

Originalmente lançado em seu país em 1888, o livro ecoa o presente em seu olhar sobre a posição da mulher diante das sociedades latinas marcadas pelo patriarcado. A personagem-título é uma arrivista que sobe na vida pelo casamento com um homem mais rico e tolo, que não tem sua ascendência nobre, e assim recuperar o status social de sua família.
Cabello de Carbonera, no entanto, traz profundas nuances a essa personagem que tenta subir na alta sociedade de Lima conforme as regras sociais de seu tempo. O dinheiro, obviamente, se torna o mediador de sua ascensão e de todas as relações sociais e afetivas que ela vive. Não é culpa dela que seja gananciosa, mas é uma exigência do mundo. “Na opinião de Blanca, era a sociedade, essa sociedade estúpida que só homenageia o dinheiro”, escreve a autora.
O dinheiro é tão importante dentro da obra que o próprio sobrenome da protagonista, Sol, coincide com a moeda peruana. Ela é uma espécie de personificação do dinheiro, em meio a dramas amorosos e sociais. As ascensão e posterior queda de Blanca é espelhada na trajetória de sua costureira, Josefina, numa vida miserável, enfrenta provações enormes.
A autora era uma adepta do positivismo, e via na observação da trajetórias das personagens a possibilidade de compreender o movimento social, por isso há aqui a investigação da dinâmica moral de suas personagens. Cabello de Carbonera é rigorosa com elas – especialmente com as femininas, que tentam se mover para além das estruturas dadas, mas esbarram em limites de contenções, exatamente por não serem as proprietárias do capital.
Sendo ela própria de uma classe social alta, a escritora conhecia muito bem esse meio que representava em seu livro, e, por isso, encontra na forma realista o subsídio para uma descrição crua da realidade. Os valores morais e éticos naturalizados pelas elites são questionados e descontruídos em face ao exagero nas situações, que são típicos do melodrama. Há momentos que caberiam muito bem numa telenovela mexicana, uma arte, exatamente, conhecida por seus exageros nas situações e nos sofrimentos das personagens. Aqui, porém, Cabello de Carbonera trabalha com gradações que conferem sofisticação à narrativa.
As contradições das personagens femininas fazem delas ainda mais humanas numa sociedade em que são tratadas como mercadorias sociais pelos homens. Assim, em Blanca Sol, a escritora vai à essência da experiência feminina no patriarcado, nas regras moralizantes que obrigam mulheres a se degradar, mesmo que, no fundo, aparentem ser vitoriosas. O final do romance, nesse sentido, é revelador.
