sábado, 12 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
CRÍTICA

Incendei meu coração, Izumi Suzuki

Em romance autobiográfico, ícone da contracultura japonesa faz um retrato ácido de uma geração com uma relação ambígua com a cultura ocidental.
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Izumi Suzuki é um ícone da contracultura nipônica. Escritora, modelo, atriz, ela deixou uma marca por onde passou – seja com sua coletânea de contos Tédio Terminal (lançada no Brasil em 2024) ou em sua participação marcante no filme Violence without a cause, de Kōji Wakamatsu, lançado em 1969. Incendeie meu coração, originalmente publicado em 1986, é um romance de autoficção muito antes do gênero ganhar os holofotes. Nele, Suzuki revê um período de sua vida, no começo dos anos de 1970, seus relacionamentos, seus encontros sexuais e as músicas e drogas que fizeram parte de sua vida.

Descoberta pelo ocidente nos anos de 2020, quando a editora de esquerda Verso começo a publicar sua obra em inglês (e pouco depois chegou ao Brasil), Suzuki toma de assalto que se toma como corrente da literatura japonesa, elevando ao caos seu retrato incendiário de uma juventude se postando contra os valores socioculturais da geração anterior, e se inserindo nos movimentos dos anos de 1960. 

“Corri atrás de ilusões extintas. Não importava se belas, vívidas, charmosas, interessantes, agradáveis. Falsas ou não”, escreve a narradora-autora. Por esse prisma, o das ilusões perdidas, é que Suzuki constrói o romance, aqui lançado em tradução direta do japonês de Jefferson José Teixeira.

Tanto em suas ficções cientificas como nesse romance realista, a autora questiona sua identidade japonesa no país do pós-Guerra. Nascida em 1949, ela cresceu testemunhando a reconstrução e, ao mesmo tempo, uma rápida ocidentalização, e sua obra se dá exatamente nesse vértice: o da assimilação e resistência. A banda principal do romance, a fictícia Green Glass (inspirada na real The Golden Cups), tem covers de músicas em inglês. A cena musical underground de Tóquio é marcada por influências de bandas como Rolling Stones, T. Rex, e The Zombies.

Ao mesmo tempo, a escritora des-romanticiza a influência ocidental mostrando como as mazelas, mais do que os sonhos e conquistas, são facilmente importadas resultando, ao mesmo tempo, numa espécie de dialética entre uma cultura alienada e efervescente. É estranho? É, mas Suzuki, em sua própria persona narrativa, consegue transformar esse embate numa forma literária muito particular que, novamente, deve ao ocidente e à tradição de seu país. 

Apoiadora de movimentos radicais políticos e culturais dos anos de 1960, ela traz à sua vida e livro o amor libertário, e paga um preço caro por sua busca incessante por sexo e drogas – além do rock e do jazz. Quando se apaixona de verdade, pelo saxofonista Jun, vive uma relação tumultuada e um casamento ainda mais caótico que resulta apenas em problemas. “Comecei a ficar sorumbática. Casar era assustador. […] O amor não é necessário se for para me perder dentro dele. É assustador ser amada.”

Tudo é muito rápido, e os capítulos saltam no tempo, e trazem como títulos nomes e versos de músicas: Nights in white satin, Time of the season, Keep me hangin’ on. São apropriações como forma de resistência e subversão. Subverter a narrativa tradicional é também uma forma de construir o tempo narrativo. Logo ela se casa com Jun, e mais depressa ainda sua vida é destroçada, e não demora muito tem uma bebê no berço ao lado da cama.

Suzuki narra como viveu, com pressa, aos atropelos, mas como enorme sinceridade. “Quando o mundo desaba, eu vou junto. Mas, no meu caso, o mundo sempre esteve em ruínas. Um verdadeiro caos. Fora de controle.” Mas, se na vida, a autora era um caos, na sua literatura ela decanta a possibilidade de dar forma ao caos. 

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