“Os canalhas também envelhecem”, teria dito o jurista brasileiro Rui Barbosa. O protagonista de Cavalo Selvagem Nove, Chris Carlisle (John Malkovich), atesta a força dessa máxima: aos 72 anos e acometido por um câncer terminal, ele é alguém de quem se deveria inicialmente apiedar, mas é também um experiente agente da CIA com longo histórico de envolvimento em golpes de Estado e assassinatos políticos (como os de Patrice Lumumba, no Congo, e John F. Kennedy, nos EUA); quando a narrativa começa, inclusive, em agosto de 1973, Chris está no Chile, trabalhando pela derrubada do presidente socialista Salvador Allende.

Cavalo Selvagem Nove se abre para a possibilidade de humanizar essa figura. Isso se dá sobretudo pela chave do próprio cinema: Chris é gradualmente transformado num anti-heroi como outros em filmes anteriores de Martin McDonagh, que gosta de se arriscar nesse movimento de imprimir tons de cinza em figuras de ações e/ou valores reprováveis, como os matadores profissionais de Na Mira do Chefe (2008) e o policial racista de Três Anúncios Para um Crime (2017); a moldura do western, enquanto gênero icônico, se faz presente no Monument Valley usado de pano de fundo para uma cena importante e referência no desejo final de Chris, em alguns diálogos sobre cavalos e seu lugar em filmes do tipo, além, claro, da própria apropriação narrativa de certos códigos genéricos característicos (o velho “cowboy” em busca de redenção, o tom crepuscular e melancólico, o duelo do epílogo); e, afinal, uma das possibilidades fascinantes da ficção é justamente essa de imaginar lados escondidos de figuras sombrias e, consequentemente, manipular a identificação espectatorial.
É interessante que, ao mesmo tempo que faz essa busca por encontrar complexidade numa figura potencialmente vilanesca, Cavalo Selvagem Nove aposta numa simplicidade de propósitos que trabalha fortemente a seu favor. O mote é simples: dois agentes da CIA – Chris é acompanhado por seu parceiro mais jovem Lee (Sam Rockwell) – envolvidos nos planos de golpe de Estado no Chile viajam à Ilha de Páscoa, onde vivem algumas desventuras. A motivação da viagem que organiza a narrativa não demora a ser revelada e é relativamente óbvia: o protagonista, doente, deseja passar seus últimos dias em meio à natureza da ilha e conhecer as célebres esculturas moais antes de morrer. O desenrolar da trama ocorre sem sobressaltos e algumas cenas e relações são telegrafadas (o conflito no clímax, a aproximação entre Chris e a jovem turista chilena simpatizante de Allende). Piadas que a princípio soam aleatórias retornam como informações importantes para a história (a foto colada na mala, o suposto vício em heroína do chefe da CIA no Chile, a fome e a frieza desmesuradas de Lee). E tudo funciona com absoluta precisão.

Um bom exemplo disso é justamente o epílogo de Cavalo Selvagem Nove. A confluência, em montagem paralela, de dois núcleos de personagens para um encontro em campo aberto, à beira de uma estrada, lugar propício para o duelo final; os conselhos de Chris a Monica (Mariana Di Girolamo), sua amiga chilena, sobre como agir diante do que está por acontecer no país e a intervenção do protagonista para salvá-la exatamente da ameaça que acabara de descrever, usando o objeto mencionado e desejado por outros ao longo da narrativa; a conclusão suave, melancólica e justa com todos os personagens. O esperado e anunciado acontece. McDonagh não tem nenhuma vontade de surpreender através de viradas ou truques, apenas de amarrar uma história sendo generoso com seus personagens principais, inclusive com Monica (afinal, o filme termina antes de 11 de setembro de 1973).
Essa simplicidade aparece ainda na forma como Cavalo Selvagem Nove lida com a História. O passado, para McDonagh, é um todo encerrado e coeso utilizado como artefato narrativo, ao invés de um processo aberto vivido cotidianamente pelos personagens. Nesse sentido, o filme está muito distante da preocupação com a cultura material de uma época, como visto recentemente, por exemplo, em O Agente Secreto (2025). Chris fala do que irá acontecer depois do golpe contra Allende por ser um agente da CIA conhecedor de planos secretos, mas ele também representa aqui a voz do diretor/roteirista oriunda do presente, ou, em sua relação com Monica, uma espécie de viajante no tempo que retorna a 1973 para tentar salvar ao menos uma vida. Abordagem a princípio empobrecedora, pois flerta com o anacronismo, mas que se encaixa bem na proposta dramaticamente fechada de McDonagh e ajuda a dar a Cavalo Selvagem Nove um quê de conto moral emocionante, alicerçado na redenção de um homem mau.
