sábado, 19 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
ENSAIO

As muitas artes de Victor Giudice

Giudice não desperdiçou palavras. Nem desaproveitou seu imenso talento em muitas áreas, além de ser um expert na arte de conviver.
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“... é bom não desperdiçar palavras, pois é possível que o tempo 
não tenha comigo a mesma paciência que tive com ele”

A frase do narrador do conto O Visitante diz muito sobre seu autor. O tempo não teve paciência com Victor Giudice, que morreu com apenas 63 anos em 1997. Assim se interrompia uma carreira luminosa na literatura brasileira. E não somente aí. Giudice era um artista davinciano, tais eram suas aptidões em diversas áreas da criatividade.

No ano passado, sua viúva Eneida Santos pilotou a publicação do primeiro volume dos Contos Reunidos – O Arquivo e Outras Histórias, abrangendo as narrativas curtas dos dois primeiros livros do autor, Necrológio eOs Banheiros. Na orelha do livro, eu escrevi que esses contos, embora publicados pela primeira vez há quatro ou cinco décadas, exalam o frescor da contemporaneidade tanto no que dizem, como na forma como dizem.

Victor Giudice usava a ficção como uma ferramenta de fustigação da realidade brasileira. Seus contos flertavam com a narrativa policial, o absurdo e a sátira à burguesia. Nas linhas e nas entrelinhas, revelava traços de hipocrisia, opressão política e assédio social no mundo do trabalho e nas relações interpessoais. Sem perder a elegância da escrita e a ousadia no uso da linguagem. “Saio encantado com a leitura de Victor Giudice”, escreveu certa vez Carlos Drummond de Andrade.

Giudice não desperdiçou palavras. Nem desaproveitou seu imenso talento em muitas áreas, além de ser um expert na arte de conviver.  

Um homem da música

Quando o compositor americano Philip Glass, no auge de sua fama no início dos anos 1990, apresentou um concerto no já então famoso foyer do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, coube a Victor Giudice fazer um teste prévio do piano antes do ensaio. Victor foi além do combinado e deixou os assistentes boquiabertos com o seu Tango para Prometeu, composto um ano antes como parte da trilha sonora do espetáculo Prometeu pelo Grupo Mergulho no Trágico. Glass o aplaudiu – coisa que poucos músicos podem ostentar no seu currículo. 

O grande autor de óperas e sinfonias não sabia que Victor era bem mais que um testador de pianos. Mais conhecido como escritor, Giudice era dessa rara estirpe de artistas verdadeiramente múltiplos. Em seus 63 anos de vida, ele esbanjou talento como romancista e contista, poeta, dramaturgo, crítico e ensaísta literário, crítico de música clássica, compositor, performer, desenhista, fotógrafo e professor. Foi alguém que viveu intensamente todas essas facetas e tinha boas razões para ser um bocadinho vaidoso, a ponto de quase roubar a cena de Philip Glass.

Pode-se dizer que o envolvimento apaixonado com a música, desde muito cedo, ditava suas preferências artísticas, seu comportamento e a sua própria visão de mundo. As formas perfeitas, para ele, teriam obrigatoriamente o ritmo, a progressão e a emoção de uma sinfonia ou uma sonata. No CCBB, Victor ministrou cursos de introdução à ópera, sobre o papel da música sinfônica na civilização ocidental e sobre a obra de Richard Wagner. Durante vários anos foi um respeitado crítico de música clássica do Jornal do Brasil. 

Sua própria produção musical era pouco divulgada até ser trazida à tona pelo interesse e o empenho da professora e cantora Tereza Virgínia. E eis que o sofisticado conoisseur erudito era também um exímio compositor de sambas que chegou a ser convidado para integrar a ala de compositores da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel.

Incursões no teatro

De fato, em Giudice conviviam o intelectual de gosto refinado e o homem simples e popular. Ele era múltiplo também na forma de estar no mundo. Transitava com naturalidade entre as Zonas Norte e Sul do Rio, cultivando amizades com artistas e literatos, mas também com guardadores de carro, lanterneiros e porteiros de prédios. 

A única peça teatral que escreveu, Ária de Serviço, era monólogo sobre uma dona de casa infeliz que prepara o espírito para receber o marido ao final de um dia de trabalho. Foi montada no CCBB em 1991 com a atriz Bete Mendes e direção de Marco Antonio Braz. No mesmo ano, seu conto Bolívar foi encenado por Domingos Oliveira. Entre várias colaborações com dramaturgos amigos, ele adaptou o Don Juan de Molière para uma montagem de alunos da Uni-Rio. 

Édipo Rei, de Sófocles, lido aos 12 anos, revelou-lhe o fascínio das histórias de mistério, uma das vertentes principais ou pelo menos subjacentes de sua obra literária. No início da carreira, publicou contos na revista Mistério Magazine de Ellery Queen. Mais tarde, foi organizador da Coleção Enigma, de livros policiais, da Editora José Olympio. Com o romance O Sétimo Punhal ele teria atingido, segundo a crítica, a maturidade no uso dos ingredientes da história policial, gênero relativamente raro no Brasil e do qual Victor se firmou como um dos melhores cultores.

A influência do cinema

Nada desprezível é também a influência do cinema em sua obra literária. As relações entre cinema e ópera lhe chamavam a atenção não somente pelo fator musical, mas também pelo processo narrativo que compartilhavam. Por sinal, foram as trilhas sonoras de filmes e seriados com música clássica, comuns na década de 1940, que lhe infundiram o amor pela música. Com as tais “fitas em série” ele compreendeu o valor do suspense e da imprevisibilidade. Os Perigos de NyokaO FantasmaFlash GordonCapitão Marvel e Império Submarino figuram entre os primeiros objetos de cinefilia de Victor. Filmes dos franceses Henri-Georges Clouzot e André Cayatte também alinham-se entre suas influências inaugurais.

A cinefilia infantil se perpetuaria na vida adulta, com um afeto especial pelo cinema clássico europeu: Visconti, Fellini, os primeiros filmes de Monicelli, os de Totò, Carné, Clouzot, as comédias inglesas dos anos 1940 e 50, e a nobreza de Laurence Olivier à frente de adaptações shakespeareanas como Ricardo III“. Já o cinema americano era capaz de lhe despertar sentimentos conflitantes. Ao mesmo tempo em que admirava a eficiência e verossimilhança de suas narrativas, abominava seus chavões e a superficialidade na abordagem dos temas. Os filmes de Orson Welles e grandes musicais como O Mágico de OzCantando na Chuva e Um Americano em Paris pairavam acima de qualquer restrição. Quanto ao cinema brasileiro, irritava-se com frequência diante dos sinais de amadorismo que predominavam até o final da década de 1970. Pena que não presenciou o salto qualitativo das décadas de 1990 em diante.  

Victor nunca filmou, mas gostava de rascunhar eletrizantes prólogos de filmes imaginários. Esteve mais próximo de se tornar um ator. Por volta dos 13 anos, as visitas frequentes aos estúdios da Cinédia lhe renderam uma “ponta” no filme Pinguinho de Gente, de Gilda de Abreu. Bem mais tarde, tornou-se aluno da famosa atriz Dulcina, com quem aprendeu os mistérios da interpretação. Na verdade, Victor sempre foi um ator nato, além de imitador impagável. Suas performances-relâmpago ou a compenetrada declamação dos poemas do português Antonio Nobre eram um deleite para quem tinha a sorte de estar por perto.

Traços de cinema podem ser detectados com facilidade na sua produção literária, sobretudo nos textos ágeis e carregados de sugestões visuais. Os contos de Salvador Janta no Lamas apresentam um estilo particularmente imagético, nos limites mesmo do argumento de cinema. O Homem Geográfico poderia figurar numa antologia do corte (no sentido cinematográfico do termo); Bolívar nada mais é que um pequeno filme policial em que, significativamente, o cinema é repetidamente citado.

Desenho, fotografia e esoterismo

Outra área em que Victor Giudice brilhou, embora quase sempre nos bastidores, foram o desenho e a fotografia. Com os amigos de infância, ele costumava decorar os ladrilhos de sua casa. Ainda menino, saía para fotografar o querido bairro de São Cristóvão e a Quinta da Boa Vista. Seus amigos mais próximos eram modelos frequentes de seus portraits, quando não de suas caricaturas, que bem mereciam ter sido recolhidas para publicação.

Victor teve fotos publicadas na revista O Cruzeiro (1969) e no semanário Crítica (1974). Durante vários anos, um dos cômodos de sua casa funcionou como laboratório de revelação fotográfica. Foi artefinalista numa pequena agência de publicidade, pintou anúncios em cortinas de teatro e, já nos anos 1960, formado em Estatística, trabalhou como desenhista de gráficos para órgãos públicos. Vale lembrar que ele próprio é o autor das capas de seus livros Necrológio (onde o primeiro conto começa já na capa), Salvador Janta no Lamas e O Museu Darbot e Outros Mistérios. O desenho do rosto-arquivo na capa dos Contos Reunidos é também de sua autoria.

A faceta místico-esotérica foi outro traço marcante da personalidade de Victor. Ele aprendeu leitura de mãos na juventude e dizia-se um apaixonado pelo ocultismo. Nos anos 1980, estudaria profundamente o tarô e colecionaria dezenas de baralhos, de várias modalidades e procedências. Chegou a “botar” cartas informalmente e criou o protótipo de uma certa Mandala Divinatória, jogo de números e peças geométricas que conformaria toda a vida do consulente. 

A arte de conviver

Existem fortes razões para se suspeitar que o esoterismo um tanto jocoso era, no fundo, mais um instrumento de elaboração ficcional de que Victor lançava mão nas incansáveis peripécias de sua imaginação. Destino semelhante tinham as ocorrências de sua vida de funcionário no Banco do Brasil. No ambiente relativamente austero dos escritórios bancários, Victor fazia o terror da hierarquia e as delícias dos colegas com sua irresistível tendência a satirizar o cotidiano, jogar pelos ares as formalidades e se lixar para os imperativos de um mito da época: uma boa carreira no BB. 

Os formulários burocráticos lhe serviam para fazer intervenções poéticas, e a rotina do trabalho lhe inspirava situações de comédia. O segundo conto que publicou, In Perpetuum, é protagonizado por um funcionário de banco que passa 30 anos procurando uma diferença de 10 centavos. Semelhante é a matéria-prima de O Arquivo, um dos contos brasileiros mais conhecidos internacionalmente, editado em oito países. Neste, um burocrata se vê tão reduzido em sua dignidade que acaba se transformando num arquivo de metal. 

Mais que qualquer outra arte, Giudice foi um mestre na arte de conviver. Sua presença em qualquer ambiente instaurava rapidamente uma aura de cultura e entretenimento, humor e erudição. As entradas e saídas de cena teatrais, as pequenas performances com que ele temperava seus relatos verbais, o senso imbatível de ritmo e surpresa no tratamento dos assuntos mais cotidianos, tudo contribuía para um estado permanente de fabulação e espetáculo. Sem que isso o fizesse um alienado da realidade, Victor desconsiderava a linha divisória que a maioria de nós estabelece entre vida diária e criação. 

Para isso usava como ferramentas o canto, a declamação, a invenção constante. Tinha o hábito de ficcionalizar a realidade para dela revelar o seu lado mais absurdo ou poético. O culto da mentira criativa e a transformação do prosaico em maravilhoso e inesperado eram suas práticas constantes. Assim ele melhorava a vida ao seu redor e esparzia as sementes do bom gosto, da inteligência e da sensibilidade. 

Em Victor, não era a vida que imitava a arte nem vice-versa, mas uma se confundia com a outra como nas mãos de um prestidigitador habilidoso.       

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