Chico Buarque estava à toa na vida quando Hugo Carvana o chamou para fazer um show na boate Arpège, propriedade do “dançante” Waldir Calmon. Meu Refrão foi o primeiro show de Chico no Rio de Janeiro, no qual ele se apresentava junto a Odete Lara e o MPB4.
Era o ano de 1966 e o início de uma bela parceria decisiva para a entrada de Chico no mundo do cinema. Ele viria a contracenar com Carvana em Quando o Carnaval Chegar e escrever as músicas-tema da Trilogia do Malandro, de Carvana. Ainda por cima, fez uma ponta como Julinho da Adelaide em Vai Trabalhar, Vagabundo II – A Volta. Ainda mais por cima, foi Carvana quem apresentou Marieta Severo a Chico, fomentando uma união que duraria mais de 30 anos e geraria três filhas.
No mesmo ano de 1966, Chico compôs temas instrumentais para a trilha sonora do melodrama policial O Anjo Assassino, de Dionisio Azevedo. Era a estreia de uma carreira muitas vezes relegada a segundo plano quando se fala de Chico. O músico, o escritor e o dramaturgo Chico Buarque já foram esmiuçados pelo jornalismo e a academia, mas pouca atenção já se deu a sua contribuição para o cinema e, menos ainda, para a presença do cinema em suas letras e nos seus livros.
Essas relações cruzadas são o objeto do meu quarto site-livro, modelo de publicação que me permite associar textos a imagens em movimento, fotos e hiperlinks. Assim como os três anteriores, Chico Buarque – Ele Faz Cinema também fica disponível gratuitamente na internet, contendo a análise desse universo particular e todas as cenas de filmes relacionadas.
A música das imagens
Nessa pesquisa que me consumiu um ano e meio, percebi algumas coisas interessantes sobre as conexões de Chico com o cinema. A começar pelo fato de que ele não compõe propriamente trilhas sonoras, mas sim canções que eventualmente são desenvolvidas instrumentalmente como trilha. As canções, por sua vez, quase nunca se referem diretamente à trama dos filmes. Em sua grande maioria, as letras são digressões ou narrativas paralelas – como a música-título de Bye Bye Brasil – cuja relação com o filme se dá somente pela sugestão indireta ou pela metáfora.

Identifiquei 60 filmes para os quais Chico compôs especialmente ou licenciou músicas pré-existentes. Nessa produção se destacam as parcerias de longa duração com Hugo Carvana, Cacá Diegues, Ruy Guerra e Miguel Faria Jr. Sete desses 60 filmes foram inspirados por músicas de Chico, embora nem todos levem o mesmo título da canção. O próximo será Geni e o Zepelim, em preparação por Anna Muylaert.
O fato de personagens cantarolarem informalmente ou mesmo assoviarem músicas de Chico dentro das cenas – aspecto também presente no site-livro – ecoa a inserção de suas canções no cotidiano mais trivial dos brasileiros. Nada mais natural, haja vista que Chico vai buscar no nosso meio social a inspiração para a maior parte de suas composições. Trabalhadores, malandros, profissionais do sexo, desvalidos, travestis, artistas de circo, atrizes, amantes, traídos, perseguidos, sem terra… essa fauna humana que alimenta suas letras é já cinematográfica por si só.
Minha garimpagem foi recompensada por alguns achados interessantes. Um deles é o documentário Un Séjour, feito por Cacá Diegues na França em 1970, onde vamos encontrar duas inserções de Sabiá. Outro foi o resgate do documentário Chico, Retrato em Branco e Preto, de Flavio Moreira da Costa, o primeiro feito com o compositor. O filme está na íntegra no site-livro, assim como o cubano Siembro Vento en mi Ciudad, de Fernando Pérez, que mostra Chico em 1978 fazendo shows, criticando a absorção dos artistas pela televisão e jogando bola em Havana.

A presença da música buarqueana em filmes estrangeiros é outro ângulo pouco conhecido de seu perfil. Numa cena do documentário Chico, Artista Brasileiro, de Miguel Faria Jr., Chico está na Alexanderplatz de Berlim e comenta, divertido, ter descoberto que A Banda tinha uma versão em alemão. Não sei se ele sabia – ou lembrava – que a canção já era ouvida numa certa comédia alemã de 1969, intitulada Klassenkeile (literalmente, surra aplicada por colegas de classe). Na cena, alunos da aula de Química experimentam uma bebida no laboratório, ficam bêbados e cantam um paródia de A Banda, adaptada à situação escolar.
Esse é talvez o exemplo mais picaresco do sucesso internacional daquela música de letra extremamente cinematográfica, que foi traduzida em diversas línguas. Mas não é a única “aparição” de uma canção de Chico no cinema estrangeiro.
Tantos mares
A comédia francesa Maine Ocean, de Jacques Rozier, tem o choro Meu Caro Amigo (Francis Hime e Chico) tocado nos créditos e parcialmente cantado por uma personagem. Por sua vez, Delphine Gleize escolheu Valsinha como tema da personagem central de Estranhas Ligações (Carnage), uma mulher grávida de quíntuplos. Nada, porém, foi mais exótico que o Samba de Orly (letra de Chico e Vinicius de Moraes) soando no tosco gringo-movie italiano A Fera Carioca (Carioca Tigre).
Três documentários portugueses recorreram às canções “lusitanas” de Chico. Outro País, de Sérgio Tréfaut, incorporou Tanto Mar e Fado Tropical. Tanto Mar motivou todo um documentário como resposta portuguesa, Meu Caro Amigo Chico, de Joana Barra Vaz, e compareceu ainda no animadoc Que Dia é Hoje?, curta realizado por um coletivo juvenil português sobre reminiscências da ditadura salazarista. A também portuguesa Teresa Villaverde botou a protagonista do drama Água e Sal devorando ostras apropriadamente ao som de O que Será.
Água e Sal tem um pouco mais de Chico Buarque: ele faz um pequeno papel como “o amante” da moça principal. Não fala quase nada, e sua postura e expressão facial endossam a opinião geral de que o moço não nasceu para ser ator. Assim mesmo, já fez diversas participações, quase sempre como uma espécie de variação de si mesmo. Além de Julinho da Adelaide (seu pseudônimo para fugir à censura da ditadura), ele foi Noel Rosa em O Mandarim, de Julio Bressane, um compositor assediado pelas mulheres em Quando o Carnaval Chegar, um disfarce do personagem central de Ed Mort, um fã metalinguístico do seu próprio livro em Budapeste e ele mesmo em Garota de Ipanema. Todas essas hilárias atuações podem ser conferidas no site-livro.

Das páginas e do palco
Mais desafiador para um cineasta do que fazer Chico interpretar diante da câmera é adaptar seus escritos para o cinema. Nos seus livros, Chico opera com a indiferenciação entre discurso direto e indireto, entre passado e presente, realidade e suposições, prismas e espelhamentos em que o real se confunde com o simples pensamento. Assim mesmo, cinco diretores e roteiristas já se lançaram à aventura.
O baiano Edgar Navarro transpôs para a esfera dos humanos a alegoria bovina de Fazenda Modelo no curta Lin e Katazan, pequeno tratado sobre a opressão e a resistência. Ruy Guerra levou às telas o delírio paranoico de Estorvo em todo o seu experimentalismo. Por sua vez, Monique Gardenberg combinou fidelidade e subversão para adaptar Benjamin, tornando mais objetivas e lineares muitas coisas que no livro são subjetivas e intrincadas. Felipe Cataldo também se apropriou do personagem em Benjamin Zambraia e o Autopanóptico, filme que retoma procedimentos do Cinema Marginal brasileiro.
Walter Carvalho explorou as intertextualidades e a logofilia de Budapeste no filme homônimo, inclusive escalando o próprio Chico para o papel de um fã de José Costa, o autor do livro-dentro-do-livro-dentro-do-filme. Para breve, espera-se a anunciada transposição da autoficção Bambino a Roma para o cinema por Miguel Faria Jr., autor do documentário Chico – Artista Brasileiro.
Outro anúncio auspicioso é o de Fabio Meira, que estaria preparando uma adaptação da magistral peça Gota d’Água, o que espantosamente ninguém ainda tenha feito. Mas Morte e Vida Severina, deslocada do poema de João Cabral de Melo Neto para o palco nos anos 1960, chegou aos cinemas e à televisão em duas adaptações famosas. Ruy Guerra, depois de dividir com Chico a criação da proibidíssima peça Calabar – Elogio da Traição, dirigiu a bela transposição cinematográfica de Ópera do Malandro. Esse filme conta com 16 canções de Chico Buarque, algumas criadas especialmente para o cinema.
O Grande Circo Místico, peça inspirada em poema de Jorge de Lima e com músicas de Chico e Edu Lobo, ganhou uma versão fílmica muito caprichada de Cacá Diegues. Já o público infantil pôde se divertir com duas apropriações da peça Os Saltimbancos pelo quarteto Os Trapalhões. Espera-se agora a animação prometida pela Disney com direção de Carlos Saldanha.
O cinema em letras
Se tanta coisa de Chico Buarque já foi parar no cinema, resta saber quanto de cinema existe na obra do rapaz. Eu repassei todas as suas letras em busca de referências ao cinema e concluí que os filmes costumam ser metáforas de encantamento, mas também signos de um mundo ilusório, à parte da realidade. O cinema pode ser associado a uma forma de amar, pode ser artifício, ilusão ou fingimento. Pode ser motivo de maravilhamento ou simples coisa prosaica como gilete, kibon, lanchonete ou neon.
Na literatura, o cinema também se faz presente, e não apenas em citações ao universo cinematográfico, mas também no uso frequente de procedimentos típicos dos filmes. A descrição das ações é frequentemente decupada como numa montagem de cinema, às vezes seguindo o olhar de um personagem. Há narrativas paralelas, trânsitos velozes entre passado e presente, assim como entre realidade, sonho e imaginação. O ponto de vista pode passar de alguém que observa para alguém que é observado, como na alternância de campo e contracampo. Chico não nega que seus escritos têm muito de cinematográfico.
Bambino a Roma, em especial, trata amplamente das lembranças de cinema na adolescência romana de Chico, misturando o verídico com possíveis voos de fantasia. É onde cabe mais do que nunca a expressão italiana “Se non è vero, è ben trovato”.
Todas essas alusões ao cinema, seja como fato, seja como linguagem, estão esmiuçadas nos devidos capítulos do site-livro Chico Buarque – Ele Faz Cinema. Esse meu trabalho pretende deixar claro que os filmes não são nada desprezíveis quando se pensa nesse conjunto de invenções e observações sobre a vida brasileira que constitui o planeta Chico Buarque.
Site-livro CHICO BUARQUE – ELE FAZ CINEMA de autoria de CARLOS ALBERTO MATTOS, disponível para acesso gratuito: https://www.chico-cinema.com