sábado, 12 de setembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
ENTREVISTA

Antonio Carlos Secchin, a entrevista

A entrevista da semana da Revista Lume
WhatsApp

A precisão cirúrgica da palavra e a paixão inabalável pelas letras são os pilares que sustentam a trajetória de Antonio Carlos Secchin. Imortal da Academia Brasileira de Letras e Professor Emérito da UFRJ, Secchin consolidou-se como uma das mentes mais brilhantes, sofisticadas e multifacetadas da cultura nacional contemporânea. Dono de uma destreza incomum, ele habita com naturalidade um tenso e fascinante território de fronteira: de um lado, o rigor analítico do ensaísta e crítico literário — autor de estudos definitivos sobre João Cabral de Melo Neto e Machado de Assis; de outro, a inventividade livre do poeta premiado que desafia os limites do próprio texto em obras consagradas como Todos os Ventos e Desdizer. Há quem enxergue a crítica e a criação poética como campos opostos, mas, para Secchin, ambas as frentes são manifestações de um mesmo e rigoroso compromisso com a potência da linguagem.

Definido no meio literário como “um formalista na transgressão”, ele equilibra um currículo acadêmico impecável, construído também em cátedras de universidades internacionais como a Sorbonne, com o espírito curioso de um eterno caçador de raridades. Como um dos maiores bibliófilos do país, Secchin possui o raro talento de rastrear e resgatar preciosidades esquecidas da nossa história cultural, costurando o passado profundo ao pulsar do tempo presente. Longe de se isolar em uma torre institucional, o autor demonstra uma agudeza singular ao observar as transformações da arte na era digital, analisando a migração do discurso poético para as telas e as novas mídias sem jamais perder de vista a eterna busca pela beleza e pelo lirismo.

Ao recebermos Antonio Carlos Secchin na Revista Lume, abrimos espaço para uma viagem fascinante pelos bastidores do fazer artístico. Nesta entrevista exclusiva, o mestre da palavra compartilha sua vasta bagagem intelectual e reflete, com a ironia e a erudição que lhe são peculiares, sobre os rumos da crítica de arte, os mistérios da criação poética, o mercado dos livros físicos frente ao avanço tecnológico e a urgência de desajustar certezas para dar voz ao que há de mais humano na literatura.

Frederico Machado: Secchin, você passou quase uma década acumulando esboços para, em um fôlego concentrado de poucos dias, dar forma a Desmentir. Como funciona o amadurecimento silencioso desse “estoque” poético que, de repente, exige vir à luz de maneira tão urgente?

Antonio Carlos Secchin: Eu próprio gostaria de entender e administrar melhor os ritmos, no meu caso, arbitrários, da criação literária. De modo esquemático, diria que, quando estou no comando, sou moroso; mas quando é o poema que toma a iniciativa e me leva, ele se torna quase urgente. Mais ou menos o que consta de “Biografia ”:

O poema vai nascendo 
num passo que desafia: 
numa hora eu já o levo, 
outra vez ele me guia. 

O poema vai nascendo, 
mas seu corpo é prematuro,  
letra lenta que incendeia 
com a carícia de um murro. 

O poema vai nascendo 
sem mão ou mãe que o sustente, 
e perverso me contradiz 
insuportavelmente. 

Jorro que engole e segura 
o pedaço duro do grito, 
o poema vai nascendo, 
pombo de pluma e granito. 

Frederico Machado: É inevitável notar um jogo conceitual e estético entre os títulos dos seus livros recentes: Desdizer (2017), Desmentir (2026) e, logo na sequência, Desconotar. Esse prefixo de negação ou reversão (“Des”) aponta para uma insatisfação com os discursos prontos ou seria uma busca por despir a palavra de suas certezas artificiais? 

Antonio Carlos Secchin: Ambas as alternativas, mas digamos que não há exatamente simetria nesses três empregos do prefixo de negação “des-“. No primeiro vejo, efetivamente, a poesia como o espaço de dissolução  de dizeres anteriores – porém   o que a poesia diz , ao desdizer o já dito, deve, por seu turno, também ser desdito adiante, noutros textos, para que não se cristalize como pretensão  de “verdade”. Já em “Desmentir” ocorre algo curioso: às vezes se desmente algo  não para estabelecer a “verdade”, e sim para inocular a “mentira”,  que simula ser a “verdade”  do desmentido, passando  longe disso. Se podemos desdizer para dizer não ao dizer, podemos, por outro lado, desmentir para exatamente dizer sim à mentira. Já  o “desconotar” é neologismo. A poesia se alimenta da conotação. Mas quem sabe, num flerte com o humor, ela também pudesse vigorar num rigoroso  retorno à denotação? Então, trabalhei com  famosas metáforas da poesia brasileira, representadas  por fotos que as devolvessem a uma pretensa e radical literalidade. Nenhum verso é meu, nenhuma foto é minha (vieram da IA), mas torno-me o “autor” dos textos aos esvaziá-los da carga metafórica, e trazê-los ,   via imagem,  ao plano da máxima desconotação. 

Soneto mentiroso

Fala de poeta não merece crédito.
Ficar de fora é seu constante ofício.
Sua sina é continuar inédito, 
mesmo que fale em   meio de um   comício.
Palavra de poeta pede médico
para tentar não acabar no hospício, 
na busca de não ser enciclopédico,
nem vacilar no vão de um  precipício.
Pouca certeza é o máximo horizonte,
no prazer de mentir sobre a mentira,
e nada existe que ele não desmonte,
feito um farsante contra a própria lira.
     Resta-lhe apenas com sinceridade
     mentir, sobre o vazio da verdade.

Frederico Machado: Em Desmentir, você traz o verso: “Vida, te agradeço. Setenta anos / e ainda em recomeço”. Ao mesmo tempo em que a maturidade costuma ser associada ao peso da tradição, sua poesia parece brincar com o frescor do viés irreverente do primeiro modernismo e da poesia marginal. Como é conquistar a “juventude estética” na maturidade, driblando o preconceito etário na literatura?

Antonio Carlos Secchin: Alguém já disse que em poesia juventude é algo que só se atinge depois de muitos anos. Persigo essa renovação constante, investindo na leveza, na simplicidade,  que não é  o mesmo do que  simplificação. Mas uma leveza e espontaneidade conquistadas com muito trabalho, sem nunca abdicar da  consciência formal.

Poema promíscuo

Disseram que voltei muito mecanizado,
com ritmo correto, muita rima rica,
que não tolero nada que não seja aquilo 
que seja exatamente o que o Bilac dita.

Disseram que com a forma estou bem preocupado,
e corre por aí, com a maior certeza, 
que muito pouco vale tanta velharia 
de alguém que ainda pensa em produzir beleza.

Não sei o que o futuro guarda de armadilha,
porém não vou ficar parado, e prisioneiro
de quem, pajé pujante em sua antiga   taba, 
dali pretende governar o mundo inteiro.

Pra cima da poesia não vale esse veneno, 
que já destila seu sabor de cianureto.
Enquanto a tribo grita “Por aí não passa”,
passa um poema concreto ao lado de um soneto. 

Frederico Machado: Você dedicou mais de duas décadas ao estudo minucioso da obra de João Cabral de Melo Neto. Sendo o Cabral o poeta da precisão, do “faca só lâmina”, de que maneira essa convivência crítica exaustiva influenciou — ou desafiou — a expansão do seu próprio lirismo e do humor em sua poesia? 

Antônio Carlos Sechin: Costumo dizer que estudei muito João Cabral para conhecer em minúcia uma admirável máquina de linguagem que contém tudo aquilo que eu não devo fazer – pois ele já o fez, de maneira superior, e o pastiche não sai melhor do que o original. Dele conservo as lições do rigor, do repúdio ao lugar-comum, da clareza, mas dirigidas a outros alvos. O humor em Cabral é relativamente escasso. Ele jamais escreveu um soneto. Embora, esclareça-se, tenha sido um obsessivo cultor das formas fixas, num projeto estético bem distanciado do verso livre modernista.

A um poeta
Há poemas que transportam
num tapete rente ao chão.
Poemas menos que escritos,
bordados, talvez, a mão.

Outros há, mais indomados,
que são contra e através,
coisa arisca e tortuosa,
versos quebrados pelos pés.

E há poemas muito impuros,
onde não vale a demão.
Deles brotam versos duros,
poemas para ferro e João.

Frederico Machado: Você já declarou que lê os grandes clássicos para aprender o que não deve mais ser feito, já que eles o fizeram perfeitamente. Em um ecossistema cultural que muitas vezes mimetiza o passado ou idolatra o pastiche, como o escritor contemporâneo pode usar a herança literária para a reinvenção, sem se deixar soterrar pelo peso dos mestres? 

Antonio Carlos Secchin: Esse é o grande desafio. Nem perpetuar o passado, via pastiche, nem demoli-lo, via paródia – ambos, recursos facilitadores da escrita. Adesão irrestrita, num caso,  demolição compulsória, no outro. O texto-matriz é totemizado e comanda seus (sub)produtos, ainda que, no exemplo da paródia, ela surja, como na letra de Chico Buarque, “adorado pelo avesso”. O equilíbrio estaria talvez na compreensão crítica do passado, sem perpetuá-lo em versões edulcoradas e sem a obrigação de negá-lo na totalidade. Foi o que tentei, por exemplo, em “Sete anos de pastor”:

Penetro Lia, mas Raquel me move, 
faz meu corpo encontrar toda alegria. 
Se tenho Lia, a pele não navega 
em nada além de nada em névoa fria. 

Sete anos galopando em Lia e tédio,  
sete anos condenado ao gozo escuro.  
Raquel me tenta, e se me beija Lia 
a boca é não e  minha mão é muro. 

Labão, o puto, perdoai-me esse instante,   
adoro a dor que doer em minha amante. 
Vou cravar-lhe um punhal exausto e certo, 

doar seu sangue ao livro e à ventania.  
Quieta Lia será terra em que os cavalos 
vão pastar, sob a serra e o deus do dia.

Frederico Machado: Como um dos grandes bibliófilos do país, cercado por raridades e primeiras edições históricas, o senhor convive diariamente com o livro em sua dimensão física, quase sagrada. Diante da desmaterialização da literatura e da leitura hipertextual em telas, o que se perde e o que se transforma na nossa relação profunda com a palavra impressa?

Antonio Carlos Secchin: Perde-se pouco no chamado “conteúdo” da obra, mas perde-se muito das informações paratextuais que também agregam camadas suplementares de sentido ao texto, nas ilustrações originais (nem sempre reproduzidas), nas dedicatórias manuscritas (que podem revelar os jogos do poder literário) e até no papel utilizado para a impressão da obra. No simbolismo, por exemplo, a concepção de literatura como uma espécie  de “religião do Verbo” levava à edição de tiragens pequenas, em papel especial, para que a circulação da Poesia, com “p” maiúsculo, ficasse mesmo restrita a poucos e refinados eleitos. Esses elementos  não se materializam nas versões eletrônicas. Por isso existem bibliófilos, mas não existem e-bookófilos. Escrevi um soneto em louvor da bibliofilia: 

“Com todo o amor...”
Com todo o amor de Amaro de Oliveira.
São Paulo, 2 de abril de 39.
O autógrafo se espalha em folha inteira,
enredando o leitor, que se comove, 

não na história narrada pelo texto,
mas na letra do amor, que agora move
a trama  envelhecida de outro enredo,
convidando uma dama a que o prove.

Catharina, Tereza, Ignez, Amalia?
Não se percebe o nome, está extinta
a pólvora escondida na palavra,

na escrita escura  do que já fugiu:
perdido entre os papéis de minha casa,
Amaro amava alguém no mês de abril.
Antonio Carlos Secchin – Foto: Fernando Rabelo

Frederico Machado: Você aponta com frequência uma fragmentação nociva no discurso crítico atual: de um lado, uma academia por vezes pedante e de vocabulário hermético; de outro, o espaço da grande mídia ou das redes, tomado por resenhas que se confundem com releases publicitários. Onde foi parar a crítica literária que consegue ser profunda sem ser excludente?

Antonio Carlos Secchin: Talvez nos ensaios independentes, nem a resenha-release digestiva e laudatória, nem o emaranhado terminológico de parte do discurso universitário, que afasta o leitor comum. Simplificação e hiperespecialização são chaves opostas de um mesmo problema. Mas, num ou noutro campo, constato que a literatura como forma peculiar de linguagem tem cedido espaço à discussão de conteúdos do que pode (ou não pode) ser alvo de valorização. 

Frederico Machado: Você mencionou certa vez que “todo autor é uma invenção de seu leitor”. Pensando no papel da crítica e das revistas culturais, o senhor acredita que o público contemporâneo perdeu a capacidade de tensionar o texto, preferindo o consenso rápido das bolhas digitais? 

Antonio Carlos Secchin: Sim, há o risco der falarmos apenas para os semelhantes, num jogo infinito de espelhos.  Quanto mais o texto atende a expectativas prévias,  mais ele será celebrado, o que deploro, ao considerar que função do literário não é apenas dizer (mesmo o politicamente  correto), mas desdizer,  encontrar as frestas para questionar unanimidades. Se à literatura, entre outras funções, cabe a multiplicação, não a reiteração, de sentidos, é assim que podemos desejá-la. E tal multiplicação eclode nas leituras que  suscita – daí o autor ser invenção ou consequência de seu leitor.  

Frederico Machado: Na sua trajetória, você transita com naturalidade por universos de alto rigor estético, mas também preserva um olhar arguto para manifestações populares e de forte apelo lúdico, como o seu livro infanto-juvenil Galo Gago. A divisão entre “alta cultura” e “cultura de massa” ainda faz sentido para o intelectual de hoje ou as fronteiras finalmente se dissolveram? 

Antonio Carlos Secchin: Se não se dissolveram, trata-se de discursos com fronteiras cada vez mais esgarçadas e porosas a recíprocas infiltrações. Como você observa, tenho experiências que podem ser situadas em um ou outro polo, mas que, na verdade, habitam os dois: 

Repente
Desfaço mau-olhado em meia-hora,
amanhã trago o amor que escapuliu.
Mostro o pau com que sei matar a cobra,
e mato a cobra em troca de três mil.

Por quatro mando a chuva pra lavoura,
por sete vou nevar em céu de anil,
por dez eu escureço a claridade,
e o sol já vai brilhar por vinte mil. 

Por quarenta na mão lá vem dilúvio,
o preço de sessenta inclui trovão.
Para acalmar a fúria do divino,
trinta a vista e cinquenta a prestação.

Não reclame do  preço que lhe peço,
Deus me cobra uma santa comissão.
Da cobra eu fico só com o veneno,
e da neve, um chumaço de algodão.

Só consigo enxergar a claridade
quando dou de beber ao lampião, 
e apago minha sede em conta-gotas
quando acende o holofote do verão.

Reles faquir sem carteira assinada,
mero cantor de uma fome sinfônica,
sou passageiro que chega ao inferno
em voo lotado e na classe econômica.

Frederico Machado: Para encerrar: a poesia e a grande arte sempre operaram como termômetros invisíveis das tensões de seu tempo. Em uma época saturada por ruídos e certezas instantâneas, qual você diria que é a principal função política e humanista do “desmentido” poético na sociedade atual?

Antonio Carlos Secchin: Antonio Cicero enfatizava  o tempo que a leitura do poema solicita – lento, introspectivo, em oposição  a  uma urgência e a uma premência que não se sabe direito aonde conduzem. Essa utópica habitação da pausa, da solidão, do silêncio, na contracorrente do alarido universal, e no desprezo à demanda imediata, me parece algo a ser levado em alta conta.

Soneto da exclusão

Meu incerto leitor, eu agradeço
as horas que perdeu nesta leitura.
Lá fora a vida aflora em recomeço,
não precisa invadir minha clausura.
Empilhados na torre agora vejo
catorze decassílabos de altura. 
Leve tudo o que dita o seu desejo,  
e todo o resto é só literatura.
Dá tempo ainda para ir embora,
caso aceite botar ponto final. 
Peço que saia sem maior demora,
Ganhe em troca um silêncio glacial.
     Não gostou nem da forma nem do tema? 
     Me deixa em paz, vai atrás de outro poema.

NEWSLETTER EDITORIAL

Uma seleção criteriosa dos melhores ensaios, críticas e criações entregue semanalmente no seu e-mail.

NOTA EDITORIAL & ISENÇÃO DE CRIAÇÃO: Os textos, opiniões, ensaios e criações publicados nesta página são de responsabilidade exclusiva de seus respectivos autores, não refletindo necessariamente a opinião da Revista Lume. Saiba mais em nossa página de Isenção de Responsabilidade.
100%