Que decepção. Há uma armadilha na obra de Julia Ducournau que Alpha, seu terceiro longa, exibido na competição de Cannes em 2025, não escapa: a confusão entre intensidade e profundidade. Desde a Palma de Ouro de Titane, em 2021, consolidou-se um consenso crítico de que estamos diante de uma das grandes autoras do cinema de horror contemporâneo. Discordo. E Alpha só confirma uma suspeita que já vinha de longe: a de que Ducournau é, antes de tudo, uma cineasta do choque — e que o choque, sozinho, cansa rápido. Inconsequente, um filme com uma estética de videoclip que machuca a linguagem cinematográfica.
A protagonista é uma garota de treze anos (Mélissa Boros) que mora com a mãe médica (Golshifteh Farahani). Uma tatuagem malfeita, feita numa festa, detona o pânico: uma doença misteriosa transforma a pele em mármore e se espalha de um jeito que ecoa, sem nomear, a experiência da AIDS nos anos 1980. Some-se a isso o retorno do tio viciado (Tahar Rahim), cujo corpo em deterioração funciona como contraponto ao medo da garota. É material rico — mas Ducournau parece confiar que a mera acumulação de imagens fortes (a pele que se mineraliza, o corpo que apodrece) basta para produzir sentido. Não basta. É um filme programado para festivais de cinema, com essa intenção unicamente.

É esse o problema que atravessa toda a carreira dela, na minha leitura, e que aqui simplesmente fica mais evidente pelo tamanho da ambição: um esteticismo que se apresenta como transgressão, mas que na prática esvazia o que deveria doer. Em Titane, a transformação da mulher em máquina era vendida como revolução de linguagem, quando funcionava sobretudo como imagem de impacto sem consequência dramática real. Enganou muita gente. Em Alpha, o mesmo mecanismo se repete em escala maior: o filme estica um drama familiar, uma fábula sobre epidemia e uma quase-alegoria sobre herança e luto, sem nunca decidir qual desses fios merece de fato ser puxado. O resultado é uma sensação de vazio no centro do filme — como se toda aquela violência estética estivesse ali para preencher a ausência de uma ideia mais firme sobre do que o filme, afinal, está falando.
É por isso que prefiro, sem hesitar, Grave (ou Raw, seu primeiro longa) a tudo que ela fez depois. Menos badalado, menos armado em torno do próprio escândalo, Grave tinha a vantagem de um horror mais contido, ancorado numa personagem cujo apetite canibal nascia de um processo de individuação reconhecível — o corpo como lugar de descoberta, não como palco de espetáculo. Faltava a esse filme a pompa de festival que Ducournau conquistaria depois, mas sobrava a ele algo que os seguintes foram perdendo pelo caminho: a disposição de deixar o horror significar algo além de si mesmo.

O paralelo mais revelador, aliás, é quando falamos de outros cineastas do choque, como David Cronenberg — do qual a cineasta Ducournau é claramente herdeira – e aí a distância de qualidade fica gritante. Em Cronenberg, a mutação do corpo nunca é gratuita: em A Mosca, a decomposição física de Seth Brundle é também a decomposição de uma relação amorosa e de uma certa fé iluminista no progresso científico; em Videodrome, a carne que se funde à tecnologia é veículo de uma tese sobre mídia, poder e alucinação coletiva; em Crash, o fetiche pelo acidente automobilístico organiza uma reflexão fria sobre desejo e modernidade. O choque, ali, é sempre subordinado a uma ideia que o justifica e o ultrapassa — o corpo deformado como consequência lógica de um pensamento, não como fim em si. Ducournau parece ter absorvido apenas a superfície desse cinema: a imagem chocante, a textura visceral, o gosto pelo abjeto — sem herdar a arquitetura conceitual que fazia esses elementos significarem algo. Em Alpha, a pele que vira mármore poderia ser uma ideia poderosa sobre estigma e memória; em vez disso, funciona como efeito visual à espera de um filme que a sustente.
Golshifteh Farahani segura o que pode segurar — há um cansaço genuíno em sua atuação como mãe que tenta proteger a filha de um mundo que já decidiu temê-la —, mas mesmo essa atuação é engolida por um filme que parece mais interessado em compor imagens de sofrimento do que em habitar esse sofrimento com paciência. Tahar Rahim, capaz em outros papéis, aqui existe quase só como função simbólica: o adulto-espelho, o futuro sombrio da protagonista.

No fim, Alpha confirma uma trajetória superestimada: a de uma cineasta cuja reputação de ousadia mascara um completo vazio, coberto por camadas de estética chocante que impressionam no instante e não deixam quase nada depois. É um filme longo demais para o que tem a dizer, e vistoso demais para disfarçar isso.