quarta-feira, 4 de novembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
CRÍTICA

O cremador, de Juraj Herz

Um testemunho pungente da sua própria época e do destino trágico da Tchecoslováquia.
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NOTA DA CRÍTICA Conselho Editorial • Revista Lume
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Lançado no ápice do florescimento estético e da posterior sufocação política da Primavera de Praga, O Cremador (Spalovač mrtvol, 1969), dirigido por Juraj Herz, permanece como um dos longas-metragens mais perturbadores e vanguardistas do cinema moderno europeu. Adaptado da novela homônima de Ladislav Fuks, o filme transcende as fronteiras tradicionais dos gêneros cinematográficos ao articular uma sátira política mordaz revestida por uma atmosfera de horror psicológico gótico e Expressionismo Alemão. No centro desta engrenagem macabra está Karel Kopfrkingl, funcionário exemplar de um crematório na Praga do final dos anos 1930, cuja transição da domesticidade burguesa pacata para a cumplicidade com a máquina de extermínio nazista serve de espelho para as maiores tragédias morais do século XX. A obra de Herz não se limita a relatar os horrores históricos do fascismo; ela investiga a patologia psíquica do homem comum que, sob o manto da virtude autoindulgente e do misticismo distorcido, racionaliza a barbárie como uma forma de filantropia metafísica.

A genialidade de O Cremador reside fundamentalmente na construção psicológica de Kopfrkingl, interpretado com uma doçura repulsiva e hipnótica por Rudolf Hrušínský. Longe de ser desenhado como o monstro sádico arquetípico que o cinema frequentemente utiliza para personificar o mal histórico, Kopfrkingl é a própria encarnação da mediocridade civilizada. Ele é um abstêmio orgulhoso, um marido que professa devoção romântica à sua esposa “celestial” e um pai que zela obsessivamente pela educação cultural de seus filhos. Um espelho de muitos seres humanos dos dias de hoje, no Brasil e em muitas partes do mundo. E essa fachada de respeitabilidade pequeno-burguesa é o laboratório perfeito onde o horror se incuba. Através de seus monólogos incessantes, proferidos com uma voz suave e monocórdica que emula o tom de um terapeuta ou de um sacerdote morno, o protagonista revela uma obsessão doentia pela morte. Para ele, o crematório não é um local de luto, mas sim um templo de libertação onde a carne corruptível é acelerada em direção ao éter, limpando os pecados humanos e encurtando o ciclo de reencarnações budistas que ele tão erroneamente interpreta.

Essa bizarra fusão entre uma leitura deturpada do misticismo tibetano e o pragmatismo higienista da cremação pavimenta o caminho para a sedução ideológica nazista. Quando um antigo amigo de guerra, Walter Reinke, começa a infiltrar noções de pureza racial alemã na mente de Kopfrkingl, o protagonista não sofre uma crise de consciência; pelo contrário, ele encontra um alinhamento perfeito entre suas teorias esotéricas de “salvação pelo fogo” e a retórica de purificação social do Terceiro Reich. O mal, na narrativa de Herz, é apresentado como um vírus que se alimenta da vaidade e do desejo de importância social de um burocrata. A transição de Kopfrkingl de um pacífico funcionário público para um carrasco que denuncia vizinhos judeus e planeja o extermínio de sua própria família — por possuírem sangue judeu por parte de mãe — é filmada não como uma ruptura radical, mas como a evolução lógica e natural de seu delírio de grandeza moral.

Do ponto de vista filosófico, O Cremador funciona como uma das ilustrações cinematográficas mais perfeitas e radicais do conceito de “banalidade do mal”, cunhado por Hannah Arendt. Kopfrkingl é o equivalente estético de Adolf Eichmann: um homem incapaz de pensar criticamente fora das estruturas burocráticas e dos discursos prontos que validam sua existência. O horror emana não de uma maldade inerente ou de um sadismo visceral, mas da desconexão absoluta entre as ações brutais praticadas e a percepção que o indivíduo tem de si mesmo. Ao enforcar sua esposa ou golpear seu filho com uma barra de ferro no crematório, Kopfrkingl chora lágrimas de autêntica autocompaixão, convencido de que está realizando um sacrifício doloroso, porém humanitário, para poupá-los de um mundo sofrível. A violência é higienizada pela linguagem e pela burocracia, transformando o assassinato em massa em um processo industrial e espiritual de “limpeza”.

A linguagem cinematográfica empregada por Juraj Herz e pelo diretor de fotografia Stanislav Milota é um monumento de audácia formal que mimetiza visualmente a mente fragmentada e claustrofóbica de seu protagonista. O uso obsessivo de lentes grande-angulares e fish-eye deforma a geometria dos espaços e aproxima os rostos dos personagens da câmera de maneira invasiva e grotesca. Essa distorção óptica constante impede que o espectador encontre um ponto de equilíbrio ou conforto visual, espelhando a perversão moral que contamina o universo diegético. Os cenários, que variam entre a opulência barroca de feiras de curiosidades e a frieza expressionista das salas de necrotério, parecem constantemente fechar-se sobre os indivíduos, sugerindo que a sociedade inteira está presa em um caixão ou em um forno que aguarda a faísca final.

Outro aspecto revolucionário da arquitetura estética do filme é a sua montagem, realizada por Jaromír Janáček, que quebra as noções tradicionais de tempo e espaço através de cortes de associação contínua. É frequente que um monólogo de Kopfrkingl comece em uma cena familiar na mesa de jantar e termine, sem interrupção de sua fala, no plano seguinte onde ele examina um cadáver no crematório ou discursa em uma reunião do partido nazista. Esse fluxo de consciência visual anula as fronteiras entre o público e o privado, entre o doméstico e o institucional, demonstrando como a ideologia fascista colonizou inteiramente a psique do protagonista. A montagem atua como uma armadilha temporal, onde o futuro de destruição já está operando latente dentro do presente banal das conversas cotidianas.

A trilha sonora composta por Zdeněk Liška desempenha um papel fundamental na manutenção do tom satírico e macabro da obra. Liška justapõe valsas vienenses bucólicas, coros celestiais de beleza sublime e harmonias operísticas com imagens de corpos sendo preparados para a incineração ou de reuniões políticas sinistras. Essa dissonância cognitiva entre o que se ouve (uma celebração da alta cultura europeia) e o que se vê (o colapso moral e a preparação para o genocídio) expõe a falência das instituições culturais ocidentais frente à barbárie. A música não pontua o horror de forma convencional; ela o adorna, ironizando a pretensão de sofisticação de uma burguesia que se entrega voluntariamente ao fascismo enquanto aprecia uma bela melodia clássica.

A presença constante de duplos e alucinações visuais ao longo do filme sublinha a cisão esquizofrênica da narrativa. Kopfrkingl é frequentemente assombrado pela visão de uma jovem mulher silenciosa com trajes tradicionais, que funciona alternadamente como uma musa da morte, uma encarnação de sua consciência sufocada ou uma projeção de seus desejos reprimidos. Da mesma forma, as visitas recorrentes a museus de cera e exibições de horror sugerem que, para o protagonista, os seres humanos reais são intercambiáveis com bonecos inanimados prontos para serem catalogados e descartados. Essa coisificação do outro é o passo psicológico fundamental para que o genocídio se torne executável: quando o próximo deixa de ser visto como humano e passa a ser encarado como matéria descartável, o crematório se transforma na solução final definitiva.

Contextualmente, O Cremador é um testemunho pungente da sua própria época e do destino trágico da Tchecoslováquia. Herz, ele próprio um sobrevivente do campo de concentração de Ravensbrück, infundiu no filme uma urgência histórica baseada na experiência direta com o totalitarismo. Concluído pouco antes de os tanques do Pacto de Varsóvia esmagarem as reformas liberais da Primavera de Praga em 1968, o filme acabou banido pelas autoridades comunistas logo após sua breve estreia em 1969, permanecendo “na gaveta” por duas décadas. A censura soviética compreendeu, corretamente, que a crítica do filme à maleabilidade humana e à facilidade com que um cidadão se curva às ordens de um Estado totalitário era tão aplicável ao stalinismo burocrático quanto ao nazismo histórico. O filme, portanto, carrega o peso trágico de um aviso que foi sufocado no momento exato em que a história se repetia.

O Cremador de Juraj Herz é uma obra-prima porque recusa o conforto do distanciamento histórico. Ao focar na intimidade psicológica de Kopfrkingl, o filme nos lembra de que os regimes totalitários não são construídos apenas por monstros extraordinários, mas sim sustentados pela complacência e pela vaidade dos homens comuns que desejam a ordem a qualquer custo. Através de seu rigor formal extraordinário, de sua montagem disruptiva e de uma atuação lendária de Rudolf Hrušínský, o filme projeta uma sombra longa que alcança o presente. Trata-se de um espelho distorcido, mas assustadoramente nítido, que continua a alertar a humanidade sobre o perigo de confundir a retórica da purificação social com a virtude, demonstrando que os monstros mais perigosos são aqueles que nos estendem a mão com um sorriso suave e um terno impecável.

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