“O Cavalo de sol”, um dos romances icônicos da escritora portuguesa Teolinda Gersão, que vem em boa hora ser reeditado pela Porto Editora, traz em seu escopo narrativo a preocupação com os dilemas dos relacionamentos amorosos e impulsos dos afetos e da sexualidade, aí embutidas suas dicotomias e impossibilidades, num tempo em que os tabus eram fatores de interdição e/ou veto da felicidade, sobretudo numa sociedade regida por uma moral burguesa como a retratada nesse recorte de uma família do início do século passado, com suas idiossincrasias e condicionamentos. Nesse livro o texto fala mais por seus silêncios e insinuações do que pela linearidade de uma narrativa que coloque a nu as tensões que postula escandir. Como numa sequência de palimpsestos, o contexto vai se deslindando pelo não dito, pela contemplação de um mundo não visível, mas intuído, quando as palavras não carecem de dizer tudo, mas a atmosfera e a ambientação, entre o enigmático e o claustrofóbico, como esfinges a serem decifradas, é que norteiam as pistas para o leitor, no cipoal de controvérsias que vão surgindo. Enredando na trama entre os primos Jerónimo e Vitória, êmulo de uma história que carrega outras histórias, o casamento que se anuncia no espaço de uma Casa, e é nesse universo pequeno-burguês e patriarcal, movido por dogmas e sentimentos difusos, que a amada vai sendo consumida num joguete, entre marchas e contramarchas de Jerônimo, que parece nunca chegar ao deslinde da relação. Muitas são as camadas sobrepostas num universo que esconde contradições. Vitória se apresenta como o fetiche que ele vai arrastando socialmente, num amor confuso, entremeado de conflitos, transgressões ocultas e um erotismo camuflado numa sexualidade indefinida ou em desordem.

A história desenvolve-se num ritmo em que na harmonia entre forma e conteúdo, a simbologia dos movimentos do cavalo metaforiza-se nos capítulos – Passo, Trote, Galope, Salto – como se fossem a grande corrida numa disputa pela vida (ou contra a morte) ou as fases de um percurso no desconhecido, até o encontro com a fatalidade que a velocidade da emoção e os percalços dos desenganos vão determinar. Essa história poder se passar nos ermos de qualquer país, tanto num Portugal às margens do Tejo ou no interior alentejano, como no nordeste de um Brasil profundo e arcaico, pois carrega em si mesma a mitologia e o inconsciente histórico e social imerso em totens e especulações existenciais atávicos ao ser humano. E nisso reside não só o seu caráter de universalidade por contemplar questões encontradiças nas relações humanas, familiares, sociais desde o princípio dos tempos, mas a humanidade que os fatos guardam entre si, por serem tributários de nossas próprias trajetórias, em que dramas e dilemas comunicam-se numa ancestralidade que atravessa a cultura e os engodos do patriarcado. Vitória, que tem no cavalgar o prazer de seus próprios sentidos, o da busca, o da libertação dos guantes opressores que representariam o casamento compulsório com um primo. Sintomaticamente, esse cavalgar é indício do desejo de transgressão a uma autoridade, pois sobre a crina da insubmissão, a tentativa de escapar a conduz a territórios inexplorados. Órfã desde cedo, é absorvida na Casa da Cabeça de Cavalo, crescendo junto com o primo Jerônimo que, por implícito sortilégio é prometida ao casamento, vê-se ferida de morte em sua identidade e na autonomia como ser social e como mulher. Sorrateiramente, ela sabota essa imposição, reconhece-se afetada por ambiguidades insolúveis. É nas saídas para cavalgar que o poder dominador e narcísico de Jerônimo sobre ela é ameaçado, pois nas suas deambulações pelos campos o seu mundo imaginado não tem fronteiras, não há controle sobre seus pensamentos nem sobre seus gestos. Ela sabe que suas ambiçõees afetivas e sonhos, muitas vezes escamoteadas, constituem a energia propulsora de uma insubordinação redentora, pois o que mais almeja é poder “mergulhar no ribeiro, descer até ao fundo, e encontrar a cidade. Mesmo que tivesse de morrer por amor disso”. (pg. 59). E não pode alcançá-lo sem romper com as pressões intrínsecas ou extrínsecas que a demovem de seu intento.
No horizonte da cidade ela vai alimentar seu desejo de alforria, é é fora do alcance hierárquico da Casa da Cabeça de Cavalo onde pode promover a ruptura com velhos padrões: não quer mais ser objeto de manipulação nas mãos do primo, nem ser fera adestrada pelos seus caprichos; ou continuar inerte e apagada, ser violentada pela negação. Rejeitando o papel de caricatura de uma vida que não chegou a ser o que planejara, não se conforma em transformar-se em um ser opaco, como aquele inseto fossilizado preso numa pedra de cristal, aquela que lhe foi oferecida como anel de noivado. Por isso cavalga. Confronta-se, não apenas digladia-se com seus temperamentos que se chocam, mas com a realidade do entorno, onde outras figuras vão intercedendo nas relações, como o jovem Amaro, seu outro amor, que tem dissenções com Jerônimo. Este, por sua vez, mantém um affair com a jovem Melícia, viúva e de comportamento reservado. Jerônimo caminha dividido entre o amor por Vitória e um afeto clandestino em relação a Amaro que, ao fim e ao cabo, será desvendado pela própria Vitória, ao reconhecer, em meio à confusão que nele habita, um embate esconso, um ser com uma neblina, animal acossado pela luz e presa de si mesmo e de seus instintos e preconceitos, “porque a tristeza fazia parte dele como uma ruga na fronte, uma ferida oculta em que ele jamais deixaria alguém tocar.” (pg. 81). No deslinde da história, ao fugir da opressão, como um Sísifo a carregar sempre a mesma pedra, num gesto de autoimolação como Prometeu acorrentado no terreno das emoções pantanosas, para escapar das imposturas de um cárcere psicológico e jogar-se na última arena que aguardava, é quando o último movimento do cavalo ensaia o salto para a libertação, no desespero por desatar algemas e romper as amarras que o prendiam a um segredo que o desestabilizava, diz a narradora: Incauto, no meio do outeiro, ele era a presa. Desprevenida e cercada. Porque era ela, e não ele, a caçadora – avançava inexorável como o sol, acirrava os seus próprios cães contra ele, e eles dilaceravam-no, e o seu corpo desmembrado era espalhado aos quatro ventos – mãos, pés, braços, sexo, cabeça, tronco, pedaços soltos, perdidos por valados e montes – ela lançava luz nos seus olhos e forçava-o a enfrentar o que ele nunca aceitaria ver – que detestava as mulheres e não queria nenhuma. Por isso teria de morrer, soube. Ela avançava contra ele e trazia-lhe a morte, trazia-lhe a morte no instante em que o sol nascia. Assim Amaro o viu: caído por terra, manchado pelo sangue do tiro que dispara contra si, os olhos voltados para o sol e abertos. (pg. 187) E como tudo podia ser escandido a partir de uma frase que Jerônimo um dia, sentado à mesa, escreveu – “Toda a minha vida foi um equívoco” (pg. 173) – assim, em seu rompante alucinado, no último e avassalador gesto, culmina o salto sem trapézio sobre o abismo – este é espelho de seu vazio existencial – e como se incorporasse as asas de Ícaro, o cavalo derrete-se sob o sol inclemente da verdade.
Eis um livro no qual a autora realiza uma tessitura do que é a própria vida entremeada no doméstico e no urbano, com suas contingências, condicionamentos e dissimulações. Uma história que em sua estrutura fragmentária é atravessada por recortes de cenários exteriores e expansões do espírito e do pensamento dos personagens, no contraponto entre luz e sombra, entre paradoxos e possibilidades muitas vezes arregimentados ao ritmo do fluxo de consciência e da memória. A linguagem que se instaura entre a leveza e a densidade, no apuro da forma e na decodificação de seus signos, vai traçar o perfil de uma vivência entre muros, numa Casa que é símbolo das lutas internas, da problematização das instabilidades interpessoais, de subjetividades conflagradas, domicílio onde as angústias íntimas são prementes, em que valores rígidos contrastam com desvios e instintos reprimidos, em que fantasmas e obsessões, antagonismos, contradições e ambivalências forjam um retalho de antíteses, de inviabilidades, de inadequações entre os seres em seus espaços geográfico e familiar, tudo caminhando para o desfecho numa ruptura trágica. Nessa escrita visceral “O cavalo de sol” coloca-nos diante de uma autora que radicaliza não só sua reflexão sobre os destinos do ser em seu tempo e em seu lugar, com seus desejos, suas crises e seu desconforto, suas fissuras, escalonamento de valores e mimetismos morais que às vezes recusam a liberdade, mas também é uma escrita preocupada com a função da própria arte em tempos tão distópicos e disruptivos. E no seu empenho pela linguagem, podemos dizer que, entre o rigor técnico e o experimentalismo, renova e inova sem desprestigiar a tradição, confere a ela um estatuto primordial, elevando-a a um extremo virtuosismo. Teolinda provoca no leitor aquela sensação já descrita por Roland Barthes, para quem “A linguagem é como uma pele: com ela eu contacto os outros. Eu me interesso pela linguagem porque ela me fere ou me seduz.”

Somos alcançados pela sensibilidade criadora de Teolinda naquilo que ela empresta de mais impactante à linguagem, seja na clave intimista na arquitetura de uma trama, seja na formatação de seus processos criativos ou na inventividade propulsora de símbolos e metáforas. Pois transcende o mero registro ficcional, ultrapassa o requinte das enunciações e o flagrante dos detalhes do quotidiano social e minudências do humano ao transformar o trivial ou corriqueiro em alta literatura e em indagação metafísica. Na sua rigorosa oficina, na qual maneja com sofisticação os artefatos narrativos, com simplicidade e clareza persegue todas as possibilidades de comunicação da palavra. O que ressalta nessa gestação fecunda de sua lavratura é que não há contradição, mas uma profunda simbiose entre o dionisíaco e o apolíneo na sua hsitória, que incopora uma dialética criadora. Aqui, o prazer e a emoção que nasce da sua engenharia textual sob o influxo do próprio caos subjacente às percepções ou experiências sensoriais, funde-se com a racionalidade de uma consciência ética e estética do próprio ato criador, uma necessidade ontológica de explicitar o que está submerso não no mundo do real e aparente, mas nos subterrâneos dos sentidos. Na beleza do que Teolinda cria emerge a responsabilidade de um texto que também é um compromisso com a verdade, seja ela pessoal ou social, do qual a literatura é tributária da imanência das ideias. E a au tora, na força gravitacional de sua escrita, ao dar voz aos sentimentos acutilantes de seus personagens, à espessura de suas angústias, no vigor exploratório de tantos mundos lúdicos ou oníricos, de outros cenários, conflitos, dores & delícias, esse prisma de inquietações que contornam o terreno subjetivo das escrevivências – seja no seu interior ou no mundo físico de suas criaturas e protagonistas – realiza aquilo que sempre estamos a prospectar, no vórtice do insondável, no iceberg de nossas mais esconsas perplexidades: lança suas bateias para garimpar nas profundezas desse aluvião que simboliza o imaginário individual ou coletivo, nas mais remotas evidências do que é o ser em suas relações, um reduto para um olhar transcriador.
Vale assinalar que Teolinda Gersão, não só em ‘Cavalo de sol”, mas em sua multifacética bibliografia, escreveu livros amalgamados por uma intrínseca, exuberante e cristalina torrencialidade poética, em que percebe-se uma incessante busca, não de resposta aos contenciosos humanos ou passivos da realidade, mas à formulação de novos questionamentos, está a nos dizer, na mesma direção do que referiu-se Lacan em seu Seminário 20: “Escrevo a partir do que não pode ser escrito.“ 3 Essa é a energia vital que confere à sua literatura pertencer à linhagem de verdadeira obra de arte.
