quarta-feira, 4 de novembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
CRÍTICA

Rita Lee: Balada da Louca

Atriz e personagem: relação afinada
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Rita Lee: Balada da Louca, dirigido por Beatriz Barros, é um espetáculo sintonizado com as escolhas da atriz Lilia Cabral no teatro, tanto no que diz respeito à valorização de textos brasileiros quanto à conexão com obras marcadas pelo humor. Essa nova montagem, em cartaz no Teatro Prio, não pertence exatamente ao terreno da comédia. Aborda o período final, bastante dramático, da trajetória de Rita Lee, que descobriu um câncer e mergulhou em tratamento sofrido e desgastante que não levou à cura da doença. Mas o texto de Guilherme Samora, adaptado da autobiografia da cantora (Rita Lee:Outra Autobiografia), e a interpretação de Lilia Cabral destacam a leveza (na medida do possível, claro) com que a artista lidou com a tragédia. 

Lilia Cabral interpreta Rita Lee

A Rita Lee dessa encenação evidencia aproximações (e afastamentos) em relação a figuras da ficção feitas anteriormente por Lilia. É uma mulher em processo de transformação – vale lembrar das transições atravessadas pelas personagens de Divã, de Marcelo Saback, Maria do Caritó, de Newton Moreno, e A Lista, de Gustavo Pinheiro –, mesmo que em fase terminal, confrontada com a própria finitude. Ela administra o cotidiano, apesar de ter cada vez menos controle sobre o dia a dia, condicionado às regras do tratamento que, aqui e ali, burla, a exemplo da determinação em manter contato com seus animais de estimação. Uma característica da artista que, destemida, se opôs ao mainstream e afirmou, com constância, a sua independência num mundo norteado por padrões comportamentais e estéticos. 

Diferentemente dos aristocratas de O Baile de Máscaras – peça de Mauro Rasi que contou com Lilia Cabral no elenco –, fechados dentro de um apartamento, onde participavam de saborosas maratonas de filmes e óperas, Rita Lee estabeleceu resistência contra o opressivo e violento sistema político que imperou no Brasil durante décadas. Não por acaso, foi censurada com frequência na ditadura militar. Uma postura mais comprometida que a dos personagens de outro texto, Futuro do Pretérito, de Regiana Antonini, que conjugou as jornadas de casais com capítulos da história do país. Mas Rita Lee: Balada da Louca não ambiciona fornecer um amplo panorama do percurso da artista, e sim um recorte localizado, ainda que fatos importantes do passado da cantora sejam evocados no decorrer do relato.

Além dos tópicos temáticos, existem elos referentes a formatos de dramaturgia de encenações com a presença de Lilia Cabral. Como Feliz Ano Velho, montagem escorada em livro de Marcelo Rubens Paiva, e Divã, baseado em livro de Martha Medeiros, Rita Lee: Balada da Louca parte de uma obra literária. E mais uma vez como em Feliz Ano Velho, esse trabalho transporta para a cena um depoimento real sobre uma experiência de vida lancinante. Lilia Cabral também volta a enfrentar o risco do monólogo depois de Solteira, Casada, Viúva, Divorciada, montagem que surgiu da junção de textos curtos de Noemi Marinho, Luiz Arthur Nunes, Maria Adelaide Amaral e Regiana Antonini. 

Lilia Cabral faz Rita Lee na fase final da vida da cantora

Mas há uma especificidade no registro de Lilia Cabral, que se coloca de maneira direta em Rita Lee: Balada da Louca. Em dado instante da apresentação, a atriz tira a peruca, elemento fundamental da caracterização. Lilia desconstrói a personagem Rita Lee e assume fala em primeira pessoa, mencionando a admiração artística pela cantora e o conflituoso convívio com o pai. A dramaturgia tangencia o confessional (proposta interessante), sem, contudo, desenvolver essa vertente. Nos demais momentos, a atriz, oscilando com habilidade entre a narração e a vivência dos acontecimentos, busca captar a personalidade irreverente de Rita Lee. Traz à memória a entonação de voz da artista, mas sem limitar a atuação a uma reprodução mimética. As passagens de composição mais sublinhada são aquelas em que Lilia desenha personagens circunstanciais, como uma das enfermeiras que procura fazer com que a cantora siga com absoluta disciplina os protocolos do tratamento. 

O tom suave de Lilia Cabral combina com a concepção lúdica da cenografia de Pedro Levorin – perceptível nas cores das cadeiras, no móbile e nos instrumentos musicais (como o acordeom, utilizado para pontuar o movimento da respiração), objetos que remetem a um universo, em certo grau, infantil ou fantasioso. Um cenário afinado com a linguagem do espetáculo, mas não muito sedutor visualmente. O figurino de Walério Araujo acentua o perfil singelo e descontraído da encenação e a iluminação de Ana Luzia Molinari de Simoni realça, sem reiterar, os estágios emocionais de Rita Lee. Distante da estrutura do teatro musical – a cantora já foi homenageada num espetáculo do gênero, Rita Lee, uma Autobiografia Musical –, essa montagem inclui a música como componente sugestivo, acionado com alguma discrição por meio do acompanhamento sonoro e em eventuais cenas de canto (direção musical de Dani Nega). 

Lilia Cabral revela sua conexão com Rita Lee. Fotos: Cauê Moreno.

Essas proposições fazem de Rita Lee: Balada da Louca uma montagem simpática, mas de temperatura morna. Beatriz Barros – que acumula a direção e a adaptação dramatúrgica – não chega a imprimir, nas duas funções, vigor autoral. Sem perder de vista as dificuldades impostas pelo monólogo e a responsabilidade de interpretar uma personagem real, o texto de Samora não parece desafiar particularmente Lilia Cabral. De qualquer modo, a atriz garante um resultado comunicativo, que tende a conquistar o público.

RITA LEE: BALADA DA LOUCA – Texto de Guilherme Samora. Direção de Beatriz Barros. Com Lilia Cabral. Teatro Prio (Av. Bartolomeu Mitre, 1110). Sex. e sáb., às 20h, dom., às 18h. Ingressos: R$ 150,00 e R$ 75,00 (meia-entrada). Temporada: 9/10/2026 a 15/11/2026.

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