quinta-feira, 5 de novembro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
PORTO DE VISTA

Por um cinema anti-racista

“Tempos Brutos, Danças Furiosas” é o tema da 13ª edição de mostra realizada pelo Movimento SOS Racismo, que atua em Portugal desde 1990
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A filósofa e ativista norte-americana Angela Davis cunhou a frase que resume o imperativo da ação diante de estruturas sociais desiguais: “Numa sociedade racista, não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”. O diagnóstico tornou-se palavra de ordem estampada no título do livro “Não Basta Não Ser Racista — Sejamos Antirracistas”, da professora e pesquisadora norte-americana Robin DiAngelo. O cinema pode também se alinhar a esse pensamento e a essa atuação? Sem a menor dúvida, como tem demonstrado os organizadores da MICAR — Mostra Internacional de Cinema Anti-Racista, que abre a sua 13ª edição nesta quinta-feira (dia 22), no Porto, em Portugal.

Organizada pelo Movimento SOS Racismo, fundado em 1990 “como resposta ao crescimento do racismo e da xenofobia em Portugal”, a MICAR abraçou em 2026 o tema “Tempos Brutos, Danças Furiosas”. “Este ano, celebramos o fato de estarmos aqui”, diz o texto de apresentação. “Rimos lado a lado. Seguimos ombro a ombro. Na alegria, que é também luta, alimento e semente de futuros possíveis, praticamos cuidado mútuo. Testemunhamos a resistência, a solidariedade e a cooperação que nos sustentam. Inspirando-nos na tradição da alegria negra (Black Joy) e nas práticas de resistência afetiva que dela irradiam, na 13.ª MICAR, havemos de dançar furiosamente, como propõe Alice Walker. Não para esquecer a vileza do mundo, mas porque é também na alegria que recusamos a rendição. É nela que resistimos. Que nos afirmamos a vida.”

Angela Davis

“Black Joy”, destacam os organizadores, “consiste em celebrar existência, resistência, prazer, cuidado, criatividade e liberdade negras apesar do racismo, afirmando vidas, afetos e comunidade”.

A escritora e ativista norte-americana Alice Walker foi consagrada com a publicação do romance “A Cor Púrpura” (1982), vencedor do National Book Award e do Pulitzer de ficção, adaptado para o cinema em filme produzido e dirigido por Steven Spielberg, com Whoopi Goldberg, Oprah Winfrey, Danny Glover e Margaret Avery. Foi indicado ao Oscar em 11 categorias, mas não levou nenhum. De Walker, os organizadores da MICAR pescaram com sabedoria o poema “The Taste of Grudge” (O sabor do ressentimento), do livro “Hard Times Require Furious Dancing” (Tempos difíceis exigem uma dança furiosa), de 2010:

Let the joyful heart
that knows the dance return
Sorrow has banished it
grief has stilled my feet.
But there remains internal movement toward life’s margin
where all begins again in solemn beat.

Em tradução desajeitada de quem não tem como ofício traduzir

Que retorne o coração alegre
que conhece a dança!
A tristeza o expulsou
Meus pés foram imobilizados pelo pesar
Mas resta um movimento interior em direção à margem da vida
onde tudo recomeça em um compasso solene.

“No entanto, será difícil, nesta edição, não falar de brutalidade”, prossegue o texto de apresentação da 13ª MICAR. “Da força bruta que se lança quotidianamente contra tantas pessoas, em Portugal e no mundo. Na perseguição e criminalização de pessoas migrantes. Nas agressões e na desumanização de pessoas racializadas. Na intolerância e na violência dirigida contra pessoas LGBTQIA+. Na violência patriarcal, machista e misógina que insiste em controlar corpos, silenciar vozes e limitar modos de existência. No avanço de ideias reacionárias e supremacistas, promotoras de desigualdade e exclusão.”

“Seguimos, então, contra a violência e o ódio que se multiplicam a cada dia, nas ruas e nas redes, que entram em todas as casas e se amplificam em discursos políticos, em alterações legislativas, em desigualdades crescentes. Não temos ilusões e não esperamos tempos fáceis. Mas é também por isso que escolhemos juntarmo-nos em torno da alegria. Queremos que se juntem a nós, de braços dados na luta, numa alegria que é também insubmissão. Dançando, em celebração e resistência, contra a barbárie, no cuidado que nos une e no mundo que ainda queremos construir.”

Parece então muito apropriado que a MICAR seja aberta pelo documentário de curta-metragem “Black Joy” (2025), dirigido pela escritora, cineasta e consultora criativa austríaca Kẹ́mi Fátọba — fundadora e editora da revista de cultura “DADDY” (voltada para a diversidade no cenário cultural), fundadora da plataforma “South-North Conversation” (ancorada na perspectiva decolonial), e colaboradora da versão alemã da revista “Vogue”. No filme, inspirado na atuação de movimentos como Harlem Renaissance (nascido em Nova York, no final da década de 1910, e que durou até os anos 1930) e Black is Beautiful (também surgido nos EUA, nos anos 1960), ela identifica a alegria como “força política, espaço de imaginação e possibilidade de futuro” a partir da reunião de artistas e ativistas de Berlim, Londres e Nova York.

A produção brasileira marca presença na sessão de abertura com o documentário de longa-metragem “Alma Negra, do Quilombo ao Baile” (2026), de Flavio Frederico, diretor de “Urbania” (2001), “Em Busca de Iara” (2013), “Rumo” (2019) e “Assalto na Paulista” (2022). Frederico mergulha no túnel do tempo para abordar o surgimento da “soul music” brasileira, nos anos 1960, e a realização dos bailes black de São Paulo e do Rio de Janeiro. O movimento leva à conquista de espaços na indústria fonográfica e nos meios de comunicação, contribuindo para a afirmação da identidade negra no Brasil.

Alice Walker

Outra produção recente na programação da MICAR é o longa-metragem de ficção “Ali, Aqui” (2025), co-dirigindo por Sony Furtado, Fábio Lima, Martina Maher, José Monteiro, Rafael Moura e Marlene Nobre. Com base no projeto de cinema comunitário Atlas Almada, o dia-a-dia de moradores de Monte de Caparica — bairro no concelho (município) de Almada, ligado a Lisboa pela ponte 25 de Abril, sobre o rio Tejo — dá origem a histórias paralelas que procuram fugir a estereótipos sobre a população trabalhadora local. Dessa forma, Monte de Caparica é representado como “um espaço de imaginação, afeto e criação”, no qual “a memória, a pertença e o cotidiano se entrelaçam” a partir de pequenos encontros.

Na MICARzinha, sessão voltada a estudantes da educação básica, o Brasil marca presença também com o documentário de curta-metragem “Pavilhão” (2025), de Victoria Fiore, em que uma criança entra em contato com suas raízes afro-brasileiras e com as origens do samba. Dois curtas de animação completam a sessão: o britânico “Checkpoint” (2021), de Jana Kattan, sobre uma criança de 11 anos obrigada diariamente a passar por um posto de controle, no território ocupado onde vive; e o português “A Maior Viagem” (2026), realizado por crianças que participaram de uma oficina coordenada pelo Centro Lúdico da Imagem Animada da Anilupa — Associação de Ludotecas do Porto.

Diversos outros curtas e longas — recentes e também mais antigos — compõem a programação, como a ficção científica “Born in Flames” (1983), da norte-americana Lizzie Borden, diretora de “As Profissionais do Sonho” (“Working Girls”). Borden imagina os EUA dez anos depois de uma revolução socialista — que, no entanto, resultou em organização social que continua a excluir mulheres. A sessão de encerramento da mostra exibirá o documentário de longa-metragem “Talking About Trees” (2019), do sudanês Suhaib Gasmelbari. Uma aldeia do Sudão é o cenário para a jornada de quatro amigos, veteranos integrantes de um coletivo de cinema local, que estão dispostos a encarar uma montanha de obstáculos para concretizar um sonho: a recuperação de uma antiga sala de exibição, sugestivamente chamada de Revolution Cinema.

A 13ª edição da mostra festeja também o lançamento do “Caderno MICAR 2026”, com 160 páginas e textos escritos por 15 colaboradores, entre os quais o artista e pesquisador brasileiro Rafael Alves Campos, a escritora e filósofa Luisa Semedo, a curadoria e crítica cultural Kitty Semedo, e o designer gráfico Fábio Lima (co-diretor de “Ali, Aqui”).

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