quinta-feira, 22 de outubro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
MOSTRA DE SP

Vento do leste

Entre os destaques do mar de filmes da 50ª Mostra de São Paulo estão duas pérolas vindas do leste europeu, o russo Minotauro e o polonês-alemão A Terra do Meu Pai.
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Entre os mais de trezentos longas-metragens programados para a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, os dois que mais me impressionaram até agora, por sua força imagética, política e humana, e pela perfeita adequação entre forma e conteúdo, vieram do leste da Europa: o russo Minotauro, de Andrey Zvyagintsev, e o polonês-alemão A Terra do Meu Pai, de Pawel Pawlikowski. Vamos a eles.

Comecemos pelo russo, que ganhou o grand prix (uma espécie de segundo lugar) no recente festival de Cannes. À guisa de sinopse, basta dizer que é uma retomada livre e inventiva do argumento de A Mulher Infiel (1969), de Claude Chabrol: um homem desconfia que a esposa o trai, contrata um detetive e… o restante não se pode dizer, sob pena de estragar uma das cenas mais espetaculares do filme. Só que esse esquema é transposto para a Rússia de hoje e tem como pano de fundo a guerra da Ucrânia.

Minotauro, de Andrey Zvyagintsev

Em Minotauro, o marido traído é Gleb (Dmitriy Mazurov), diretor de uma grande empresa privada, que é pressionado pelo governo a selecionar catorze funcionários para um alistamento militar compulsório. Atormentado duplamente pelo dilema moral-profissional e pelo ciúme da esposa Galina (Iris Lebedeva), Gleb é uma bomba-relógio ambulante, escondida sob uma fachada burguesa respeitável.

O que impressiona e encanta no filme é a precisão elegante com que Zvyagintsev desdobra sua narrativa, articulando sutilmente fundo e figura, isto é, o contexto geopolítico e o drama pessoal. Com uma utilização sagaz da profundidade de campo e dos movimentos sutis de câmera, há sempre várias camadas da imagem a ser assimiladas.

Alguns exemplos podem tornar mais clara a afirmação acima. Logo na primeira sequência, na casa de alto padrão do casal, Gleb recebe um telefonema que o deixa apreensivo e sai ao jardim para atendê-lo. Vemos então, em primeiro plano, dentro da casa, a mãe, a esposa e o filho adolescente de Gleb tratando de coisas banais, cotidianas; ao mesmo tempo, pelo vidro do terraço, acompanhamos os gestos e reações de Gleb ao telefone, intuindo a gravidade da situação. Só mais tarde saberemos do que se trata, mas a atmosfera de tensão já foi instalada.

Minotauro, de Andrey Zvyagintsev

Em outros momentos, a presença da guerra se faz de maneira sutil. Quando Galina atravessa uma rua para ir ao encontro do amante, no fundo do quadro, vemos atravessar em sentido contrário um homem amputado, de uniforme militar, numa cadeira de rodas. Em outro momento, Gleb, dirigindo seu carro sob grande aflição, tem que parar diante da linha férrea para a passagem de um trem transportando tanques de guerra. Num resto de muro, em outra cena, lê-se a frase pichada “Foda-se a guerra deles”. A todo momento esse jogo entre o pessoal e o público se faz presente.

Pouco antes da metade do filme, duas admiráveis panorâmicas de 360 graus, uma seguida da outra, expõem o jogo entre essas duas esferas. Na primeira, no apartamento do amante de Galina, um fotógrafo, vemos o início de uma cópula entre o casal e depois a câmera percorre todo o ambiente, mostrando as fotos coladas em painéis, equipamentos fotográficos, uma pequena sala escura, etc., antes de voltar à cama, com o ato já consumado – como se os poucos minutos da panorâmica tivessem durado um par de horas.

A segunda panorâmica completa se dá no escritório da empresa de Gleb, em torno da mesa em que ele reúne funcionários recém-contratados pela firma, no que já sabemos ser uma armadilha montada para a convocação militar. A câmera perscruta brevemente seus rostos, e por trás do blá-blá-blá profissional sabemos que são pessoas marcadas para matar e, talvez, morrer.

Com essa consciência aguda da forma, Minotauro desenvolve um drama moral e político poderoso, em que a culpa está no centro de tudo: uma culpa dostoievskiana – e, podemos dizer, hitchkockiana (até porque Chabrol era um discípulo criativo de Hitchcock). Crime e castigo, crime sem castigo, castigo sem crime. É essa equação que Zvyagintsev (diretor também do admirável Leviatã, de 2014) nos apresenta em seu filme.

 A Terra do Meu Pai, de Pawel Pawlikowski

Já A Terra do Meu Pai, do polonês Pawel Pawlikowski (o mesmo de Ida e Guerra Fria), é ambientado na Alemanha de 1949 e trata da volta de Thomas Mann (Hanns Zischler) a sua terra natal para receber o prestigioso Prêmio Goethe, depois de décadas de exílio nos EUA. Acompanhado da filha Erika (a sempre excepcional Sandra Hüller), o velho escritor vai primeiro a Frankfurt, na Alemanha Ocidental, depois a Weimar, na então Alemanha Oriental dominada pelos soviéticos.

Outro filho de Thomas, o também escritor Klaus Mann, aparece apenas nos primeiros minutos, numa cena ambígua na cama, falando ao telefone com a irmã. Ele se mataria alguns dias depois – e sua presença/ausência acompanha todo o filme feito uma sombra.

Em escassos 82 minutos, Pawlikowski consegue fundir numa narrativa clara e enxuta o drama da família Mann e o contexto espinhoso do início da Guerra Fria, com a Alemanha dividida entre a influência norte-americana e a soviética, trazendo de quebra uma reflexão sobre as relações entre a literatura (e a arte em geral) com a história e a política. Agentes da CIA, ex-nazistas, eminências pardas soviéticas, jornalistas a soldo, toda uma fauna de abutres paira sobre o escritor e sua filha. Mas o fantasma maior é mesmo o do infeliz suicida Klaus.

Todos esses atritos, explícitos ou subterrâneos, são expressos num preto-e-branco sóbrio e elegante, matizado, de baixo contraste – o oposto do dramático claro-escuro do expressionismo. O mundo moral e político que se descortina ali é mais ambíguo, com todos os tons de cinza que se possa imaginar. Diálogos truncados, meias palavras, meia voz: nesse ambiente formal, de homenagens, discursos e banquetes, um inesperado tapa na cara, uma brusca elevação de tom, uma lágrima furtiva, assume uma força dramática extraordinária.

Tudo conflui para um final epifânico e comovente, nas ruínas de uma catedral bombardeada, ao som de um órgão de tubos tocando Bach – o compositor que, segundo Klaus Mann, quase o fez acreditar em Deus. Diante desta cena, quase acreditamos também. Em tempo: o filme deu a Pawlikowski o prêmio de direção em Cannes. Fatherland, o título original (que é em inglês, não em alemão nem em polonês), significa “pátria”.

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