quinta-feira, 22 de outubro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
MOSTRA DE SP

Quem Matou Narciso?, de Marcelo Martinessi

Filme paraguaio que opõe rock e ditadura é um dos destaques inesperados da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
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A 50ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que começa nesta quinta-feira, traz o tradicional banquete do melhor cinema autoral do mundo, com obras que vão do romeno Radu Jude aos japoneses Kiyoshi Kurosawa e Ryusuke Hamaguchi, do filipino Lav Diaz ao argentino Lisandro Alonso, do coreano Hong Sang-soo aos brasileiros André Novais e Julio Bressane.

Em meio a essa constelação de nomes consagrados, corre o risco de ficar eclipsada uma pequena joia vinda do Paraguai: Quem Matou Narciso?, de Marcelo Martinessi (o mesmo do multipremiado As Herdeiras, de 2018).

Apesar do título brasileiro (o original é simplesmente Narciso), não se trata de um suspense do tipo whodunit, mas de um drama político-moral ambientado em 1958, numa Asunción ainda provinciana. O Narciso do título (Diro Romero) é um jovem apaixonado por rock’n’roll que convence Lulu Bermúdez, dono de uma rádio, a deixá-lo apresentar um programa de auditório dedicado ao gênero, divulgando a música de Buddy Holly, Chuck Berry, Elvis Presley e Little Richard.

A princípio resistente, Lulu se deixa seduzir pelo carisma e pela determinação de Narciso, e em pouco tempo o programa vira um sucesso estrondoso, para delírio da juventude local e horror dos defensores dos “valores da família” e da música folclórica tradicional.

O pano de fundo – que logo ganhará o centro do palco – é a então nascente ditadura de Alfredo Stroessner. O presidente, que chegara ao poder dois anos antes e ficaria nele por mais 33, só é referido no filme por seu apelido, el Rubio (o Louro). O rock e a ditadura, portanto, chegam praticamente juntos ao até então pacato Paraguai, mas não de mãos dadas, e sim em colisão. É essa colisão a força motriz do filme.

A habilidade do roteiro e da direção de Martinessi consiste em equilibrar e entrelaçar vários eixos narrativos: a vida sexual de Narciso, que seduz mulheres e homens; a chegada de um emissário do governo norte-americano (Nahuel Pérez Biscayart); os bastidores da emissora de rádio e os programas de auditório que apresenta, em especial o show dançante de rock e uma radionovela adaptada do Drácula de Bram Stoker.

Os capítulos de Drácula, com sua criativa sonoplastia artesanal, são um espetáculo à parte, infundindo ao mesmo tempo humor e uma atmosfera sinistra ao conjunto do filme – ambientado invariavelmente à noite, aliás. Aos poucos vai ficando claro que o vampiro da radionovela (o excepcional ator Arturo Fleitas) remete ao próprio el Rubio, cuja polícia passa a investir cada vez com mais violência contra os “costumes imorais” que, na leitura tacanha do poder, chegam junto com o rock. A comunidade LGBTQIA+, que na época não tinha esse nome, passa a ser vigiada, fichada e perseguida sem trégua.

Narciso morre logo nos primeiros minutos do filme, que passa a se desenrolar então como um longo flashback. O espectador talvez seja tentado a especular quem o matou. São muitos os possíveis suspeitos. Mas o que fica claro ao longo da narrativa é que, seja quem for o executor individual do homicídio, trata-se de um assassinato político-moral, um crime coletivo. Narciso é morto por uma sociedade provinciana, moralista e tacanha – insuflada por um ditador sanguinário de olhos azuis.

Um aspecto acessório, mas não pouco importante, é a associação entre o discurso nacionalista, patrioteiro, e a submissão aos interesses imperialistas norte-americanos. Qualquer semelhança com o que ocorre num país vizinho (qualquer um deles) não será mera coincidência.

O filósofo italiano Benedetto Croce escreveu que “toda história é história contemporânea”, ou seja, quando falamos do passado estamos falando do presente. Analogamente, todo filme “de época” fala, de muitas maneiras, sobre a época em que é feito, sobre hoje. É o caso de Narciso, que ganhou o prêmio da crítica na mostra Panorama do Festival de Berlim e venceu o recente Bonito CineSur – Festival de Cinema Sul-Americano de Bonito (MS).

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