A 28ª edição do Festival do Rio, encerrada neste domingo, 11 de outubro de 2026, com respecagem até dia 14 de outubro, cumpriu seu papel histórico de termômetro e vitrine do cinema brasileiro contemporâneo. A consagração de A Margem do Rio, longa pernambucano de Enock Carvalho e Matheus Farias, com o Troféu Redentor de Melhor Longa de Ficção e o Prêmio Felix de Melhor Filme Brasileiro, aponta para uma tendência incontornável na Première Brasil: a consolidação de narrativas de gênero — neste caso, um suspense político e queer ambientado no mangue recifense — que usam o rigor estético para tensionar as fraturas sociais do país. Ao acumular láureas fundamentais como Melhor Fotografia e Melhor Som, o longa demonstra que o cinema independente nacional alcançou uma maturidade formal impecável, onde a atmosfera sensorial e o domínio técnico não são meros adereços, mas ferramentas indispensáveis para a construção do discurso político.

Paralelamente, o festival encontrou seu ápice emocional nas discussões sobre o luto e a alteridade através de obras de imenso apelo humanista. Vincentina Pede Desculpas, dirigido por Gabriel Martins (vencedor de Melhor Direção de Ficção e Roteiro), emocionou as salas ao acompanhar a jornada dolorosa de uma mãe septuagenária em busca de redenção pelos atos do filho. O filme personifica uma sensibilidade para o melodrama contemporâneo, evitando o maniqueísmo ao colocar a empatia como motor da narrativa. Apesar da estrutura clara e aspectos de produção de ser e para ser ‘um filme da Netflix”, tem muitos méritos. Da mesma forma, o empate histórico no prêmio de Melhor Atriz entre Isabel Teixeira e Grace Passô (por A Professora de Francês) coroa performances que sustentam, pela interpretação de seus corpos e silêncios, as complexidades e os horrores cotidianos das relações de classe e poder no Brasil.
No campo dos documentários, o júri oficial andou em sintonia com a vanguarda estética ao premiar Elza, ensaio poético dirigido por Eryk Rocha. O filme rejeita com veemência a estrutura didática e cronológica das cinebiografias tradicionais para se transformar em um jorro de afeto e experimentação sensorial. Ao costurar imagens de arquivo, trechos de filmes históricos e um desenho de som monumental assinado por Waldir Xavier, a produção transforma a voz rouca e a biografia de Elza Soares em uma radiografia mitológica de um país em perpétua ebulição. A obra se destaca justamente por compreender que uma figura monumental não cabe em entrevistas burocráticas; ela exige que o próprio cinema se desestruture para captar a pulsação de sua arte e de seu legado.

Apesar do inegável brilho artístico das obras individuais, as sessões competitivas e de gala também expuseram arestas crísticas e problemas estruturais que não podem ser ignorados. Algumas produções que miravam o terror psicológico ou o suspense social demonstraram uma forte dependência de convenções importadas do cinema hollywoodiano e de plataformas de streaming, no caso inclusive já citado de Vincentina Pede Desculpas. Em diversos momentos, roteiros promissores sacrificaram o desenvolvimento psicológico de seus personagens em nome de reviravoltas artificiais ou de uma urgência em entregar mensagens pedagógicas ao espectador. Essa inclinação para o “cinema de tese”, onde o debate de pauta engole a organicidade da trama, resultou em resoluções narrativas apressadas e em um tom professoral que subestima a capacidade de interpretação do público.
Outro ponto que gerou debates acalorados nos corredores dos cinemas Estação foi a visível disparidade na curadoria e na distribuição de janelas entre as mostras competitivas. Enquanto a competição principal da Première Brasil desfrutou de sessões lotadas e forte engajamento, a mostra Novos Rumos — voltada para linguagens emergentes — e as exibições de curtas-metragens sofreram com horários ingratos e salas esvaziadas. Filmes corajosos como o vencedor Não Estamos Sonhando, de Ulisses Arthur, acabaram confinados a um circuito restrito a iniciados e profissionais da área. Além disso, a onipresença de grandes estúdios e corporações de streaming na grade de programação levanta o questionamento se o festival, em sua busca louvável por sustentabilidade financeira e reconstrução de público, não corre o risco de sufocar as vozes verdadeiramente marginais e independentes que historicamente definiram o evento.

Em última análise, o Festival do Rio 2026 mostrou ser uma força e de uma impoirtância vital para o cinema nacional e uma vitrine para o cinema estrangeiro. Uma mostra com exibição de mais de 300 filmes, com destaques internacionais e lançamentos nacionais, e encerra seu ciclo provando que o cinema brasileiro não apenas sobreviveu ao desmantelamento de anos anteriores, mas readquiriu sua musculatura econômica e artística. O evento alcançou a expressiva marca de mais de 150 mil espectadores, ocupando as salas de cinema da cidade como um ato político de reconexão coletiva. Os filmes premiados deixam claro que os cineastas nacionais encontraram na fabulação, no terror social e no resgate documental as ferramentas certas para digerir a realidade. Resta agora o desafio de fazer com que a potência vista nas telas do festival se desdobre em uma distribuição comercial justa e democrática, permitindo que essas obras cheguem ao espectador comum a partir do próximo ano.