sábado, 24 de outubro de 2026 |
REVISTA LUME • ESTÉTICA COMO EXPANSÃO DA MENTE
CRÍTICA

Morte e Vida Madalena, de Guto Parente

O set caótico de um filme B de ficção científica é o palco de uma comédia saborosa sobre as relações entre cinema e vida.
WhatsApp

Uma equipe de cinema está prestes a filmar no litoral do Ceará uma produção barata de ficção científica. O problema é que o diretor sumiu, o dinheiro não veio, os técnicos estão à beira de uma greve e a produtora Madelena (Noá Bonoba), que assumiu a direção, está grávida de oito meses. Desse caos o cineasta cearense Guto Parente (de Inferninho e Estranho Caminho, entre outros) extraiu uma comédia dramática ao mesmo tempo feroz e amorosa.

Como se chama o longa-metragem que está sendo feito? Só Deus Sabe, aparece de relance numa claquete, no lugar do título. Ao que tudo indica, é mais uma piada interna, entre tantas que rolam no set. O fato é que o filme é muito caro a Madalena porque era um projeto de seu pai (Carlos Francisco), cujo velório acompanhamos na primeira cena de Morte e Vida Madalena. Para piorar, o diretor sumido, Davi (Marcus Curvelo), foi seu marido adúltero no passado.

Essas informações são fornecidas ao espectador aos poucos. A construção narrativa é fragmentária, lacunar, mas perfeitamente inteligível. A oscilação de tom entre o drama e a comédia está presente desde a primeira cena: durante o velório do pai de Madalena, num palco de teatro, o distraído Davi apoia um pé no fole da máquina que produz fumaça, enevoando todo o ambiente. O efeito é cômico e, ao mesmo tempo, um tanto misterioso. A imagem de uma Madalena furiosa, envolta em bruma, parece saída de uma tragédia grega.

A figura forte da atriz Noá Bonoba, aliás, domina a tela como uma presença mítica, uma força da natureza. Sua atuação é não menos que fabulosa. Atriz transgênero, representando aqui uma mulher cis que engravida e dá à luz, Noá tem classificado sua atuação como “cisfake”, numa resposta provocadora à situação habitual oposta, em que atores e atrizes cis interpretam personagens trans. O fato é que ela é uma grande atriz, que nos convence plenamente (e nos diverte e nos comove) como a atormentada Madalena.

No filme, os perrengues costumeiros no set ora descambam para a chanchada rasgada – por exemplo, quando o ator maluquete Oswaldo (Tavinho Teixeira) assume por um momento a direção –, ora assumem uma tonalidade dramática e angustiada. Apesar de todos os percalços, contratempos, desavenças e rivalidades, prevalece uma energia coletiva, um desejo comum de produzir uma obra.

O pêndulo dramático de Morte e Vida Madalena é personificado, de certa forma, em dois personagens opostos e complementares, Oswaldo e Madalena. O primeiro é a encarnação do princípio do prazer e da loucura, um parafuso solto na engrenagem do set. Madalena, por sua vez, encarna o peso da responsabilidade de fazer aquela máquina funcionar e fabricar um filme. Talvez seja essa a chave-mestra de Morte e Vida Madalena: dar à luz um filme é parir um filho. 

         Nos momentos de introspecção da protagonista, de flashback com o pai ou de diálogo íntimo (por telefone) com o namorado distante, ou ainda de sua relação com o vaso que guarda as cinzas do pai, instila-se em Morte e Vida Madalena um tema mais pungente: as relações humanas de parentesco, amor e amizade.

Nesse contexto, as cenas do filme dentro do filme são o contraponto cômico, com sua ação absurda envolvendo seres alienígenas num cenário trash que lembra os filmes de Ed Wood. A trilha musical de Paulo Gama sublinha eficazmente essas mudanças de tom. E as canções incluídas na trilha são sempre certeiras, da melodramática “Porto Solidão”, cantada por Jessé, à luminosa “Juízo Final”, de Nelson Cavaquinho, cantada pelo próprio e desafinada em coro pela equipe do filme dentro do filme.

Se o longa anterior de Guto Parente, Estranho Caminho, abordava poeticamente a relação de um filho com o pai, aqui o assunto se desdobra: a trajetória de Madalena vai da morte do pai ao nascimento do filho. Não por acaso, Madalena começa com um velório e termina com um parto. E é dedicado a Pecã, filhinho bebê de Ticiana Augusto Lima, produtora executiva do filme, que aparece (o bebê), na última imagem. Vida que produz cinema, cinema que produz vida.

NEWSLETTER EDITORIAL

Uma seleção criteriosa dos melhores ensaios, críticas e criações entregue semanalmente no seu e-mail.

NOTA EDITORIAL & ISENÇÃO DE CRIAÇÃO: Os textos, opiniões, ensaios e criações publicados nesta página são de responsabilidade exclusiva de seus respectivos autores, não refletindo necessariamente a opinião da Revista Lume. Saiba mais em nossa página de Isenção de Responsabilidade.
100%