Uma equipe de cinema está prestes a filmar no litoral do Ceará uma produção barata de ficção científica. O problema é que o diretor sumiu, o dinheiro não veio, os técnicos estão à beira de uma greve e a produtora Madelena (Noá Bonoba), que assumiu a direção, está grávida de oito meses. Desse caos o cineasta cearense Guto Parente (de Inferninho e Estranho Caminho, entre outros) extraiu uma comédia dramática ao mesmo tempo feroz e amorosa.
Como se chama o longa-metragem que está sendo feito? Só Deus Sabe, aparece de relance numa claquete, no lugar do título. Ao que tudo indica, é mais uma piada interna, entre tantas que rolam no set. O fato é que o filme é muito caro a Madalena porque era um projeto de seu pai (Carlos Francisco), cujo velório acompanhamos na primeira cena de Morte e Vida Madalena. Para piorar, o diretor sumido, Davi (Marcus Curvelo), foi seu marido adúltero no passado.

Essas informações são fornecidas ao espectador aos poucos. A construção narrativa é fragmentária, lacunar, mas perfeitamente inteligível. A oscilação de tom entre o drama e a comédia está presente desde a primeira cena: durante o velório do pai de Madalena, num palco de teatro, o distraído Davi apoia um pé no fole da máquina que produz fumaça, enevoando todo o ambiente. O efeito é cômico e, ao mesmo tempo, um tanto misterioso. A imagem de uma Madalena furiosa, envolta em bruma, parece saída de uma tragédia grega.
A figura forte da atriz Noá Bonoba, aliás, domina a tela como uma presença mítica, uma força da natureza. Sua atuação é não menos que fabulosa. Atriz transgênero, representando aqui uma mulher cis que engravida e dá à luz, Noá tem classificado sua atuação como “cisfake”, numa resposta provocadora à situação habitual oposta, em que atores e atrizes cis interpretam personagens trans. O fato é que ela é uma grande atriz, que nos convence plenamente (e nos diverte e nos comove) como a atormentada Madalena.
No filme, os perrengues costumeiros no set ora descambam para a chanchada rasgada – por exemplo, quando o ator maluquete Oswaldo (Tavinho Teixeira) assume por um momento a direção –, ora assumem uma tonalidade dramática e angustiada. Apesar de todos os percalços, contratempos, desavenças e rivalidades, prevalece uma energia coletiva, um desejo comum de produzir uma obra.

O pêndulo dramático de Morte e Vida Madalena é personificado, de certa forma, em dois personagens opostos e complementares, Oswaldo e Madalena. O primeiro é a encarnação do princípio do prazer e da loucura, um parafuso solto na engrenagem do set. Madalena, por sua vez, encarna o peso da responsabilidade de fazer aquela máquina funcionar e fabricar um filme. Talvez seja essa a chave-mestra de Morte e Vida Madalena: dar à luz um filme é parir um filho.
Nos momentos de introspecção da protagonista, de flashback com o pai ou de diálogo íntimo (por telefone) com o namorado distante, ou ainda de sua relação com o vaso que guarda as cinzas do pai, instila-se em Morte e Vida Madalena um tema mais pungente: as relações humanas de parentesco, amor e amizade.
Nesse contexto, as cenas do filme dentro do filme são o contraponto cômico, com sua ação absurda envolvendo seres alienígenas num cenário trash que lembra os filmes de Ed Wood. A trilha musical de Paulo Gama sublinha eficazmente essas mudanças de tom. E as canções incluídas na trilha são sempre certeiras, da melodramática “Porto Solidão”, cantada por Jessé, à luminosa “Juízo Final”, de Nelson Cavaquinho, cantada pelo próprio e desafinada em coro pela equipe do filme dentro do filme.

Se o longa anterior de Guto Parente, Estranho Caminho, abordava poeticamente a relação de um filho com o pai, aqui o assunto se desdobra: a trajetória de Madalena vai da morte do pai ao nascimento do filho. Não por acaso, Madalena começa com um velório e termina com um parto. E é dedicado a Pecã, filhinho bebê de Ticiana Augusto Lima, produtora executiva do filme, que aparece (o bebê), na última imagem. Vida que produz cinema, cinema que produz vida.